Papa elogia Turquia e cultura islâmica

Apelos mútuos à reconciliação entre cristãos e muçulmanos marcam início da visita histórica de Bento XVI ao país

 

ANCARA

Numa aparente mudança de posição, o papa Bento XVI disse ontem que “gostaria de ver a Turquia na União Européia”. A frase, citada pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, foi um dos vários gestos de reconciliação com os turcos em particular e os muçulmanos em geral, feitos pelo papa em sua primeira visita a um país islâmico, embora profundamente secular. Numa visita que deve se tornar histórica, as autoridades políticas e religiosas da Turquia retribuíram com gestos de boa vontade e pedindo a união das duas religiões.

“Os pensamentos do papa são muito importantes para nós, porque afetarão a União Européia”, enfatizou o primeiro-ministro, que transformou em prioridade de seu governo as negociações sobre a entrada da Turquia na União Européia (UE), mergulhadas em impasse por causa de disputas entre os lados turco e grego do Chipre. “Começamos bem, porque o papa me falou de seus bons pensamentos sobre os países muçulmanos”, contou Erdogan em entrevista coletiva, depois da reunião de 22 minutos com o papa, na área VIP do aeroporto de Ancara. 

“Más atitudes entre religiões não têm a ver com cristianismo ou islamismo, mas sim com a personalidade das pessoas”, reiterou o primeiro-ministro, um líder islâmico moderado. Erdogan estava de partida para a reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Riga, Letônia, que começou ontem. 

Usando a cúpula como pretexto, o primeiro-ministro havia anunciado que não se reuniria com o papa, depois de sua citação em setembro de uma frase de 1391 do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, para quem Maomé trouxe, de novo, “apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregou”. Erdogan mudou de idéia e resolveu de última hora encontrar-se com o papa, depois de elogios feitos por ele aos turcos no sermão de domingo no Vaticano.

“Durante séculos, igrejas e mesquitas sempre conviveram na Turquia, um símbolo de paz entre o cristianismo e o islamismo. Queremos mostrar à UE todos os esforços que temos feito”, acrescentou o primeiro-ministro, sempre salientando o “interesse nacional” de o papa sair da Turquia com uma boa impressão. Na conversa com o papa, Erdogan usou como intérprete a atriz turca Serra Yilmaz, fluente em italiano e conhecida na Itália por co-produções dos dois países. 

Bento XVI foi recebido pelo presidente Ahmet Necdet Sezer, no Palácio Çankaya. Depois, reuniu-se com o múfti Ali Bardakoglu, diretor-geral de Assuntos Religiosos e um respeitado estudioso do Islã, que fez duras críticas ao papa por causa da citação do imperador bizantino, em setembro. Depois da conversa de uma hora, ambos leram declarações previamente redigidas, enfatizando a necessidade de conciliação entre as duas religiões. 

“Precisamos mais de religião agora do que antes, porque a humanidade enfrenta muitos problemas, na educação, na saúde, a crise de confiança, o terrorismo, as guerras e o subdesenvolvimento”, enumerou Bardakoglu, falando em turco, enquanto os papas e cardeais liam a tradução do texto. “Todos somos filhos de Adão. As duas religiões precisam trabalhar juntas.”

Em seguida, Bardakoglu soou como se estivesse respondendo à menção do papa a Maomé, que provocou muitos protestos no mundo islâmico, o último deles no domingo, em Istambul, com mais de 20 mil pessoas: “Infelizmente, há uma Islafobia”, disse ele, criando um neologismo, “que não acreditamos que tenha fundamentos verdadeiros. Acredita-se, no mundo, que os muçulmanos sejam potencialmente violentos e terroristas, mas sem que se tenha pesquisado a respeito. É um preconceito.”

O papa começou seu discurso elogiando mais uma vez a Turquia. “Estou feliz de vir à terra da antiga cultura islâmica”, disse ele, falando em inglês. “É um lugar onde a história pode ser vista através da arte. Gosto da qualidade dos turcos, quero enfatizar isso.” Depois, assumiu um tom semelhante ao de Bardakoglu: “Muçulmanos e cristãos têm de trabalhar juntos pela paz mundial, para melhorar o diálogo no futuro. Ao mesmo tempo em que acreditamos em nossa religião, temos de trabalhar pela união, pela paz entre as duas religiões.” 

“Nosso Criador é o mesmo, nosso objetivo deveria ser o mesmo, e temos uma base cultural e histórica”, continuou o papa, que, numa entrevista em 2004 ao jornal francês Le Figaro, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, opôs-se à entrada da Turquia na União Européia porque o país “sempre representou um outro continente, em permanente contraste com a Europa”. 

Como exemplo de união, Bento XVI citou ontem o papa Gregório VII, que disse, em 1079: “Muçulmanos e cristãos deveriam estar juntos, porque acreditamos no mesmo Deus.” Uma nova citação, destinada a marcar uma nova etapa. 

 

O papa viaja hoje a Éfeso, a antiga cidade grega onde, segundo a tradição cristã, viveu a Virgem Maria e pregaram os apóstolos Paulo e João. De lá, segue para Istambul, onde se encontrará com o patriarca grego ortodoxo Bartolomeu I – o objetivo principal de sua viagem –, com os patriarcas armênio ortodoxo e sírio católico ortodoxo, e com o grão-rabino da Turquia. 

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