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Favorito na Rússia,
Medvedev entra na disputa americana |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quarta-feira,
27 de fevereiro de 2008
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MOSCOU Com a vitória
virtualmente garantida na eleição de domingo na Rússia,
o candidato a presidente Dmitri Medvedev resolveu meter-se numa outra
corrida presidencial - a dos Estados Unidos. "Vamos cooperar com
qualquer administração formada nas próximas eleições",
disse ontem Medvedev, apoiado pelo presidente Vladimir Putin. "Seria,
no entanto, claramente mais fácil lidar com pessoas dotadas de
uma perspectiva atualizada, em vez daqueles que têm reflexos do
passado em seus olhos, ou simplesmente advogam visões semi-retardadas." O ataque parece dirigido
ao senador republicano John McCain, que defende a manutenção
da linha dura na política externa. Há pouco mais de uma
semana, McCain qualificou Medvedev de "fantoche" de Putin. Mas
pode atingir também a senadora democrata Hillary Clinton, que,
na comparação com o seu rival nas primárias, o senador
Barack Obama, tem sido identificada como a candidata do establishment
e do "passado". Obama, em contrapartida, apresenta-se como o
candidato da "mudança". A declaração
de Medvedev é parte de uma escalada nos atritos entre Moscou e
Washington, por numerosas razões. Entre elas estão o projeto
americano de instalar sistemas antimísseis na República
Checa e na Polônia e o apoio dos EUA à independência
de Kosovo em relação à Sérvia, tradicional
aliada da Rússia, que também enfrenta movimentos separatistas
em seu vasto território. Vice-primeiro-ministro
e ex-chefe de gabinete de Putin, Medvedev detém 73% da preferência
do eleitorado, segundo a última pesquisa, realizada nos dias 16
e 17 pelo VTsIOM. Num distante segundo lugar vem o candidato comunista
Gennady Zyuganov, com 15%, seguido pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky
(11%). Embora o instituto seja do governo, sondagens independentes não
obtiveram resultados muito diferentes. A intenção
de voto em Medvedev se aproxima do resultado obtido por Putin em sua última
eleição, em 2004 (71%) e dos impressionantes índices
de popularidade do presidente russo, que oscilam entre 70% e 80%. Eleito
pela primeira vez em março de 2000, Putin, de 55 anos, não
pode disputar um terceiro mandato, e escolheu Medvedev o candidato de
seu partido, Rússia Unida. Ele anunciou que pretende assumir o
cargo de primeiro-ministro. Deve manter-se, na prática, como homem
forte no país. A Comissão
Eleitoral, controlada pelo governo, rejeitou boa parte das candidaturas
que representavam, se não uma ameaça, pelo menos algum desconforto
para Putin e seu partido. Em relatório divulgado ontem, a Anistia
Internacional desenhou um quadro sombrio da democracia na Rússia:
"Defensores dos direitos humanos, organizações independentes
da sociedade civil, opositores políticos e cidadãos comuns
têm sido vítimas de um retrocesso nos direitos políticos
e civis." A Anistia avalia que "o espaço para visões
discordantes, para a mídia e organizações independentes
está encolhendo" na Rússia. Na contramão
das declarações de Medvedev e da política externa
de Putin, o candidato nanico à presidência pelo Partido Democrático,
Andrei Bogdanov, defendeu ontem negociações com os Estados
Unidos e o ingresso da Rússia na União Européia,
que, na visão dele, deve fatalmente acontecer, seja dentro de 10
ou de 20 anos. "A Rússia é um país europeu",
definiu Bogdanov, um cientista político de 38 anos, que tem apenas
1% de intenção de voto da última pesquisa. "Devemos
criar, com a Europa, uma nova estrutura militar, ao estilo da Otan (Organização
do Tratado do Atlântico Norte)." Segundo ele, uma pesquisa
realizada depois do referendo que aprovou a entrada da Estônia na
UE, em 2003, mostrou que 64% dos russos eram a favor da adesão
da Rússia, situada entre a Europa e a Ásia. Acusado de ser um
candidato consentido pelo Kremlin, para ajudar a legitimar o processo
eleitoral, Bogdanov criticou o governo e defendeu o liberalismo econômico.
"A base política do Rússia Unida é o funcionalismo
público", disse ele, respondendo a uma pergunta do Estado
sobre o que o diferenciava de Medvedev. "O Estado está crescendo
(no governo Putin). As pequenas empresas têm enfrentado muitas dificuldades.
Somos contra a intervenção do Estado na economia. Nossa
base é a classe media, os pequenos empresários." Ele
assegurou, no entanto, que essas eleições são "legítimas
e justas", ao contrário das anteriores. Militantes ultranacionalistas
têm espalhado a versão de que Medvedev tem origem judaica,
e portanto não é adequado à presidência, segundo
a agência Reuters. O candidato de Putin, que recebeu o apoio declarado
da Igreja Ortodoxa Russa - em retribuição a políticas
do governo favoráveis à religião -, nega que o sobrenome
de solteira de sua mãe, Shaposhnikova, seja prova de origem judaica. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |