Chipre pode impedir a sonhada adesão à UE

Os turcos se sentem parte da Europa; mas, quando olham para a Turquia, os europeus vêem a Ásia e o Islã

 

ISTAMBUL

De frente para o Estreito de Bósforo, na ponta européia da Turquia, a estátua de Mustafa Kemal Ataturk contempla a Ásia. O fundador da Turquia moderna dá de costas para o Palácio Topkapi, sede do colossal Império Otomano. Ataturk deixou para trás o passado imperial, que terminou no domínio britânico e francês sobre o território turco. Ao reconquistar a independência, lançou-se para a Ásia, deslocando a capital do novo país para Ancara.

Hoje, só 3% do território turco está na Europa. Mas nada disso impressiona os turcos. “Eu me sinto mediterrânea e européia. Sinto-me parte da Anatólia, mas nunca dizemos que somos asiáticos”, diz Selcen Oner, que faz uma tese de doutorado sobre a identidade turca, no Instituto de Estudos da União Européia, em Istambul. 

Ataturk podia olhar para a Ásia, mas tinha os pés bem fincados na Europa. “Continuem vocês mesmos, mas peguem do Ocidente o indispensável para a vida de um povo desenvolvido”, recomendou ele aos turcos, depois de concluir que o esfacelamento do império não se deveu apenas à superextensão territorial, mas também aos valores retrógrados. “Deixem a ciência e as novas idéias entrarem livremente. Se não, elas devorarão vocês.”

Todo tipo de argumento é usado pelos turcos para provar que são europeus. “O Galatasaray foi campeão da Uefa. No futebol, a Turquia já é européia”, lembra Umit Kesim, um pesquisador na área de esportes. “Há 4 milhões de turcos vivendo em todos os países membros da União Européia”, contabiliza o cientista político Sahin Alpay. “Nenhum outro país tem isso. A Turquia é a mais européia das nações.”

O problema é que muitos europeus não concordam com isso. Quando olham para a Turquia, eles vêem uma massa territorial de 814 mil quilômetros quadrados (mais de um quinto da atual União Européia), quase toda na Ásia. E povoada por 72 milhões de pessoas (15% da população da UE), das quais 99,8%, muçulmanas. Com a Turquia, a UE passaria a fazer fronteira com a Síria, o Iraque e o Irã. Nada disso parecia preocupar quando a idéia surgiu, na virada da década. Mas, de lá para cá, o humor ocidencial mudou. As pesquisas mostram que a maioria dos europeus é contra o ingresso da Turquia.

 

Uma reunião de cúpula da UE nos dias 14 e 15 selará o destino da candidatura turca. O principal entrave é o Chipre, que se tornou membro no ano passado. A ilha foi dividida em 1974, quando a Turquia interveio na porção norte, de etnia turca, acusando os gregos étnicos, que ocupam o sul, de um golpe apoiado pela Grécia. A UE exige que a Turquia libere o uso de seus portos e aeroportos pelo Chipre. O governo turco só aceita fazê-lo depois que a UE romper o isolamento da “República Turca do Norte do Chipre”, que só a Turquia reconhece.

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