No mais popular país muçulmano, visita de Bento XVI acirra ânimos

Além de citações sobre Maomé que irritaram islâmicos, papa se opôs ao ingresso da Turquia na União Européia

 

ISTAMBUL

Santa Sofia é uma síntese da história da Turquia. Na segunda metade do século 4.º, o imperador Constantino ergueu uma igreja no lugar. Quando conquistou Constantinopla (que chamou de Istambul), em 1453, o sultão Mehmet II converteu-a em mesquita. A basílica ganhou quatro minaretes e, no seu interior, o Menino Jesus, a Virgem Maria e os anjos, a companhia de versos do Alcorão. Depois de fundar a Turquia moderna sobre as ruínas do Império Otomano em 1923, Mustafa Kemal, o Ataturk (Pai dos Turcos), fez dela uma metáfora de seu secularismo: transformou-a em museu e proibiu que se rezasse lá dentro.

Num gesto carregado de simbolismo, o papa Bento XVI irá na quinta-feira a Santa Sofia, durante sua visita de quatro dias à Turquia, a primeira que ele faz a um país muçulmano. Um grupo de cem nacionalistas islâmicos se antecipou e, na quarta-feira, entrou no museu e fez orações, violando a lei até hoje em vigor. Quarenta foram presos. O incidente mostra até que ponto a visita do papa acirra os ânimos na Turquia, o país mais secular do mundo muçulmano.

Foi na cidadela murada que o papa agora visitará que o imperador bizantino Manuel II Paleólogo pronunciou, em 1391, a frase relembrada por ele na Universidade de Regensburg (Alemanha), dia 12 de setembro: “Mostre-me o que Maomé trouxe de novo, e você encontrará apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregou.” 

A citação enfureceu todo o mundo muçulmano, mas soou para muitos turcos como uma provocação dirigida a eles, não só por causa da visita iminente, mas porque eles não se esquecem de que, em 2004, o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, opôs-se publicamente ao ingresso da Turquia na União Européia (UE), por seu “permanente contraste com a Europa”. 

O papa chega à Turquia duas semanas antes de uma reunião de cúpula decisiva da UE. Depois de um processo extenuante de reformas para se ajustar às normas européias, o país corre o risco de não ser aceito pela UE, que, na percepção de muitos turcos, tem imposto novas exigências cada vez que as anteriores são atendidas, porque na verdade não deseja a sua entrada, por se tratar de um país muçulmano (veja em:Chipre pode impedir a sonhada adesão à UE e ‘Injustiçados’, turcos já pensam em alternativas). 

Nesse contexto, a pergunta natural é: o que o papa vem fazer na Turquia? A resposta inquieta muitos turcos. Bento XVI vem a convite do patriarca Bartolomeu I, reconhecido pelo Vaticano como primus inter pares (primeiro entre iguais) de todas as correntes de cristãos ortodoxos. O Estado turco – cuja suscetibilidade a um reerguimento político dos cristãos ortodoxos se aproxima da paranóia – não reconhece esse papel ecumênico do patriarca, que historicamente remeteria ao Império Romano do Oriente, suplantado pela espada do Islã em 1453.

Para evitar que a visita do papa – afinal, um chefe de Estado – elevasse o perfil de Bartolomeu, o governo turco decidiu convidá-lo também, fazendo dela uma visita de Estado à Turquia. Depois da citação de Regensburg, resolveu rebaixar a visita na prática. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, um islâmico moderado, lembrou-se de um compromisso – a reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Riga, Letônia, dias 28 e 29. E anunciou que não estaria para receber Bento XVI, que fica na Turquia entre os dias 28 e 1.º – um em Ancara, algumas horas em Éfeso e quase três dias em Istambul, onde verá, além de Bartolomeu, os patriarcas ortodoxos armênio e sírio e o grã-rabino da Turquia.

“O papa não vem visitar a Turquia, mas sim o patriarca”, raciocina Dogu Ergil, professor de ciência política na Universidade de Ancara. “Foi uma manobra infantil do governo turco transformar isso num assunto de Estado. Agora, ele tenta consertar com outra atitude infantil.” O papa será recebido pelo presidente Ahmed Necdet Sezer e pelo vice-primeiro-ministro Mehmet Ali Sahin. 

“Eu disse ao primeiro-ministro que ele deveria estar aqui, e ele me respondeu que era impossível, mas tentaria alguma solução”, contou ao Estado o deputado Mehmet Dulger, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento, e um dos líderes do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de Erdogan. “Na audiência, diremos que aquela citação não foi agradável, e ele terá a oportunidade de se explicar. Mas seu real propósito é o diálogo com os ortodoxos.” A vinda do papa coincide com as festividades de Santo André, apóstolo e mártir reverenciado pelos ortodoxos por ter ordenado o primeiro bispo de Constantinopla.

 

Para os nacionalistas turcos mais sensíveis, esse propósito também pode não ser agradável. “Se o papa estiver tentando elevar a Igreja Ortodoxa Grega a uma dimensão ecumênica, isso não coincide com o nosso interesse nacional”, avisa Ali Kulebi, presidente do Centro de Pesquisas sobre Estratégias de Segurança Nacional (Tusam), ligado ao poderoso Sindicato dos Metalúrgicos. “Volta e meia, os gregos falam em recriar Bizâncio, a Roma Oriental.” Não é um pouco de exagero? “É uma utopia, mas achamos que a Turquia deve ficar alerta”, retruca Kulebi. “Aqui não é como na América do Sul, onde vocês têm vizinhos amigos. Temos guerras acontecendo ao nosso redor.”

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