Rápida assimilação marca história dos judeus no Brasil

Professora observa que, com exceção de alguns focos de tensão, Nação propiciou integração e oportunidades

O traço mais marcante da civilização judaica é a capacidade extraordinária de preservar sua identidade, mantida ao longo de milhares de anos, apesar das perseguições, da dispersão e da própria evolução. O traço mais marcante da civilização brasileira é a capacidade extraordinária de assimilar culturas, apesar das hegemonias, das heterogeneidades e das tensões de toda sorte. Então, como fica essa interação entre o ser judeu e o ser brasileiro?

Ou: o que é ser judeu no Brasil?

O editor e professor Jacó Guinsburg inicia sua resposta lembrando que “o Brasil herdou a carga histórica de Portugal, em que o judeu era diabolizado”, e “havia preconceito fortíssimo antes da 2.ª Guerra, com a propaganda anti-semita de Gustavo Barroso e coisas assim”.

Entretanto, “o Brasil é um país aberto para o entrecruzamento e poroso”, diz Guinsburg. “Certas partículas atravessam o filtro.” É do contato entre o filtro da assimilação brasileira e as partículas de judaísmo que conseguem atravessá-lo que resultam, de um lado, a cultura judaica no Brasil e, de outro, a influência dessa cultura sobre o Brasil.

O editor diz que a maioria dos judeus no Brasil não fala a língua de sua comunidade original, “embora haja uma tendência a aprender o hebraico”. O português é a língua corrente na maioria das casas de judeus da segunda ou terceira geração, estima Guinsburg. Até porque os casamentos mistos são cada vez mais freqüentes. O próprio Guinsburg – tradutor de vários livros do iídiche –, que nasceu na Bessarábia (hoje Romênia) e veio para o Brasil com 3 anos, só costumava falar iídiche enquanto seus pais eram vivos.

É óbvio que a assimilação e a interação não têm transcorrido totalmente livres de tensões. Neste século, no Brasil, “o judeu não foi hostilizado, a não ser pelo integralismo”. A professora Nancy Rozenchan, de Literatura Hebraica, da USP, lembra que a maioria dos judeus veio para o Brasil procurando algo muito básico – “refúgio, meios de sobrevivência”, em momentos em que as portas estavam fechadas para eles em boa parte do mundo.

Apesar das restrições durante o Estado Novo, apesar de casos de discriminação aqui e ali, no Brasil, de maneira geral, os judeus encontraram o que buscavam. O pai dela, Ucher Rozenchan, deixou a Bessarábia em 1926, para escapar do alistamento no Exército romeno. Duas irmãs de Ucher, uma das quais esteve no Brasil, preferiram ficar por lá. Acabaram mortas pelos soldados alemães na rua, em 1941, onde hoje é a Ucrânia. Ucher conheceu a mãe da professora, Lila, aqui em São Paulo, embora ambos fossem da cidadezinha de Hotin.

Segundo a professora, o Brasil significa para os judeus, fundamentalmente, “oportunidade de ir à escola e de crescer”. Embora nos Estados Unidos as oportunidades econômicas e a dimensão da comunidade judaica tenham sido muito maiores, a professora acha que em nenhum país das Américas os judeus encontraram tanta “abertura” quanto no Brasil.

Nos Estados Unidos, somente na virada da década de 30 para a de 40, diz Rozenchan, um judeu conseguiu tornar-se professor de inglês numa universidade. Claro que se tratava de um judeu americano. Mesmo assim, o presidente teve de dar permissão para que o professor fosse aceito, porque o ensino universitário do inglês era, até então, monopólio da descendência anglo-saxônica.

“No Brasil, não se ouvem histórias assim”, diz a professora. Cita o exemplo da família Palatnik, que chegou a Natal nos anos 10. A capital do Rio Grande do Norte era então uma cidade pequena, que nunca tinha visto judeus antes.

Os imigrantes russos foram recebidos pelo padre local, que falava hebraico, e estabeleceram-se como comerciantes. A partir daí, “os judeus criaram instituições e escolas dentro das possibilidades da comunidade”, sem restrições.

A professora orientou uma dissertação de mestrado justamente sobre o tema da identidade judaica, defendida, no ano passado, pela psicóloga Sylvana Hemsi. Aqui, a pergunta “o que é ser judeu no Brasil?” tem de ser desmembrada. Antes, é preciso responder uma questão mais básica ainda: o que é ser judeu?

De acordo com a Halakha, o conjunto das leis judaicas, é judeu quem é filho de mãe judia – ou se comporte conforme a tradição. Alguns rabinos ortodoxos não aceitam o conceito de conversão, para filhos de mães não-judias. Mesmo na comunidade de formação “liberal”, em São Paulo, estudada por Hemsi, “os indivíduos que se convertem ao judaísmo são atingidos por preconceitos”.

Segundo a pesquisadora, que ouviu judeus com 35 a 45 anos de idade, “as conversões foram consideradas inválidas pela maioria dos entrevistados, que questionaram a sua consistência e as vêem como mera formalidade para fins de casamento”.

Entretanto, a definição predominante de judeu se refere à observância dos princípios éticos e ao vínculo com a comunidade. Ter mãe judia parece ser condição necessária, mas não suficiente. “Um judeu de mãe judia pode não ter nenhum sentimento de ser judeu”, diz um entrevistado de Hemsi.

Outra afirma que “judeu é aquele que se identifica com as tradições da religião, procura cumpri-las, transmitir esses conhecimentos para os filhos e dedicar-se à comunidade”. Nessa concepção, um judeu não pode ser bom “só porque comemora todas as festas”, se ao mesmo tempo “rouba de um amigo”, por exemplo. Não é preciso sequer ser “extremamente religioso” para “ser um bom judeu”, admite essa entrevistada.

Hemsi cita uma pesquisa publicada em 1991, nos Estados Unidos, que teve resultados semelhantes aos seus. Indagados sobre o que consideram essencial para ser um “bom judeu”, tanto os americanos quanto os brasileiros citam as “questões morais” antes do “ritual judaico, do estudo da Torá e da obediência às suas leis”. A lógica, segundo a pesquisadora, mudou de “ser um bom judeu faz de você uma pessoa boa” para “ser uma pessoa boa faz de você um bom judeu”.

A pesquisadora diz que “todos os entrevistados se consideraram judeus e muitos gostariam de harmonizar, dentro de si e de uma forma mais ampla, o seu judaísmo”. Queixam-se de falta de conhecimento suficiente para “aceitar as regras impostas pela tradição” e para encontrar “respostas às suas questões espirituais”. O sentimento do judaísmo e a prática das tradições, segundo Hemsi, estão mais ligados ao “pertencer” e a “raízes herdadas” do que ao “significado religioso”: “a fé e o ritual estão vinculados ao registro emocional”.

A pesquisadora observa ainda que “os laços comunitários judaicos vêm se tornando mais frágeis, de um modo geral, já que o convívio nas atividades religiosas, sociais e culturais se apresentou reduzido”. Segundo Hemsi, “os pais delegam à escola a tarefa de transmitir às novas gerações os conhecimentos da tradição e cultura judaicas, não se comprometendo, em parte, com uma prática judaica mais intensa”.

Assim, apesar da identidade ainda remanescente, os judeus no Brasil parecem estar mais vulneráveis à força de assimilação da cultura e da sociedade brasileiras. Mas são os impulsos de abertura e de resistência, de ambos os lados, que têm movido esses dois conteúdos e unido os seus destinos a ponto de não se poder mais separá-los.

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