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Para russos, país
voltou a ser potência com Putin |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
2 de março de 2008
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BOROVSK, Rússia A Estrada Kalujskaia,
que corre para o Ocidente, remete os russos a um passado glorioso. Foi
por aqui que, no inverno de 1812, o exército de Napoleão,
ou o que restou dele, bateu em retirada, humilhado, depois de sangrentos
enfrentamentos com cossacos, guerrilheiros e soldados russos. Na manhã
de segunda-feira, na porta de sua casa na Estrada Kalujskaia, 60 quilômetros
a sudoeste de Moscou, o motorista de ônibus aposentado Viktor Kuznossov
explica por que gosta do presidente Vladimir Putin. "É muito
importante para nós ver a Rússia de cabeça erguida
novamente", diz ele. "Vou votar em Putin", acrescenta,
querendo dizer Dmitri Medvedev, o candidato apoiado pelo presidente. Os ex-presidentes
Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin não são perdoados por
muitos russos, o primeiro por ter permitido a desagregação
da União Soviética, o segundo por ter entregado a Criméia
à Ucrânia. Putin, em contraste, mantém uma política
externa agressiva não só diante das ex-repúblicas
soviéticas, mas também dos Estados Unidos e da Europa. "O
status da Rússia no cenário mundial é muito importante
para os russos", diz Masha Lipman, pesquisadora da Carnegie Endowment
em Moscou. Para Lev Gudkov, diretor
do instituto de pesquisas independente Levada Center, Putin "fez
a ligação entre a época soviética e a modernidade".
Em muitos sentidos, o presidente representa, para os russos, a recuperação
de coisas que os confortavam na antiga URSS, como a segurança,
a estabilidade e o status de superpotência, combinadas com a prosperidade
econômica e a mobilidade social, inexistentes naquela época.
Na forma de lidar
com o poder, Putin também lembra os dirigentes soviéticos
- e, antes deles, os czares. Usando métodos que para muitos analistas
lembram a KGB, o lendário serviço secreto russo no qual
ele se formou, Putin tem eliminado toda oposição liberal,
assim como a mídia independente. Restaram os comunistas e nacionalistas,
que não vistos como alternativa pela maioria dos eleitores, e que
reforçam a posição de Putin, ao cobrar dele ainda
mais firmeza na política externa. "É só retórica",
desdenha o deputado Oleg Kulikov, chefe da Comissão de Trabalho
Ideológico do Partido Comunista. "Ele entregou a base de Lourdes,
em Cuba, que monitorava os lançamentos de foguetes dos EUA. Desmantelou
nossa base no Vietnã. Não moderniza as Forças Armadas,
que não representam mais ameaça para ninguém." Segundo Masha Lipman,
a popularidade de Putin se deve a três fatores. "Na Rússia,
o líder máximo é visto não como o chefe de
Estado, mas como a encarnação do Estado", diz ela.
"Putin está livre de qualquer rival", continua a pesquisadora.
"Ele nunca foi alvo de uma pergunta não-amigável, porque
os jornalistas críticos nunca tiveram a oportunidade de se aproximar
dele, e a cobertura dedicada a ele em geral é positiva e mais ampla
do que a de qualquer outro político." Além disso, reconhece
Masha, "Putin realmente produziu resultados: nunca na história
os russos usufruíram de uma melhora tão grande em seu padrão
de vida". "Os setores que
estão se desenvolvendo são só os de petróleo
e gás", critica Sergei Mitrokhin, vereador por Moscou e assessor
do dirigente do partido liberal Yabloko, Grigori Yavlinski, um dos líderes
de oposição que não se lançaram a presidente
por considerar que essas eleições não são
"justas". Petróleo e
gás representam metade do Produto Interno Bruto e três quartos
das exportações do país. Entretanto, o governo argumenta
que tem investido pesadamente em tecnologia, inclusive com a construção,
até 2012, de oito parques industriais de alta tecnologia, chamados
Technoparks, no valor de US$ 1,3 bilhão. O governo criou também
um "Fundo de Estabilização", para o qual são
destinados royalties cobrados sobre o que ultrapassa US$ 27 por barril
de petróleo (atualmente a cerca de US$ 100). Até o fim do
ano passado, o fundo já havia acumulado US$ 156 bilhões.
É um colchão para suavizar os efeitos de uma queda no preço
do petróleo. Pode-se dizer tudo de Putin, menos que ele não
pensa no longo prazo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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