|
TV russa favorece
amplamente candidato de Putin |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sexta-feira,
29 de fevereiro de 2008
|
|
MOSCOU O único canal
nacional privado da Rússia, NTV, dedicou na reta final da campanha
presidencial 17 vezes mais tempo nos seus noticiários ao candidato
do governo, o vice-primeiro-ministro Dmitri Medvedev, do que aos outros
três somados. Em outros três canais importantes, o desequilíbrio
foi menor, mas considerável. Isso sem contar o tempo dedicado ao
presidente Vladimir Putin, que apontou Medvedev como seu sucessor, anunciando
que será indicado primeiro-ministro por ele, depois da vitória
de domingo, dada como certa. O Centro para Jornalistas
em Situações Extremas monitorou as cinco principais emissoras
de televisão do país, dos dias 2 de janeiro a 25 de fevereiro,
entre as 18h e meia-noite. O favorecimento mais avassalador ao candidato
do governo ocorreu na NTV, um antigo canal independente que se tornou
governista. No período, Medvedev ocupou 43,3% do tempo do noticiário
político, enquanto os outros três candidatos somados obtiveram
2,5%. Putin ficou com os restantes 54,2%. "Putin está
matando o jornalismo na Rússia", disse ao Estado o
diretor do Centro, Oleg Panfilov, depois de apresentar o levantamento
à imprensa russa. Ele reconheceu, entretanto, que "na Rússia
nunca houve imprensa isenta". Segundo Panfilov, o governo usa a Receita
Federal para pressionar as empresas proprietárias dos meios de
comunicação - que em geral atuam também em outros
setores - e os potenciais anunciantes publicitários. Ao mesmo tempo,
as grandes estatais compram o controle acionário e espaços
publicitários nos meios. A NTV foi fundada
no início dos anos 90 pelo empresário Vladimir Gusinsky,
e era um canal crítico ao governo, que chegou a ter mais de 40%
da audiência. Depois da eleição presidencial de 2000,
vencida por Putin, o canal foi alvo de uma batida da Receita Federal e
Gusinsky, preso. Um banco estatal que havia feito um empréstimo
ao empresário cobrou pagamento, inviabilizando seus negócios.
Num acordo com o governo, Gusinsky concordou em vender à Gazprom,
gigante estatal do gás, 46% das ações de seu grupo
Media-Most - que também tinha um jornal, uma revista e uma emissora
de rádio independentes. Os veículos se tornaram favoráveis
ao governo. No Canal 1, emissora de maior audiência na Rússia, cujo dono, Boris Berezovsky, foi expulso do país, e da qual o governo adquiriu controle acionário, Medvedev obteve 32,4% do tempo dos noticiários, enquanto os outros três candidatos somaram 7,6%. Putin recebeu os outros 60%, segundo a contagem do Centro, ligado à União Russa de Jornalistas. Na estatal TV Rússia, Medvedev ficou com 25,9%, os outros três somaram 14,5% e Putin, 59,6%. No canal TV Centre, Medvedev teve 35,3% do tempo, os outros candidatos, 6,5%, e o presidente, 58,2%. O único canal
que buscou equilíbrio, segundo o levantamento, foi a Ren-TV, emissora
privada menor da qual o antigo dono, o líder oposicionista Anatoly
Chubais, também teve de abrir mão. Nela, o tempo foi repartido
entre o candidato ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky (21,6%); Medvedev
(20,9%); o comunista Gennady Ziuganov (20,5%), e o direitista Andrei Bogdanov
(6,3%). Como nas outras emissoras, Putin foi o que teve mais exposição:
30,7%. De acordo com pesquisa do instituto independente Levada Center,
a televisão é o principal meio de informação
de 81% dos russos. Assim como Putin fez
nas eleições presidenciais de 2000 e de 2004, ambas vencidas
por ele, Medvedev dispensou o tempo a que tem direito no horário
eleitoral gratuito. No programa, que vai ao ar às 7h e às
23h, por cerca de uma hora, os candidatos têm cada um o mesmo tempo,
e debatem entre si. Putin e Medvedev foram
longamente mostrados ontem pelas TVs num evento no Kremlin, no qual funcionários
apresentavam resultados de programas do governo. O popular presidente
aproveitou para dizer que o vice-primeiro-ministro se saiu bem supervisionando
os programas: "A avassaladora maioria das tarefas estabelecidas pelos
projetos foi cumprida." Em seguida, Medvedev apresentou índices
oficiais sustentando a afirmação. Medvedev lidera amplamente
as pesquisas de intenção de voto, com índices semelhantes
aos da popularidade de Putin, entre 70% e 80%. Vários líderes
da oposição, incluindo o ex-campeão mundial de xadrez
Garry Kasparov, recusaram-se a disputar a eleição, por considerá-la
injusta. Grupos de defesa da democracia respaldaram ontem a acusação.
"Esta não é uma eleição em que as pessoas
escolhem", disse Elena Panfilova, da filial russa da Transparência
Internacional. "Tudo foi decidido previamente." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |