‘O cristianismo não é mais lógico que o islamismo’

Segundo deputado do governo, as autoridades turcas dirão ao papa que não gostaram da citação crítica sobre Maomé

 

ANCARA

Quando se encontrarem com o papa Bento XVI, amanhã, em Ancara, os representantes do governo turco dirão a ele que não gostaram da sua citação da frase do imperador bizantino Manuel Paleólogo II, para quem o profeta Maomé “só trouxe coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregou”. E esperam ouvir dele uma explicação. Foi o que disse ao Estado o deputado Mehmet Dulger, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento.

Um dos principais líderes do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, o deputado critica a tentativa do papa de associar o cristianismo à racionalidade, ao compará-lo com o islamismo: “Para nós, a Santíssima Trindade não é racional. Mas, se isso ferir a crença dos católicos, nunca o direi.” Arquiteto graduado em Genebra e em Paris, Dulger nega o rótulo de “islâmico”, ainda que “moderado”, dado ao seu partido: “Não tomamos decisões políticas levando o Islã em consideração.”

Dulger está na quarta geração de políticos de sua família. Seu pai foi condenado à morte pelos militares em 1960, junto com outras 15 pessoas, das quais três acabaram de fato executadas: o primeiro-ministro, o chanceler e o ministro das Finanças. “Minha vingança será a Turquia se tornar um país democrático.”

Não é insólito o papa não ser recebido pelo chefe de governo do país que está visitando?

A data não foi muito bem escolhida. O papa estava vindo celebrar uma missa em Istambul. Para nós, ter uma personalidade como o papa na Turquia, sem contactar as autoridades, não é muito conveniente. O Ministério das Relações Exteriores achou melhor torná-la uma visita oficial. Infelizmente, havia a cúpula da Otan em Riga na mesma data. Então, nosso primeiro-ministro tinha que ir. É uma reunião de chefes de governo e de Estado. Não se pode mandar outra pessoa no lugar. Nosso ministro de Relações Exteriores, Abdullah Gul, também tinha que participar da cúpula, mas poderia vir para jantar com o papa. O convite foi feito, mas o Vaticano informou que o papa não participa de jantares. Então, ele e o vice-primeiro-ministro, Mehmet Ali Sahin, terão uma audiência com o papa. Com toda a sensibilidade em relação a Erdogan e ao nosso partido por causa do Islã, a imprensa tende a ver um motivo político para sua ausência. Não é o caso. É uma impossibilidade prática. 

Erdogan tem um avião à sua disposição, e Riga não fica tão longe assim.

Pessoalmente, acho que o primeiro-ministro deveria dar um jeito de ir à audiência. Eu disse isso a ele. Ele me respondeu que não seria possível, mas eles tentariam fazer algo. Fui assessor de Demirek durante 20 anos. Ele era primeiro-ministro quando o papa veio à Turquia, em 1967. Ele considerou a visita de extrema importância e quis que a Turquia demonstrasse o máximo de hospitalidade e respeito. Ele pediu ao nosso ministro de Relações Exteriores que ficasse todo o tempo com o papa. Quando ambos estavam indo para Ismirna, para visitar a casa de Santa Maria, foram parados por um camponês, que perguntou: ‘Quem de vocês é o papa?’ O chanceler ficou enfurecido. O camponês explicou: ‘Quero ter certeza, porque meu filho está doente, e gostaria que o papa rezasse por ele.’ Ele era muçulmano. Mas, para ele o papa era um homem santo. Esse é o sentimento verdadeiro do povo turco.

Mesmo depois do que ele disse na Universidade de Regensburg? Seu colega, Salih Kapusuz (líder do AKP no Parlamento), comparou o papa a Hitler.

Não concordo nem com a declaração de Kapusuz nem com a do papa. Minha discordância com o papa não significa que ele não deva ser recebido com a devida hospitalidade, gentileza e respeito. Mas, quando estivermos em audiência, será a oportunidade para dizer: ‘O que o senhor disse não foi muito agradável para nós.’ E ele explicará. Sei que, dez dias antes da vinda à Turquia, ele mandou chamar da Tunísia um estudioso de história do Islã. Isso mostra que ele está dando importância a essa visita. Em alto nível, é possível ter profundas discordâncias, conservando a estima e a hospitalidade. O senhor não acha?

E se ele disser que o que ele disse é o que ele pensa?

Também podemos dizer o que pensamos. Se ele é livre para dizer o que pensa, nós também somos.

E o que vocês pensam?

Não concordamos com ele. A fé está acima da racionalidade. Não há uma relação de necessidade entre as duas. Para nós, a Santíssima Trindade não é racional. Se o cristianismo fosse racional, não poderia acreditar na Trindade. Não podemos conceber que a união do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Alcorão diz que só há um Deus, não três. Mas, se isso ferir a crença dos católicos, nunca direi isso. Eles acreditam nisso e nós respeitamos.

Mas é possível conversar sobre isso sem brigar, não?

Claro. Mas para que ficar falando disso? Não quero convencer você. Fé não é matemática, não é lógica. O cristianismo não é mais lógico do que o islamismo. Nunca se deve fazer esse tipo de comparação. Mas, se as pessoas têm o Islã como referência do terrorismo, sou tão contra o terrorismo quanto você. Os terroristas não representam o Islã. Estão usando os argumentos do Islã como base para seus atos, que são inaceitáveis.

Por que o senhor está no AKP?

Meu pai foi condenado à morte pelos militares, e o partido dele foi extinto. Portanto, entrei para a política por necessidade. Não por vingança. Minha vingança será a Turquia se tornar um país democrático, sem a interferência dos militares em assuntos civis. Ela está indo, passo a passo, em direção a essa meta. Poderei não vê-lo em minha vida, mas, quando acontecer, estou certo de que minha alma descansará em paz. A ênfase do AKP é mais no social do que no político. A Turquia estava farta das coalizões da elite, da corrupção, da falta de esperança. Nesses quase cinco anos, a Turquia teve estabilidade econômica e institucional.

Seu partido é descrito como islâmico.

 

Não é islâmico. Temos gente de grande fé. Mas, para ser um partido islâmico, ele teria de tomar decisões políticas levando o Islã em consideração. Não levamos o Islã em consideração em nenhuma decisão política que tomamos. Caso contrário, eu não estaria neste partido.

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