Bombardeios israelenses deixam 20 mortos

Ataques no Bekaa convencem brasileiros a deixar Líbano: ‘Quase morremos de medo’, diz Hanan

EL-BIREH, Vale do Bekaa – Pelo menos 20 pessoas morreram, na maioria civis, durante pesados bombardeios israelenses na região sul do Líbano. Outras 15 ficaram feridas no país, incluindo três chineses da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Finul). O Vale do Bekaa, no leste do Líbano, ao longo do qual se espalham comunidades brasileiras, redutos do Hezbollah e bases de guerrilheiros palestinos, também foi alvo de vários ataques israelenses. Os aviões despejaram, ainda, seis bombas sobre os bairros xiitas do sul de Beirute.

Os “capacetes azuis” chineses foram feridos aparentemente por disparos do Hezbollah durante duelo de artilharia com forças israelenses em Naqura, onde fica o QG da Finul, perto da fronteira com Israel. O Hezbollah anunciou a morte de três combatentes, elevando o seu número para 52. Fontes de segurança libanesas citadas pela Reuters estimam que o total de milicianos mortos chegue a 90.

Na mesma cidade, três civis libaneses morreram num ataque aéreo israelense. Outros seis civis foram mortos por bombardeios em Ansar, 40 km ao sul de Beirute. Quando equipes de resgate tentavam encontrar sobreviventes entre os escombros, os caças voltaram para um segundo ataque.

Dois civis morreram quando aviões israelenses dispararam um míssil contra uma caminhonete que liderava um comboio da ONU em direção à cidade portuária de Tiro, no sul, castigada por bombardeios constantes desde sábado. Mais um soldado libanês foi morto ontem, por um bombardeio perto de Tiro.

A pequena cidade de El-Bireh, na parte oeste do Vale do Bekaa, 70 km a leste de Beirute, esteve no meio de dois ataques israelenses ontem. O primeiro ocorreu de madrugada, quando aviões israelenses dispararam quatro mísseis num suposto esconderijo subterrâneo de armas da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), sustentada pela Síria. Os mísseis carbonizaram uma área numa montanha a 2 km da cidade de Sultan Yaaqub, que, como El-Bireh, tem grande concentração de brasileiros muçulmanos sunitas. O grupo informou que um militante morreu e quatro ficaram feridos.

Sultan Yaaqub fica 5 km a oeste de El-Bireh. Já 5 km a leste, perto da fronteira com a Síria, aviões israelenses bombardearam a base aérea de Aita al-Koukhar. A estrada secundária que liga Beirute a essas pequenas cidades do Bekaa Ocidental – a principal teve as pontes destruídas por Israel – também foi atingida por mísseis israelenses na madrugada de ontem.

Quando o Estado passou no trecho, na manhã de ontem, as crateras causadas pelos mísseis – que não chegaram a interditar completamente a estrada – ainda exalavam cheiro de queimado. O ataque ocorreu perto de Hizerta, a única cidade xiita nos 75 km entre Zahle, capital do Estado do Bekaa, e Beirute, pela estrada secundária.

Os ataques convenceram dois jovens casais de El-Bireh, nascidos no Brasil, a levar adiante os planos de deixar o Líbano nos comboios brasileiros. “A gente quase morreu de medo”, disse Hanan Osman, de 27 anos, nascida em São Paulo. Ela deve apresentar-se hoje em Sultan Yaaqub, onde o diplomata Ruy Amaral organiza a retirada, com os filhos Salem, de 2, Majid, de 6, e Abdul, de 7, para juntar-se ao próximo comboio de ônibus, programado para amanhã. O mesmo fará sua cunhada Fátima Ahmad Khalil, 28 anos, nascida em Cubatão e grávida de 6 meses. Eles vão para casas de parentes no Brasil. Os maridos, os irmãos Said Saadedin, de 31 anos, e Ferme, de 27, devem ficar para cuidar da loja da família em El-Bireh. “Tudo o que temos está aqui”, diz Ferme.

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.

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