|
Prosperidade econômica
sustenta poder político de presidente russo |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
2 de março de 2008
|
|
MOSCOU O shopping subterrâneo
Okhotni Rad (Fila de Caçadores), um dos maiores de Moscou, chama-se
assim porque nesse lugar se trocavam peles e carnes por outras mercadorias
na Idade Média. No século 17, o amplo mercado ganhou o nome
de Krasnaya Ploshchad (Praça Bela, ou Vermelha, que em russo são
a mesma palavra). Desde então, o lugar é considerado o centro
da Rússia, em três sentidos: geográfico, econômico
e político. Construído debaixo da Praça Vermelha,
o shopping pode ser visto como um símbolo da prosperidade econômica
sustentando o poder político. Na tarde de quinta-feira,
os amplos corredores do Okhotni Rad pareciam estreitos demais para tanta
gente. Na frente de uma vitrine, a empresária Angelika Volert,
de 36 anos, examinava relógios de ouro da marca Omega. Como a grande
maioria dos eleitores, segundo as pesquisas, Angelika ia votar no vice-primeiro-ministro
Dmitri Medvedev na eleição presidencial de hoje. "Ele
vai continuar a política do presidente (Vladimir) Putin",
justifica a empresária, que há dois anos abriu uma distribuidora
de sucos e admite que está indo muito bem. "Putin para mim
é um czar, um Deus." O vendedor Dmitri
Novikovi, de 22 anos, não sabia se teria tempo para ir votar hoje.
Mesmo sendo domingo, ele acreditava que teria de ficar atendendo os fregueses
na loja de eletrônicos onde trabalha há dois anos e meio.
"Nesse tempo, as vendas só têm melhorado", festeja
o jovem vendedor, diante de notebooks com preços similares aos
do Brasil. "Tem muita gente com dinheiro e muita oferta de crédito." Nesses oito anos de
governo de Putin (eleito em 2000 e reeleito em 2004), a economia russa
cresceu em média 6,7%. No ano passado, o índice foi de 8,1%.
Para este ano, o mercado estima um crescimento de 7,6%. Como resultado,
o desemprego tem caído continuamente, atingindo o confortável
patamar de 5,8% em janeiro. "A economia está em ótima
forma", atesta Tatiana Orlova, economista do ING Wholesale Bank,
em Moscou. Quando Putin assumiu,
30% dos russos estavam abaixo da linha de pobreza, ou seja, não
ganhavam o suficiente para se manter. Hoje, essa cifra caiu para 10%,
segundo Lev Gudkov, diretor do Levada Center, que faz pesquisas domiciliares
mensais. Na manhã gelada
de segunda-feira, feriado na Rússia, o casal Ana e Maksim Kondratyev
caminhava sobre a neve na Ulitsa Rabotchikh (Rua dos Trabalhadores), na
pequena Borovsk, 60 quilômetros a sudoeste de Moscou. "Vou
votar em Medvedev porque gosto de Putin", disse Maksim, de 22 anos,
que opera máquinas de carga na fábrica de peças de
metal Vental, e ganha 15 mil rublos (US$ 416) por mês. "Não
vivi a época comunista, não tenho como comparar, mas acho
que a vida melhorou com Putin e espero que continue melhorando",
acrescentou Ana, de 16 anos, que deu à luz há dez meses
e pretende fazer um curso técnico de contabilidade para trabalhar
também. Instalada no município
vizinho de Balabanovo, a Vental é um exemplo dos novos tempos na
Rússia. Em 1992, durante a desordenada liberalização
econômica sob o governo de Boris Yeltsin, quatro engenheiros deixaram
seus empregos públicos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas
de Obninsk, 100 quilômetros ao sul de Moscou, e abriram a fábrica,
que chegou a fornecer peças para o ônibus espacial russo
Buran. Criaram uma segunda fábrica em Obninsk, e acabam de vender
parte do negócio a sócios finlandeses, para se capitalizar.
O boom econômico,
que se reflete num crescimento de 13% no setor da construção
civil e de 21% nos investimentos em bens de capital no ano passado, gera
uma sensação de otimismo e de confiança que há
muito os russos não experimentavam. Como resultado, a popularidade
de Putin chega a 80% - exatamente o índice de intenção
de voto de Medvedev, que o presidente, que não pode mais se reeleger,
escolheu para ser o seu sucessor. Putin anunciou que será nomeado
primeiro-ministro por Medvedev - e, portanto, continuará governando.
O candidato do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, segue num distante
segundo lugar, com 11%, segundo pesquisa do Levada Center; o ultranacionalista
Vladimir Zhirinovsky tem 9%, em números arredondados; o liberal
Andrei Bogdanov não chega a 1%. A prosperidade e estabilidade
dos últimos anos contrastam vivamente com o caos dos anos 90, ainda
muito fresco na memória dos russos. A família do físico
nuclear Sergei Nikolaiev, de 47 anos, nunca mais comeu macarrão.
No começo da década passada, depois que a União Soviética
se desfez, era a única coisa que eles tinham para comer, além
das batatas que plantavam no quintal de seu prédio em Obninsk.
Os salários se atrasavam sete meses, assim como as aposentadorias,
e o dinheiro perdeu completamente o valor. Chefe do Laboratório
de Pesquisa Aplicada da central nuclear de Obninsk, Nikolaiev lembra que
ele e seus colegas recebiam o pagamento em vales-energia, que trocavam
numa fábrica por papelão, que por sua vez trocavam por ovos
numa granja (que com o papelão fazia caixas de ovos). Hoje, Nikolaiev,
além do emprego, tem uma empresa de projetos de equipamentos nucleares. "Hoje em dia
há muito mais perspectivas para os jovens do que na minha geração",
diz sua mulher, a microbióloga Maria Abramova, também de
47 anos, que trabalha no Instituto de Pesquisas Oncológicas de
Obninsk, com substâncias da cartilagem de tubarão que podem
prevenir o câncer. "Putin conseguiu corrigir os erros cometidos
pelos governos anteriores." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |