Islâmicos e liberais se unem contra nacionalistas radicais

Realinhamento é fruto de reformas democráticas impostas pela União Européia

 

ANCARA

As reações à visita do papa Bento XVI sublinham uma notável mudança no alinhamento de forças na Turquia. Nas eleições de 2002, que deram a vitória ao Partido da Paz e do Desenvolvimento (AKP), a principal divisão na Turquia parecia ser entre secularistas e islâmicos. Depois de quatro anos de reformas que consolidaram a democracia turca, a divisão é outra: das duas correntes, desprenderam-se liberais e nacionalistas, formando dois novos pólos.

Quando abraçaram a causa da União Européia (UE), os islâmicos moderados, liderados pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, acreditavam que ela ajudaria a diminuir a influência política dos militares, que têm o papel constitucional de preservar o secularismo. As reformas políticas exigidas para que a Turquia pudesse entrar na UE – um sonho que chegou a unir 80% dos turcos – fortaleceram as instituições civis e reforçaram a liberdade religiosa e os direitos de minorias, como os curdos.

Mas isso não atraiu só os islâmicos. “Todas as forças interessadas na democratização e na desmilitarização se uniram em torno dessas reformas”, diz Sahin Alpay, professor de ciência política na Universidade Bahcesehir. “O processo de integração à União Européia uniu os liberais islâmicos e secularistas, e a divisão passou a ser entre liberais e nacionalistas”. 

Para Alpay, com sua maioria de dois terços no Parlamento, o AKP, que ele chama de “ex-islâmico”, conduziu “o maior programa liberal da história” da Turquia. “É isso o que diferencia a Turquia”, diz ele. “O estereótipo do Islã é totalmente irrelevante aqui.”

O Conselho de Segurança Nacional, por meio do qual os militares tutelavam os governos civis, periodicamente promovendo golpes, foi reformulado. Seus integrantes civis ganharam mais força, e ele deixou de ser na prática executivo para se tornar de fato consultivo. Os curdos ganharam o direito de fazer transmissões de rádio e TV em sua língua e de ensiná-la em colégios privados. A lei marcial, que dava poderes extras de investigação e de detenção, caiu.

Mas nem todos estão seguros quanto ao rumo tomado. “Estou preocupada com o futuro do secularismo na Turquia”, diz Nilufer Narli, especialista em islamismo e política. “Esse governo não desistiu de sua agenda de islamização.” Ela cita como exemplo a tentativa do Ministério da Educação de igualar os seminários religiosos às escolas de ensino médio laicas. Pela legislação atual, fortemente secularista, as provas dos alunos dos seminários têm 25% do peso dos exames de estudantes de escolas regulares, nos vestibulares para cursos que não sejam de teologia. O governo e outros defensores da mudança argumentam que a situação é injusta.”

Na Turquia, não é possível impor a Sharia”, admite Nilufer, referindo-se ao código de normas islâmico. “Mas eles gostariam de ver mais elementos islâmicos na legislação, de banir o álcool em alguns lugares, de liberar o uso do véu nas escolas e repartições públicas (hoje proibido), de transformar a sexta-feira em dia de descanso, coisas simbólicas.”

 

Mulheres de véu se tornaram mais comuns nas cidades grandes. Mas é provável que isso seja resultado da imigração do campo, onde as famílias são mais conservadoras, para a cidade. Pesquisa divulgada na terça-feira pelo Tesev, um instituto independente, indica que, de 1999 para cá, a fatia de mulheres que usam o véu caiu de 75% para 60%, enquanto a proporção dos turcos que se declaram contra um Estado islâmico aumentou de 58% para 76%.

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