|
Sucessor prima
pela discrição |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira,
3 de março de 2008
|
|
MOSCOU O anúncio de
Dmitri Medvedev como successor do presidente Vladimir Putin, no dia 10
de dezembro, foi antecedido por uma surda disputa entre ele e outro vice-primeiro-ministro,
Sergei Ivanov. Ambos vinham acompanhando o presidente em viagens internacionais,
numa espécie de road-show para apresentá-los ao mundo e
testar suas habilidades. A disputa, no entanto, era para ver quem se destacava
menos. Ivanov, ex-ministro da Defesa e um pouco mais afoito no seu desejo
pelo cargo, perdeu. Medvedev, nessas viagens,
chamou atenção pelo seu esforço em não chamar
a atenção. O discreto advogado e ex-executivo de empresas
privadas, que trabalha com Putin há 17 anos, passou no teste ao
provar que, no futuro visível, não tem pretensão
de fazer sombra ao chefe. Depois de sua eleição como presidente,
tida hoje como certa, Medvedev obedientemente nomeará Putin primeiro-ministro,
como se encarregou de antecipar o próprio Putin. E pela primeira
vez o primeiro-ministro mandará mais do que o presidente. "Os eleitores
russos percebem a manipulação, mas isso não os incomoda",
analisa Lev Gudkov, do Levada Center. "Ao contrário, é
isso mesmo que eles querem: a garantia da continuidade." Se Medvedev
imprimirá a sua marca, ou se se anulará, à espera
de que Putin, hoje com 55 anos, possa candidatar-se de novo a presidente,
na eleição de 2012, é uma incógnita. "É
muito cedo para dizer", considera Masha Lipman, do Carnegie Endowment. Medvedev, de 42 anos,
tem reputação de bom gestor - que Putin sublinhou, na quinta-feira,
num evento no Kremlin, generosamente coberto pelas emissoras de TV. Desde
2006, ele coordena a execução de quatro programas nacionais
de governo, nas áreas de educação, saúde,
moradia e agricultura, cujos resultados foram apresentados na semana passada.
Seu programa de governo está centrado no que ele chama de "quatro
Is": instituições, infra-estrutura, inovação
e investimentos. O mercado o considera
um dos mais liberais integrantes do governo Putin - no qual o Estado aumentou
de tamanho, e os setores mais rentáveis, como petróleo e
gás, seguiram sob sua rígida tutela. Medvedev, por sinal,
é presidente do conselho da Gazprom, a gigante do gás controlada
pelo Estado. Na semana passada, no entanto, ele criticou a presença
de membros do governo em conselhos de empresas, dando a entender que poderia
mudar essa prática. Nascido em São Petersburgo (como Putin), filho de professores universitários, Medvedev se formou em direito na Universidade Estatal de Leningrado (o nome da cidade na época soviética) em 1987, e em 1990 defendeu doutorado em direito privado. Entre 1991 e 1996, ao mesmo tempo em que trabalhava em empresas privadas e dava aula, Medvedev prestou assessoria jurídica ao Comitê de Relações Externas da prefeitura de São Petersburgo, chefiado por Putin. Na época, o prefeito da cidade era Anatoly Sobchak, que havia sido professor de Putin na universidade. Em 1996, Sobchak perdeu
a disputa à reeleição e Putin deixou a prefeitura
e veio para Moscou, convidado para ser o subchefe do Departamento de Gestão
da Propriedade Presidencial. No ano seguinte, o então presidente
Boris Yeltsin nomeou Putin subchefe de gabinete e, em 1998, diretor do
FSB, o serviço secreto russo, do qual Putin tinha sido agente,
quando ainda se chamava KGB. Em dezembro de 1999, quando Putin, já
no cargo de primeiro-ministro, assumiu a presidência, trouxe vários
ex-colegas de São Petersburgo, incluindo Medvedev, que se tornou
seu subchefe de gabinete. Em 2000, Medvedev
chefiou a campanha presidencial vitoriosa de Putin e, em 2005, já
no segundo mandato do presidente, foi nomeado vice-primeiro-ministro,
vice-presidente do Conselho de Implementação dos Projetos
de Prioridade Nacional e presidente do Presidium (conselho de governo). Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |