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Toledo terá
posição independente quanto à Alca |
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SANTANNA Enviado especial |
Sexta-feira,
8 de junho de 2001
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LIMA O presidente eleito do Peru, Alejandro Toledo, deixou claro que vai manter uma posição independente nas negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), embora inclua em sua estratégia uma intensificação das relações com o Mercosul. Em entrevista a um pequeno grupo de jornalistas estrangeiros, Toledo disse que conduzirá esses processos, e mais uma "reengenharia" da Comunidade Andina, simultaneamente, observando que sabe que o presidente Fernando Henrique Cardoso não gosta da idéia. Toledo garantiu que ficaram para trás os ressentimentos criados pela posição brasileira contrária a sancionar o governo do ex-presidente Alberto Fujimori diante da suspeita de fraude na eleição presidencial do ano passado, em que ele saiu derrotado. Mas alertou que isso está guardado em seu "back up" (arquivo) e fez um apelo para que os países "nunca mais se calem" diante de ameaças à democracia na América Latina. Pergunta Qual será sua estratégia em relação ao Mercosul e à Alca? Alejandro Toledo Creio que a América Latina tem diante de si um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade enormes: a entrada nos mercados dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia. Sou defensor de uma integração regional aberta e isso significa potencializar a Comunidade Andina primeiro. Creio que a Comunidade Andina chegou a um ponto em que está pronta para uma reengenharia de seu processo de integração. Vamos nos aproximar ainda mais do Mercosul. Creio que vamos buscar uma posição mais ativa. E aí vamos trabalhar com os países vizinhos Argentina, Chile, Brasil, México. O México vai desempanhar um papel muito importante. Há um enorme potencial, mas, dentro deste conceito de integração regional aberta, isso não exclui nossa conexão direta com a Alca. Pergunta Mas então como isso será articulado? Toledo É preciso fazê-lo simultaneamente: uma reengenharia na Comunidade Andina e não é só minha opinião pessoal, tenho conversado com outros presidentes sobre isso , fortalecer nossa presença no Mercosul e trabalhar a Alca. Mas simultaneamente. Eu sei que Cardoso não gosta disso. Pergunta Por que acha que ele não gosta? Toledo Eu é que pergunto. Pergunta Em que ano o sr. acha que o Peru estará pronto para a Alca? Toledo Espero que, quando meu governo se conclua (em 2006), a Alca já esteja (em funcionamento). Pergunta Nos comícios havia sempre uma passagem protecionista quanto ao arroz e ao algodão peruanos, por exemplo. Como conciliar isso com o discurso da integração aberta? Toledo Não é proteger, é promover. Mas o Peru produz algodão um dos melhores do mundo -, arroz e açúcar. Se há um produto competitivo em qualidade e preço, vou preferir o produto nacional. O governo importa US$ 1,7 bilhão ao ano. Não vamos importar uniformes ou sapatos da Coréia. A indústria daqui pode produzi-los. Mas é vital que sejam competitivos. Pergunta Em relação ao Brasil, talvez houvesse duas feridas: o fato de, na reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos), no ano passado, o Brasil ter sido contra sancionar o governo Fujimori depois das eleições e, a outra, os problemas que o sr. disse que vê no acordo entre Peru e Equador, patrocinado pelo Brasil. Essas feridas estão fechadas? Toledo Estão fechadas. Já me esqueci. Tirei do disco duro (memória do computador). Na conversa que tive com o presidente Cardoso lhe disse o que tinha que dizer e creio que tenha sido muito bom para limpar a mesa. Só espero que possamos fortalecer ainda mais nossas relações culturais, de país a país. Ainda é muito baixo o nível de intercâmbio comercial entre o Peru e o Brasil. Há projetos muito importantes a estrada que vai ligar Ilo (porto no Pacífico) ao Brasil, o projeto do fosfato em Bayóvar (estrada para escoar fertilizantes para o Norte do Brasil) é outro que estamos olhando e espero que incrementemos os investimentos e o trabalho. Eu já me esqueci da posição do Brasil. Só a tenho em um back up (arquivo), para que nunca mais a América Latina permita que um país irmão atravesse a experiência que nós vivemos. Eu disse a Fernando Henrique Cardoso, por quem tenho uma grande admiração, desde que era intelectual, que, se há algum elemento que justifica a globalização é o tema da democracia. Mas de maneira geral temos uma boa relação e espero que ele nos possa acompanhar na transferência de governo. Vou levá-lo a Machu Pichu (cidade da extinta civilização incaica, onde Toledo tomará posse simbolicamente), mas lhe oferecerei uma colamina (comprimido para a altura). Pergunta Do que foi que o sr. não gostou no acordo com o Equador? Toledo Tinguiza (área fronteiriça cedida ao país vizinho). Mas, como já disse, esse é um capítulo encerrado. Fujimori não é o amigo mais íntimo que tenho, mas tem o mérito de ter obtido esse acordo e reconheço que o Brasil desempenhou um papel muito importante. E eu agradeci ao presidente Cardoso. Pergunta Qual sua visão do governo do presidente Hugo Chávez (da Venezuela)? Toledo Teremos uma relação de país andino. Pergunta Algum conselho que o sr. poderia dar? Toledo Que os países da América Latina não se calem quando tiverem de decidir sobre a democracia. E que a América Latina tenha os olhos muito abertos para que nunca mais se produza outro Fujimori com diferente rosto. Pergunta Há algum? Toledo Prefiro reservar-me. Pergunta Qual será sua política de combate às drogas? Toledo Será um tema central com os EUA. Vou a Washington e voltaremos a tocar no tema. Os países produtores de coca têm de se sentar com os consumidores para traçar uma estratégia conjunta. Sou partidário da substituição de cultivo que gera trabalho. O povo será pago para arrancar a folha e depois entra a segunda etapa de outros cultivos, como o café, o cacau e o chá. Arrancando as folhas, se impede o uso das fumigações. Deve haver um preço de refúgio para os produtos substitutos e que os Estados Unidos ponham algum recurso não só para comprar os produtos mas um pouco mais, para o programa. Pergunta Seu modelo econômico será diferente do de Fujimori? Toledo Já não existem modelos. (Trata-se de) administrar a economia com responsabilidade, uma política monetária e fiscal disciplinada, os preços relativos em seu lugar, as privatizações, construir um clima para atrair o investimento privado nacional e estrangeiro, estabilidade política, econômica e social, mas, fundamentalmente, estabilidade jurídica. Os capitais se movem com grande velocidade e vão para onde as regras do jogo são claras. Mas o modelo terá um rosto humano porque damos enorme importância ao investimento em nutrição, saúde e educação. Pareceria incongruente dizer isso, porque se necessitam recursos para investir nessas três áreas, que são de longa maturação. Dar nutrição para um menino de cinco anos, dar-lhe educação e mandá-lo para a universidade leva 20 anos. Mas são decisões de Estado que eu estou disposto a tomar. Precisamos fazer uma reengenharia dos investimentos públicos, cortar orçamentos em outras áreas, talvez comprar menos Migs-29, vamos eliminar o Ministério da Presidência e pouparemos recursos. Mas não gastaremos mais do que arrecadamos. Pergunta Em sua viagem ao Japão, que tema será fundamental? Toledo Dívida por Fuji... (risos). Não, investimentos privados, comércio, tecnologia, e, por certo, vamos pedir que o Japão colabore para que o sr. Fujimori possa responder às acusações perante a Justiça. Mas não sei se o primeiro-ministro vai me receber... Pergunta O que diria a Fujimori se cruzasse com ele na calçada em Tóquio? Toledo Atravessaria a rua... (risos). Não tenho nenhum sentido de revanche ou perseguição ou caça às bruxas. Mas, numa sociedade que atravessou a experiência do Peru, para construir esse futuro, é de vital importância olhar-se no espelho, para que isso nunca mais volte a acontecer. A corrupção e a violação dos direitos humanos são duas faces da mesma moeda: a impunidade. Quero fechar as feridas, mas não sou partidário da impunidade. Pergunta O sr. é a favor da redução das Forças Armadas? Toledo Vamos estudar uma redução na compra dos armamentos, mas essa não pode ser uma decisão unilateral do Peru e sim uma decisão sub-regional e regional, com o apoio da comunidade internacional. Pergunta Como será sua relação com os militares? Toledo Muito fluida. Eu distingo o joio do trigo. Não há dúvida de que houve policiais e militares desonestos e corruptos. Eles têm de ser processados e investigados. Mas é chegado o momento de resgatar a dignidade da instituição das Forças Armadas. Nunca o Peru teve uma oportunidade como agora de redefinir o papel das Forças Armadas no processo de crescimento econômico e desenvolvimento social. Pergunta Como resgatar a dignidade dos militares? Toledo As promoções serão exclusivamente em função do profissionalismo e não com critério político. Não haverá mais oficiais da reserva como adidos no exterior. É preciso devolver-lhes sua cultura interna em cada Arma. Gostaria que eles fossem sócios nessa tarefa de crescimento econômico e desenvolvimento social e dou um exemplo bem concreto: as rodovias devem ser feitas pelo setor privado, por meio de concessões. Mas os caminhos rurais, que vinculam os povoados mais remotos, podem ser feitos pelas Forças Armadas. E vamos propor uma mudança constitucional para que eles tenham direito a voto. Pergunta Qual o significado de um cholo (indígena) chegar à presidência? Toledo Profundo. Não há só expectativas conjunturais represadas, mas, historicamente, vejo nas ruas gente chorando que se aferra teimosamente a ter esperança, a crer em algo, apesar de ter sido desiludida. Isso pesa muito. Estou sentenciado a não fracassar. Pergunta O sr. se considera um Pachacútec (imperador quando os domínios incas se estendiam da Venezuela à Argentina) do século 21? Toledo A tradição diz que ele surge a cada 500 anos. Mas é uma coincidência. Não tenho nem o décimo das qualidades de Pachacútec, de quem sou grande admirador. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |