"Os que sobreviveram caminham como se estivessem mortos." A frase, de um jovem haitiano que perdeu a mãe e a irmã mais nova, definiu com terrível precisão as pessoas que vagavam pelas ruas nos primeiros dias depois da "catástrofe", como é chamado aqui o terremoto do dia 12. A cada dia que passou, a frase foi perdendo sentido. Sem chance de enterrar seus mortos, o luto e o choque dos haitianos deram lugar a um impulso mais primitivo: o da sobrevivência.


Vieram os saques, a disputa desesperada nas distribuições de alimentos e água, os últimos gourdes (a moeda local) trocados por verduras e frutas nas feiras efervescentes e, finalmente, as filas imensas na reabertura das agências de transferência de dinheiro e dos bancos poupadas pelo terremoto. O Haiti e sua economia renascem. Mas, além da metade dos 200 mil mortos estimados, que não foi retirada dos escombros, o que mais do Haiti foi sepultado pelo terremoto?

Para continuar a leitura, clique aqui

Veja lista completa de matérias do Haiti


Dois milicianos me levaram de volta para o checkpoint. Fui até o major da poltrona: "Por favor, me deixe caminhar." Ele chamou um soldado para traduzir, que se apresentou como Volva (abreviação de Vladimir): "Aqui, somos o Exército russo, mas lá existem homens maus. Vão te matar."

Mal terminou de dizer isso, e uma velha perua Opel cruzou o checkpoint, com dois milicianos ossétios dentro. Quando me viram, pararam o carro, e o passageiro veio correndo na minha direção, gritando e apontando o fuzil para mim. Vociferando, ele apertou a boca do fuzil contra minha garganta. Instintivamente, segurei o cano, tentando aliviar a pressão. Era a terceira vez que me apontavam um fuzil no mesmo dia. Os russos gritavam várias coisas, entre elas: "Brazilia, Brazilia." O ossétio deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. "Relaxe", disse Volva. "Pensaram que você era georgiano."

Eram 18h15. Um comboio de blindados e caminhões russos parou no checkpoint. Assim como os milicianos, vinha de Gori, para onde eu queria ir. "Eles vão te levar para Gori", disse o major do tanque. "Spassiba", agradeci. Subi no blindado da frente. "Dokument", gritou o major que o comandava. Mostrei o passaporte e a credencial . Em vez de dar meia-volta em direção a Gori, o comboio atravessou o checkpoint. Eu estava voltando para Tskhinvali. No caminho, um capitão requisitou meu bloco de anotações, cuja espiral despontava do bolso da calça cargo. Compreendi que não estava ganhando uma carona. Estava preso.

Leia o relato completo em:

'Um miliciano mirou o fuzil no meu peito e pulei na estrada'

Tskhinvali: população e esperanças arrasadas

'Relaxe. Pensaram que você era georgiano', disse o soldado Volva


A estrada estreita que sobe para o bairro de Micronassiliev, na encosta de uma colina, mal dá para um carro passar, mas é de duas mãos. Quando dois carros vêm na direção contrária, um tem que dar ré até encontrar um canto para o outro passar. O bairro era um dos poucos lugares de "população mista" que restavam em Kosovo depois da guerra de 1999, que culminou nos bombardeios da Otan contra forças sérvias que começaram combatendo o Exército de Libertação de Kosovo e acabaram engajadas numa "limpeza étnica".

Depois da proclamação da independência, domingo passado, quando se pergunta pelos albaneses em Micronassiliev, os sérvios apontam para casas fechadas e vazias.

Na verdade, se sérvios e albaneses conversassem, perceberiam que dizem as mesmas coisas uns dos outros, com sinal trocado. Mas desde o conflito dos anos 90 os albaneses do lado sul de Mitrovica e os sérvios do norte não cruzam a ponte de 50 metros do Rio Ibar, que divide a cidade.

Como na estrada de Micronassiliev, albaneses e sérvios seguem em direções opostas, e não há espaço para os dois. Mas, nesse caso, ninguém está disposto a ceder.

Leia em:
Uma cidade dividida pela intolerância


Uma cancela amarela no fim de uma rua esburacada marca o começo do "Hamastão". "Salam-aleikun" (paz a todos), cumprimenta o repórter do Estado, apertando a mão de um dos milicianos do Hamas que guardam a entrada, com o boné verde do movimento, camiseta e calça pretas e um fuzil AK-47 pendurado no ombro. "Ana sahafi Bresil" (sou um jornalista do Brasil). O miliciano abre um sorriso ao ouvir o nome do país do futebol: "Ahlan wa sahlan" (seja bem-vindo).

A chegada à Faixa de Gaza dominada pelo Hamas - cuja entrada foi permitida ontem por Israel, pela primeira vez em oito dias, apenas para jornalistas estrangeiros - é o ingresso em uma realidade nova, mas é também o fim de uma viagem estranha. Sair de Ramallah para Jerusalém nunca foi tão fácil, com os soldados israelenses batendo papo nos postos de controle, enquanto as forças de segurança da Autoridade Palestina, controladas pelo Fatah, perseguem, dentro da Cisjordânia, as milícias do Hamas, declaradas ilegais.

Convertida em 'Hamastão', Gaza equivale a prisão para palestinos - 20/6/2007
Exército de Israel impede que habitantes, apavorados com avanço de radicais ou feridos, deixem o território


Nos últimos 12 anos, três grandes ondas de protestos sacudiram a França. A primeira, em 1995, obrigou o então primeiro-ministro Alain Juppé a retirar uma proposta de reforma da Previdência. Em outubro e novembro de 2005, milhares de carros foram queimados por jovens enfurecidos pela repressão policial e pela exclusão, nos redutos de imigrantes na periferia de Paris. Por último, entre fevereiro e abril do ano passado, 3 milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra o Contrato de Primeiro Emprego, que permitia a demissão sem indenização de jovens com menos de 26 anos, com o intuito de facilitar sua contratação.

Na quarta-feira, Nicolas Sarkozy assume a presidência da França disposto a pôr a mão, de uma vez só, em todos esses vespeiros. Promete acabar com os 124 regimes especiais da Previdência, que permitem a membros de poderosas corporações aposentarem-se com 37 anos e meio de contribuição, quando a maioria tem de cumprir 40 anos; e avisa que esse período terá de aumentar, para acompanhar o envelhecimento da população. Anuncia que vai instituir cotas de imigração e aumentar a repressão à criminalidade e a severidade das penas. Pretende flexibilizar os contratos de trabalho, reduzindo encargos sociais e facilitando demissões. Além de ampliar de 35 para 39 horas a jornada semanal de trabalho.

Na agenda de Sarkozy, há combustível bastante para incendiar a França.

Sarkozy enfrentará temas espinhosos - 13/5/2007


Uma sala de 2 metros por 3, com uma cama, uma penteadeira, uma TV e um rádio abriga um dos segredos mais bem guardados pelo governo de São Paulo. Cinco meses depois de ter cumprido a 'medida socioeducativa' de três anos, à qual foi condenado pela participação no assassinato dos jovens Felipe Caffé e Liana Friedenbach, Champinha permanece numa unidade da Fundação Casa, antiga Febem.

Agora um jovem adulto de 20 anos, completados no dia 9 de dezembro, Champinha vive numa espécie de limbo jurídico-institucional. No seu último encontro com uma diretora da fundação, cobrou: 'Tenho três anos, quatro meses e 22 dias. Já passei do tempo. Não posso continuar aqui.' Sua ansiedade de sair é calibrada por um pavor de ser morto que se aproxima da paranóia. 'A cadeia não é eterna. Meu futuro é a morte', é uma de suas frases recorrentes.

A vida de Champinha na Febem - 22/4/2007

Um crime que chocou o Brasil

Em sua primeira entrevista com um psiquiatra, em novembro de 2003, no calor do crime que assombrara São Paulo, Champinha respondeu à pergunta sobre se estava arrependido dizendo que sim, porque ia 'ficar três anos fechado'. O psiquiatra insistiu, perguntando se tinha valido a pena, e ele explicou que não, porque ia ficar preso. 'Ele não tem idéia da gravidade do homicídio', escreveu o médico em seu laudo.

A naturalidade com que Champinha fala do que foi feito com Liana e Felipe poderia sugerir que se trata de um psicopata - fixado no próprio prazer e indiferente ao sofrimento do outro. Não é o caso de Champinha, garantem psiquiatras e psicólogos que o examinaram. O rapaz, dizem eles, sofre de um déficit intelectual que o coloca no limite da deficiência mental e impede que ele tenha capacidade de abstração e de crítica. Do ponto de vista intelectual e moral, é como uma criança pequena.

Avaliações indicam que ele não pode ser solto

O 'jeitinho' da Justiça para manter a internação


Desde 2004, a Aeronáutica tem advertido, ano após ano, para os riscos do desinvestimento no controle do tráfego aéreo. Ao apresentar suas propostas orçamentárias de 2004, 2005 e 2006, o Decea informou, por escrito, que a não-liberação integral dos recursos levaria à situação vivida agora no País. Mesmo assim, as verbas foram cortadas nesses três anos, tanto na elaboração do Orçamento quanto na liberação efetiva de dinheiro. É o que revela relatório do Tribunal de Contas da União, obtido pelo Estado.

Os ministérios do Planejamento (que cuida do Orçamento) e da Fazenda (que libera o dinheiro) informaram que só lidam com recursos globais dos ministérios, aos quais cabe distribuir verbas entre seus departamentos e programas específicos. Diante dos contingenciamentos, os ministérios têm praticado cortes lineares em seus gastos.

Enquanto falta dinheiro para operação, manutenção e investimento em equipamentos de controle de tráfego aéreo, sobram recursos para a Infraero - envolvida, segundo o Tribunal de Contas e o Ministério Público, numa série de escândalos de superfaturamento de obras.

FAB alerta para apagão desde 2004

Penúria no tráfego aéreo e bonança na Infraero


O bombardeio aéreo é uma experiência eminentemente sonora. Tudo começa com os caças-bombardeiros rompendo a barreira do som: ROAARRR. Em seguida, os mísseis descem assoviando. Se são bombas, o som é mais o de um corpo caindo: tóum. E, quando batem no chão, fazem assim: tuf, tuf, tuf, como se fosse a agulha de uma máquina de costura. E explodem: PAM.

O chão e as paredes tremem, como se fosse um terremoto. Claro que, quanto mais perto cair a bomba ou míssil, mais forte o terremoto. Na casa onde eu fiquei entre segunda e terça-feira (7 e 8/8/2006), em Marjayoun, Sul do Líbano, uma janela inteira, com toda a esquadria de madeira, saltou da parede e caiu no chão, como uma caixa de fósforos que tivesse levado um peteleco. Os vidros das janelas estavam estilhaçados no chão.

Uma noite de bombardeio é algo infernal. A gente não dorme. Às vezes, quando está muito cansado, dá um cochilo superficial. Mas sempre acorda com um impacto muito forte, de uma bomba mais perto. Muitas coisas passam pela cabeça. Mas uma imagem muito freqüente é essa: esses pilotos não estão me vendo. Para eles, é só apertar um botão. E ir embora com o sentimento da missão cumprida. A gente se imagina como um inseto, com um gigante caminhando em cima da nossa cabeça, dando passos a esmo: bum, bum, indiferente a nossa sorte, sem saber que existimos.

Na região de Marjayoun, ouve-se bem de perto também as baterias dos Katiuchas. Ao disparar, eles fazem bum, e o chão treme. Daí o barulho deles voando no céu é assim: vuuush. E muitas vezes vem a resposta da artilharia de terra de Israel: tom, tom, tom, tom, tom. Os israelenses estão subindo até Al-Amra, um bairro de Khiem, a 4 quilômetros da cidade de Marjayoun. Disparam e voltam para o lado israelense, segundo me disse o general libanês Adnan Daoud, comandante da Finul, a força de observação da ONU.

Às vezes, o bombardeio pára por uns minutos, e você respira aliviado, torce para que tenha acabado. Mas logo você ouve: ROAAARRR. E começa tudo de novo. Quando ouve o tuf, tuf, tuf, você pensa assim: será que tinha alguém ali onde caiu a bomba? Será que eu serei o próximo? Quando amanhece, dá um alívio. No caso do Sul do Líbano, não é um alívio racional, porque os bombardeios continuam durante o dia. Mas acho que é o alívio do insone, que não precisa mais tentar dormir. Acabou o pesadelo, você sobreviveu, a vida continua.

Esse e outros relatos da cobertura da guerra estão no blog Direto do Líbano

Leia também a reportagem sobre essa noite de bombardeio em Marjayoun:
Depois do rugido dos aviões,vem o silvar das bombas - 8/8/2006

Ou entre na lista completa de matérias sobre o Líbano


A desmobilização de 30 mil paramilitares na Colômbia teve um efeito colateral inesperado: a guerrilha das Farc tomou parte de seus negócios e sua participação na receita da cocaína colombiana saltou de 60% para 70%. Essa receita pode significar entre US$ 441 milhões e US$ 945 milhões, ou cerca de 10% a 20% do orçamento colombiano para a defesa.

Os dados, até agora inéditos, são da Direção Nacional de Entorpecentes, vinculada ao Ministério do Interior e da Justiça da Colômbia. Em entrevista ao Estado, o diretor do DNE, Carlos Medina, reconhece que a área plantada de coca no país pode ter aumentado de 80 mil para 85 mil hectares, entre 2004 e 2005. Mas argumenta que as ações de repressão do governo evitaram a comercialização de cerca de US$ 48 bilhões em cocaína.

Programa de substituição de cultivos do Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime conseguiu tirar 10 mil famílias das lavouras de coca, trocando-a por produtos de valor agregado com comercialização garantida nas redes de supermercado da Colômbia e também para exportação. Hoje, entre 50 mil e 55 mil famílias de camponeses se dedicam ao cultivo da coca.

Para ler as reportagens, clique em Farc controlam 70% da cocaína - 12/6/06, e nas próximas.