|
Russos ratificam
candidato de Putin |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira,
3 de março de 2008
|
|
MOSCOU A maioria dos eleitores
russos ratificou ontem o plano do presidente Vladimir Putin, de continuar
no poder, ainda que formalmente noutro cargo. O vice-primeiro-ministro
Dmitri Medvedev venceu a eleição presidencial com 67,7%
dos votos, dispensando o segundo turno. Conforme anunciado previamente
pelo próprio Putin, cuja popularidade supera 70%, Medvedev o nomeará
primeiro-ministro, função que se deslocará para o
centro do poder na Rússia. Eleito em 2000 e reeleito em 2004, Putin
não podia mais, pela lei, candidatar-se a presidente. Às 23h em Moscou
(17h em Brasília), Putin e Medvedev subiram ao palco do concerto
que se realizava na Praça Vermelha para celebrar a vitória.
"Seguiremos o rumo estabelecido pelo presidente Putin", disse
Medvedev, repetindo o mote de sua campanha: "Juntos, venceremos."
Putin agradeceu a todos os que compareceram às urnas e interpretou:
"Significa que vivemos numa sociedade democrática, com a participação
da sociedade civil", numa aparente resposta às críticas
de que o Kremlin suprimiu essa participação, assim como
a oposição e a imprensa independente. Mais tarde, à
1h da manhã de hoje, Medvedev concedeu uma breve entrevista coletiva,
na qual considerou "sem precedentes" o comparecimento de dois
terços dos eleitores inscritos. "É uma prova de que
o povo não está indiferente ao futuro de nosso país",
disse ele. Medvedev garantiu que a divisão entre as funções
de presidente e de primeiro-ministro continuará obedecendo às
leis: "Ninguém pretende mudá-las." Seguindo essa
divisão, o presidente eleito, que toma posse dentro de dois meses,
afirmou que a política externa caberá a ele, que sua prioridade
serão os países vizinhos e sua primeira viagem internacional
o levará a um país da Comunidade de Estados Independentes,
que reúne as ex-repúblicas soviéticas. Apesar da previsibilidade
do resultado, chamou a atenção a votação obtida
pelo candidato comunista, Gennady Zyuganov, que teve 18,7% dos votos,
e pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, que recebeu 10,9%. "Este
é obviamente um voto de protesto", disse ontem à noite
Alexei Levinson, do instituto de pesquisas independente Levada Center.
"Essa é uma mudança importante na política russa.
O Partido Comunista não pode ser mais considerado uma força
obsoleta." O candidato liberal Andrei Bogdanov ficou com 1,4%. Na eleição
parlamentar de dezembro, o partido Rússia Unida, de Putin, obteve
a maioria absoluta, com 64% dos votos para a Duma, a Câmara de Deputados;
o Partido Comunista veio em segundo lugar, com 12%. Pesquisa do Levada
previa que Medvedev obteria 80% dos votos; Zyuganov, 11%, e Zhirinovsky,
9%, em números arredondados. Ambos os candidatos de oposição,
no entanto, não ficaram satisfeitos. Assim que a contagem de votos
começou, no início da noite, Zyuganov e Zhirinovsky anunciaram
que entrariam com ações na Justiça denunciando fraude
nas eleições. "Nunca vimos
esse tipo de atrevimento antes, tanta cédula sendo enfiada nas
urnas", disse o secretário do Comitê Central do Partido
Comunista, Valery Rashkin. Segundo ele, o partido observou irregularidades
em muitas cidades, incluindo São Petersburgo, a segunda do país
e terra natal tanto de Putin quanto de Medvedev. Muitos funcionários
públicos disseram ter sido pressionados por seus chefes a votar
em Medvedev. A maioria dos russos
deseja a continuidade das políticas adotadas pelo presidente Putin,
que resultaram num crescimento médio de 6,7% desde 2000 e numa
queda contínua do desemprego, que chegou a 5,8% em janeiro. A renda
média das famílias tem aumentado 10% ao ano, alcançando
US$ 567. A fatia dos russos abaixo da linha da pobreza diminuiu de 30%
para 10%, alimentando um boom na economia que, segundo os especialistas,
já não é mais impulsionado apenas pelo alto preço
do petróleo, do qual a Rússia é grande produtora
e exportadora, mas pela demanda interna e pelos investimentos em bens
de capital, que aumentaram 21% no ano passado. Talvez ainda mais importante,
Putin tem mantido o país estável, depois do caos dos anos
90. "Pela primeira vez a Rússia está tendo uma sucessão civilizada", festejou Sergei Kasantsev, de 48 anos, dono de uma faculdade privada e eleitor de Medvedev. "Antes, o novo presidente chegava criticando as políticas de seu antecessor e perseguindo quem estava antes no governo." Essa visão está longe de ser unânime, como mostra a própria mulher de Kasantsev, Larissa, de 46 anos. "Não gosto do fato de um candidato ser levado pelo outro. Medvedev foi imposto por Putin. Zyuganov é herdeiro dos comunistas. Zhirinovsky não é muito normal. Não temos escolha." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |