Moderação de Bento XVI encontrou-se com hospitalidade turca

Contrariando as previsões de que a viagem do papa seria um desastre, gestos conciliadores dos dois lados garantiram o sucesso da visita

 

ISTAMBUL

Ele se opôs à entrada da Turquia na União Européia – o sonho mais acalentado no país. Citou um imperador bizantino falando mal do Islã – praticamente a única religião na Turquia. Veio para conversar com um patriarca cujo papel de líder ecumênico dos cristãos ortodoxos, reconhecido pelo Vaticano, é contestado pela lei turca; que representa 0,01% da população do país e é associado aos gregos, inimigos históricos. Para completar, ainda arruinou com o trânsito de Ancara e de Istambul, cujas artérias eram fechadas toda vez que o comboio de 30 carros se deslocava.

Com todos esses ingredientes, a visita do papa Bento XVI à Turquia tinha tudo para ser um desastre. Foi um sucesso – graças a uma seqüência de gestos das autoridades turcas e do próprio papa, que aparentemente perceberam a gravidade das repercussões de um choque entre o Islã e o cristianismo na Turquia, o mais secular e moderado de todos os países muçulmanos. Na sexta-feira, depois da partida do papa no início da tarde, todos pareciam aliviados – com exceção de grupos radicais como a Al-Qaeda, que teve 18 militantes presos enquanto Bento XVI visitava Istambul, sob um esquema de segurança sem precedentes.

“Foi uma visita muito bem-sucedida”, avalia o cientista político Sahin Alpay, especialista em relações entre política e religião da Universidade de Bahcesehir. “Ele fez gestos tão positivos que reverteram a oposição que havia contra ele.” Os de efeitos mais abrangentes, enumera o analista, foram: a sua declaração, citada pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, de que “gostaria de ver” a Turquia na União Européia, e seus elogios ao Islã – “uma meia-volta em relação à conferência de Regesburg”, disse Alpay, referindo-se à citação de setembro, que associava Maomé ao mal, ao desumano e à violência.

“Ele deixou claro que o Islã não tem nada a ver com a violência, que ambas as religiões são abraâmicas, e devem se unir contra a violência”, observou o cientista político. “E até visitou o mausoléu de (Mustafa Kemal) Ataturk (fundador da Turquia moderna, em 1923), prestando homenagem a um secularista feroz.” Ao partir, na sexta-feira, o papa ainda disse que “deixava um pedaço seu”.

Do ponto de vista da Turquia, a visita também foi um “sucesso de relações públicas”, considera Alpay. “As pessoas fizeram o possível para mostrar hospitalidade.” O primeiro gesto de boa vontade partiu de Erdogan, que, depois de relutar muito, por causa da citação do papa em Regensburg, recebeu-o no aeroporto, na terça-feira, antes de partir para uma reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Os protestos durante a presença do papa foram discretos, reunindo algumas dezenas de pessoas, logo dispersas pela polícia. Antes de sua chegada, no domingo, uma manifestação em que os organizadores pretendiam reunir 1 milhão de pessoas resultou em pouco mais de 20 mil. “E com slogans civilizados”, diz Alpay, “lembrando que Jesus também é nosso profeta e que os cristãos são um povo do Livro”.

A hospitalidade turca e a moderação do papa foram, em alguma medida, uma agradável surpresa. “Na Turquia, há um ditado: ‘a cabeça que usa coroa se torna mais sábia’”, cita Dogu Ergil, professor de ciência política na Universidade de Ancara e colunista de jornais. “O papa deixou de ser o cardeal (Joseph) Ratzinger”, diz ele, referindo-se ao período em que o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé mostrava-se menos aberto a outras religiões.

A revista Time relata que, depois de assumir, o papa substituiu um estudo em andamento sobre violência cristã durante as Cruzadas por outro sobre a violência islâmica de hoje em dia. Depois dos atentados a bomba em Londres, em julho de 2005, o novo papa reagiu às declarações do presidente George W. Bush e de outros qualificando o Islã como uma “religião de paz” com uma observação pouco alentadora: “Certamente há também elementos que podem favorecer a paz.” Também com relação às outras correntes do cristianismo, o cardeal Ratzinger se mostrava menos entusiasta do “ecumenismo” do que o papa Bento XVI. 

“O papa compreendeu que antagonizar o Islã não contribui para a coabitação entre as religiões e entre as correntes cristãs”, acredita Ergil. “A ênfase que ele deu aqui ao fato de que somos todos filhos de Deus, e apenas rezamos diferentemente, não é uma mensagem só para a Turquia, mas para ele próprio.” 

O mais importante é que o papa não falou apenas, mas provou com seus gestos, diz o analista: “Ele mostrou humildade ao reunir-se com o diretor-geral de Assuntos Religiosos, Ali Bardakoglu, que não é um líder religioso, mas um burocrata do governo.” E fez uma prece na Mesquita Azul, em Istambul, voltado para Meca, como fazem os muçulmanos. “Foi como uma prova de que todos são filhos do mesmo Deus”, observa Ergil.

 

Esse gesto causou impacto até na pequena minoria de 25 mil católicos que vivem na Turquia – e lhes deu algumas esperanças. “Isso impressionou muito”, diz o padre francês Louis Pelâtre, da Catedral do Espírito Santo, em Istambul. “Depois de sua palestra em Regenburg, a situação aqui tinha ficado muito tensa. Espero que a imagem tenha mudado com o gesto na mesquita. Ele mostra que não há um sentimento hostil.” 

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