‘Tenho medo dele e de quem o matou’

Ao comentar a morte do terrorista, sírios no Líbano, libaneses e palestinos se inflamam nos ataques e elogios a Bin Laden, Israel, Bashar Assad, EUA…

 

BEIRUTE

No calor de uma luta contra o governo que já deixou cerca de 550 civis mortos, sírios que se opõem ao ditador Bashar Assad dizem que ele é pior que Osama Bin Laden – e culpam os Estados Unidos pela existência de ambos. “Assad vale por 100 Bin Ladens”, diz um sírio de 31 anos, carregador de uma transportadora, que mesmo morando em Beirute há 20 anos tem medo de se identificar e sofrer represálias do regime. Ele e outros oito colegas, todos de Deraa, a cidade mais castigada pela repressão do Exército sírio, rodearam o repórter do Estado para desabafar, no elegante bairro sunita de Verdun, onde faziam uma entrega.

“Bin Laden é um terrorista, mas quem o criou? E quem criou Assad?” perguntaram os imigrantes sírios. “Os Estados Unidos. Todos eles trabalham para os americanos.” Eles se referem ao fato de que os EUA patrocinaram a Al-Qaeda na luta contra os invasores soviéticos no Afeganistão, no fim dos anos 80. “Se os Estados Unidos e Israel não apoiassem Assad, ele teria caído”, continuaram os sírios. “Não encontrarão ninguém que guarda tão bem a fronteira para Israel.”

“Se Assad quer lutar, vá para o Golan, não para Deraa”, disse outro sírio, referindo-se às colinas ocupadas por Israel desde 1967. “Assad é um covarde. Não enfrenta Israel, e massacra civis.” Hamzi Hassan, o dono da transportadora, de 55 anos, que nasceu no Líbano mas cuja mãe também é de Deraa, declarou: “Nosso sangue está fervendo por causa do que está acontecendo em Deraa.” O regime enviou tanques, veículos blindados e canhões de artilharia, que abriram fogo na cidade, epicentro dos protestos, onde ocorreu a maioria das mortes.

Mesmo os que apoiam Assad, dentre a vasta população de imigrantes sírios no Líbano, culpam os americanos. “Os Estados Unidos estão prejudicando todos os países árabes”, acusa Mohamed Alwan, de 68 anos, há 4 no Líbano, onde trabalha como empreiteiro de obras. “Eles mataram Bin Laden sem motivo. Antes de a Al-Qaeda atacar as Torres Gêmeas, os americanos mataram milhares de pessoas. Em todos os países que os americanos entram, fodem com tudo.”

Na Síria, Alwan garante que “são os Estados Unidos que estão semeando a discórdia”. Em tom de desprezo, ele afirma que o presidente Barack Obama ofereceu a Assad “tudo o que quisesse” para se desfazer da aliança com o Irã e deixar de ajudar o Hezbollah, grupo xiita libanês, e o Hamas, sunita palestino. O empreiteiro, que é de Derizur, fronteira com o Iraque, acha que Bashar Assad é bem melhor presidente que seu pai, Hafez, que governou de 1970 até sua morte, em 2000. “Bashar iniciou reformas, construiu estradas e redes elétricas, melhorou os salários e colocou juízes para julgar os presos, que antes ficavam na prisão sem julgamento.” 

“A morte de Bin Laden é uma grande perda para os muçulmanos”, lamenta Wissam Sabra, de 26 anos, que assim como seus pais nasceu no campo de refugiados de Sabra e Chatila, cenário de um massacre cometido por cristãos maronitas com apoio de Israel em 1982. “Ele estava lutando contra os israelenses”, continuou Sabra, dono de uma loja de celulares, cujos avós vieram da Palestina depois da criação de Israel, em 1948. 

“Sou muçulmano e discordo”, reagiu Hussein Daher, um soldador de 24 anos. “Onde Bin Laden lutou contra Israel?” Daher disse que gosta do Hezbollah e do Hamas, porque enfrentam de fato Israel. “Estados Unidos e Israel são a mesma coisa”, argumentou Sabra. “Quem luta contra os EUA está lutando contra Israel.”

“A Al-Qaeda não luta contra Israel, mas contra o Irã, o Hezbollah e o Hamas”, contesta o incorporador xiita Talib Wahbi, de 54 anos, que investe na construção e venda de edifícios. “O Hezbollah e o Hamas são os únicos que lutam contra Israel. Todo mundo sabe disso.” Apoiado pelo xiita Irã, o Hezbollah e a Al-Qaeda, militantemente sunita, são inimigos. “É mais fácil termos relações com Israel do que com a Al-Qaeda”, brinca Wahbi, que apoia o Hezbollah.

Estudante de administração de empresas na Universidade Árabe Aberta, o xiita Hussein Fawazi, de 23 anos, duvida da existência de Bin Laden. “Os americanos o inventaram”, diz ele. “Mesmo que ele exista, o que foi morto não é ele”, raciocina Fawazi, também dono de uma loja de celulares, no bairro xiita de Dahie, sul de Beirute. “Foram os americanos que atacaram as Torres Gêmeas, para tomar o controle dos países árabes.”

“Bin Laden nunca lutou contra Israel”, opina o sunita Marwan Ayoub, de 53 anos, gerente da entidade beneficente Hariri Aid and Relief for Help, criada pelo ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, morto num atentado atribuído à Síria e ao Hezbollah em 2005. Ayoub, que lutou contra a ocupação israelense em 1978, 1982 e 1991, apoia o primeiro-ministro em exercício Saad Hariri, filho de Rafiq e adversário do Hezbollah, mas admira o grupo xiita, por sua luta contra Israel.

A morte de Bin Laden aumenta o sentimento de vulnerabilidade de alguns libaneses. “Tenho medo dele e de quem o matou”, confessa a sunita Asia Itani, de 19 anos, estudante de gestão de alimentação. “Pode haver uma guerra no Oriente Médio. Tudo o que acontece no mundo afeta o Líbano.”

Os cristãos se sentem mais distantes do tema. “O que você cozinha, você come”, disse o maronita Antoine Khalil, de 70 anos, ex-dono de loja aposentado. “Foi uma demonstração de poder dos EUA, e é positivo para nós que somos contra o terrorismo”, acrescenta o grego ortodoxo Nicolas Haddad, representante comercial também aposentado. O evangélico Khalil Sahnawi, de 63 anos, dono de uma empresa de reparos em encanamentos, conclui: “Isso enfraquece o Irã e o Hezbollah.”

 

O Líbano é uma síntese do Oriente Médio.

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