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Da propriedade
coletiva para a proibitiva |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
3 de Agosto de 2008
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MOSCOU Pela lei, uma obra
como essa, no meio de um conjunto residencial, tem de passar por audiências
públicas. Segundo os moradores, isso não ocorreu. Eles mostram
um documento assinado pelo prefeito Ygor Luzhkov em 21 de agosto de 2007
proibindo a obra. Num segundo documento, de 5 de dezembro, Luzhkov volta
atrás e autoriza o empreendimento. Mas, garantem os moradores,
a obra continua sem alvará. "Aqui a FSB está
acima de tudo", diz uma moradora de 40 anos. "Essas três
letras protegem esse empreendimento", acrescenta outro morador, de
60. Antes de se tornar presidente, em 2000, o primeiro-ministro e homem
forte do país, Vladimir Putin, comandou a FSB. Putin levou para
o Kremlin ex-colegas de serviço secreto, incluindo o ministro do
Interior, Rachid Nurgaliyev, responsável pela polícia. "Violaram
as leis ambientais e nossas crianças ficaram sem seu parque para
brincar", observa a moradora. "Os apartamentos perderam 50%
do valor. Os prédios mais velhos em redor da obra não vão
resistir a ela." São quatro edifícios, com cerca de
5 mil moradores. Construídos em 1976, no esquema de produção
em série da União Soviética, que sofria da escassez
de recursos e pressão da demanda, eles não transmitem muita
solidez. Até onde os atentos moradores puderam observar, não
foi feita sondagem do terreno antes de começarem as fundações.
"Conflitos como
esse acontecem todos os dias", relata o vereador Sergei Mitrokhin,
líder do partido de oposição Yabloko. Segundo ele,
a causa é, como na obra da FSB, a interferência de interesses
econômicos e políticos. Prefeito desde 1992,
Luzhkov, de 71 anos, é marido da única mulher bilionária
da Rússia, Yelena Baturina. Ela é dona da holding Inteko,
que passou a se concentrar no setor de construção civil
depois que Luzhkov se tornou prefeito. A empresa cresce vertiginosamente
e ganha contratos de obras municipais, como as do Estádio Luzhniki.
Além disso, aponta Mitrokhin, o funcionário da prefeitura
responsável pela aprovação dos projetos, Vladimir
Ressin, é membro de um conselho que reúne grandes construtoras.
O liberal Mitrokhin
lembra, sem saudosismo, que, na época da União Soviética,
o planejamento tinha um papel importante. "Agora, os funcionários
decidem tudo sem consultar os planejadores. O lobby das empresas intervém
e vira uma salada, aprovando-se projetos absurdos." Ele cita como
exemplo o contrato da obra de um túnel sob o Largo Bielo-Rússia,
para aliviar o trânsito na região central. A construtora que
ganhou o contrato recebeu, em troca, permissão para construir um
shopping, que deve aumentar o trânsito. "Em vez de resolver
o problema, vai piorar", diz o vereador. "A chave que explica
tudo é a corrupção." Moscou construiu sete
arranha-céus ao longo da era soviética (1917-1990). São
as chamadas Sete Torres, que emulam as Sete Colinas de Roma. Os dirigentes
comunistas, como os tsares (monarcas) antes deles, achavam que Moscou
seria a próxima capital de um império mundial. Agora, sobre
a mesa do não menos ambicioso Luzhkov repousam projetos de 200
arranha-céus. O urbanista americano Blair Ruble, especialista em
Moscou, observa que esses projetos são tocados sem muita atenção
ao planejamento: "Uns fazem algum sentido. A maioria, não.
Parece não haver controle algum, e tanto os imóveis quanto
os projetos ficam com quem paga mais." Existem leis municipais
de zoneamento urbano, mas elas se chocam com outras leis estaduais e federais,
observa Alexander Vysokovskiy, diretor da Fundação de Reforma
e Desenvolvimento Urbano. Leis da antiga União Soviética
ainda estão em vigor. Ora convivem, ora colidem com normas adequadas
ao sistema capitalista. Uma das queixas mais comuns é quanto à
dificuldade de regularizar a propriedade privada sobre imóveis
ocupados desde a época soviética, quando eram estatais.
"Talvez o maior problema de todos seja uma total ausência de
consciência de que a boa governança depende de transparência
e prestação de contas aos cidadãos", afirma
o urbanista Ruble. Em menos de duas décadas,
o mercado imobiliário moscovita saiu da propriedade coletiva para
a proibitiva. Moscou lidera as recomendações para a compra
de imóveis na Europa, na edição de 2008 do relatório
anual Emerging Trends in Real Estate. "Esse mercado tem enorme profundidade
e fôlego", assinala o relatório, elaborado pelo Urban
Land Institute e pela empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers. O metro quadrado de
apartamentos de quarto, sala, cozinha e banheiro em edifícios sem
graça custa US$ 5 mil (R$ 8 mil). Nos edifícios mais charmosos,
antes habitados por políticos ou intelectuais amigos do antigo
regime, pode chegar a US$ 30 mil (R$ 47,9 mil). O preço da moradia,
combinado com a valorização do rublo em relação
ao dólar, leva Moscou a encabeçar as listas de cidades mais
caras do mundo. Economistas afirmam
que o preço dos imóveis na capital acompanha a cotação
do petróleo, do qual a Rússia é o segundo maior produtor
e exportador mundial. Mas o magnetismo exercido por Moscou também
ajuda a explicar essa escalada dos preços. De acordo com pesquisa
do instituto oficial VTsIOM, os russos consideram Moscou o lugar mais
atraente para morar. Além disso, enquanto a renda média
das famílias em toda a Rússia é de aproximadamente
R$ 906 mensais, em Moscou ela alcança R$ 1.757, segundo o Levada
Center, que faz pesquisas domiciliares mensais. A especulação
imobiliária em Moscou segue caminho inverso ao de muitas metrópoles.
Se em São Paulo ela empurra as zonas residenciais para longe do
centro, em Moscou as pessoas se apertam na área central da cidade.
Ninguém mora em casa em Moscou. Todas foram confiscadas pela Revolução
de 1917 e convertidas em museus, bibliotecas, repartições
públicas. Só agora os "oligarcas", como são
chamados os novos-ricos, começam a mudar-se para condomínios
fechados fora da cidade. O grande adensamento é uma tendência desde que Moscou voltou a ser a capital da Rússia, em 1918, por decisão do líder Vladimir Ilitch Lênin (em 1703, o poder fora transferido para São Petersburgo pelo tsar Pedro, o Grande, na tentativa de dar um lustro europeu ao império russo). Por décadas, o governo soviético só construiu na capital, diz o diretor do Museu de Arquitetura de Moscou, David Sarkisyan: "A megalópole cresceu socando as pessoas, que se habituaram a viver sob condições muito ruins." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |