Clima de alívio dá o tom hoje na posse de Toledo
No fundo do poço, peruanos estão convictos de que situação só pode melhorar

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Sábado, 28 de julho de 2001

CALLAO, Peru — O ex-líder máximo do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, está deitado na cama ao lado do ex-chefe do Serviço de Inteligência Nacional, Vladimiro Montesinos. "Escuta, você não está filmando isso, está?", alarma-se o ex-terrorista. "Não, imagina!", tranqüiliza a ex-eminência parda do regime, enquanto amassa a ponta do cigarro no cinzeiro sobre o criado-mudo. Intitulada Amores Carcerários, a charge da revista Monos y Monadas, o equivalente peruano da Casseta Popular, resume o bizarro desfecho da chamada "era Fujimori".

O presídio da Base Naval de Callao, município ao noroeste da Grande Lima, que Montesinos mandou construir em 1993 para guardar os troféus de sua luta contra o terrorismo - três ex-líderes do Sendero e outros três do Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) -, fechou com notável ironia o círculo da história peruana recente ao receber, este mês, o ex-chefe do serviço secreto, acusado de corrupção e abuso de poder, com base em vídeos de suas conversas com congressistas, juízes e empresários, que ele mesmo gravou.

"É justo que Montesinos esteja lá", julga o piloto de lancha Eduardo Pescorán, de 29 anos, enquanto joga baralho na Praça Miguel Grau (herói da Marinha), no centro de Callao. "Ele é igual aos terroristas." Raúl Huambachano, 42 anos, que vive de biscates, arremata: "É preciso condecorar Montesinos, porque ele revelou que a classe política é pura podridão. Essa é a miséria peruana." Pescorán completa: "Agora, precisa trazer Fujimori."

É em meio à amargura mais profunda dos peruanos, depois de dez anos de um governo que se vendeu como eficiente e moderno, mas se acabou desnudando como mafioso e bárbaro, trocou a hiperinflação pela recessão e o terrorismo pela autocracia, que Alejandro Toledo assume hoje a presidência do Peru.

Nos últimos dias, Lima se coloriu de uma atmosfera festiva, sugerindo que os peruanos sentem que têm algo a comemorar, no 180.º aniversário da independência do país, que coincide com a data da posse do presidente. E têm. Cinco meses depois de eleito presidente pela terceira vez consecutiva, numa votação coberta pela suspeita de fraude, Alberto Fujimori aceitou deixar o governo, refugiando-se no Japão, sem que se derramasse sangue, diante das evidências cabais de formação de quadrilha contidas nos "vladivídeos". Seguiram-se um governo de transição inatacável e um processo eleitoral incontestável.

Como prelúdio das festas da independência e da posse, pequenas paradas de bandas de música e estudantes com trajes folclóricos tomaram as ruas do centro histórico de Lima nos últimos dois dias.

Mas é difícil medir o que é alegria e esperança genuínas e o que é cansaço e alívio, pela convicção de que se chegou ao fundo do poço e agora só pode melhorar. O moral, as instituições e a economia do país foram alvo de uma operação de terra arrasada. Mas o ímpeto da reconstrução anima muitos peruanos.

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