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Transporte:
desafio na cidade que se espalha |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
17 de janeiro de 2010
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Renata Santiago mora
no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, e trabalha numa empresa
de telemarketing perto da Estação da Luz, no centro da cidade.
Todos os dias, Renata sai de casa às 9 horas, embora só
entre no trabalho ao meio-dia. O ônibus leva entre 1 hora e 1h30
de sua casa até o Terminal Capelinha, ainda na zona sul. Lá,
ela pega outro ônibus, que vem pelo corredor da Santo Amaro e da
9 de Julho, e leva entre 1h15 e 2 horas para chegar ao Terminal das Bandeiras,
no centro. Renata sai do trabalho
às 20 horas. O caminho de volta para casa lhe toma outras 2 horas.
No total, ela passa cerca de 5 horas por dia dentro do ônibus. Aos
22 anos, com o segundo grau completo e um salário que lhe permitiria
pagar faculdade, Renata sabe exatamente o que faria com esse tempo, se
ele não lhe fosse roubado: um curso de recursos humanos, de dois
anos de duração, que a faria progredir no trabalho. Mas
isso é fisicamente impossível: "Não tenho como
conciliar faculdade e serviço", resigna-se a moça.
"Espero a expansão do metrô". Vanessa Berise demora
apenas meia hora no metrô de sua casa, na Penha, até o consultório
onde trabalha, na Avenida Paulista. Mas isso é porque ela entra
às 13 horas. Na volta, às 19 horas, ela é obrigada
a pegar ônibus. Da Avenida Brigadeiro Luís Antônio
até o Terminal Dom Pedro, leva de meia hora a 50 minutos. Daí
pega outro ônibus até sua casa, que demora de 35 a 50 minutos.
Ou seja, a volta consome quase uma hora mais que a ida. "Eu gostaria
de voltar de metrô, mas ele fica superlotado no início da
noite", explica Vanessa, também de 22 anos. "O problema
não é o ônibus, mas o trânsito". José Luís
dos Santos, de 30 anos, mora no Jardim Damasceno, zona norte, e trabalha
como estoquista na Rua Barão de Duprat, no centro, das 8 às
18 horas. Ele sai de casa às 6h30, pega um micro-ônibus até
o Terminal Vila Nova Cachoeirinha e, de lá, um ônibus até
o Largo do Paissandú, aonde chega às 7h45. Mas dramática
é a volta. "Os ônibus lotam demais. Na Lapa entra muita
gente", descreve. "Às vezes, fico esperando o horário
de pico passar. Chego em casa 20h30, 21 horas". Nos corredores pelos
quais Renata atravessa a cidade, assim como no Largo do Paissandú,
os ônibus formam filas. O problema não é sua frequência,
mas a quantidade de gente, o trânsito e a simples distância.
Os trens do metrô da Linha 3, que serve à zona leste, já
atingiram, no horário de pico, o intervalo mínimo permitido
pelo sistema: 101 segundos, o terceiro menor do mundo. É evidente
que em muitas situações o transporte público precisa
ser melhorado - principalmente até os terminais, e entre bairros
vizinhos. Mas o que as histórias de Renata, José Luís
e Vanessa mostram é que a solução para o problema
da circulação em São Paulo não está
apenas na melhora do transporte público ou na expansão do
metrô - ambas obviamente desejáveis. Não há
transporte público nem sistema viário que comportem uma
população de 11 milhões de habitantes - para não
falar dos outros 9 milhões da Região Metropolitana - cruzando
a cidade em busca de trabalho, ensino, saúde, consumo e lazer.
É preciso que as pessoas encontrem isso mais perto de casa. Na região da
Sé, no centro de São Paulo, moram 20.115 pessoas e trabalham
257.385. São 12,8 empregos por morador. Já em Itaquera,
populoso bairro da zona leste, há 201.512 habitantes e 17.495 empregados
- 11,5 moradores por vaga. Mais ao fundo da zona leste, na Cidade Tiradentes,
a equação piora: para uma população de 190.657
pessoas, há apenas 2.889 empregos - 66 moradores por vaga. No Jardim
Ângela, bairro pobre da zona sul, moram 245.805 pessoas, mas só
há 5.171 empregos - 42,5 habitantes por vaga. "Fala-se do problema
da circulação como se o uso e ocupação do
solo não tivesse importância", observa Raquel Rolnik,
professora de urbanismo da USP e diretora de Planejamento da Secretaria
Municipal de Planejamento entre 1989 e 1992, na gestão de Luiza
Erundina. "Os deslocamentos são definidos pelo modo de ocupação
do solo. O modelo seguido no Brasil em geral e em São Paulo em
particular contribui para a insustentabilidade da circulação,
porque o desenvolvimento é ditado pela lógica do mercado". A começar pelos
conjuntos habitacionais populares. Os governos oferecem aos empreendedores
valor fixo por unidade habitacional - que no programa federal Minha Casa
Minha Vida são R$ 52 mil nas regiões metropolitanas e R$
48 mil nas cidades menores. Em geral mais fortes que as prefeituras, os
empresários compram terrenos baratos em locais longínquos,
quase rurais, formando "guetos" puramente residenciais, que
obrigam os moradores a percorrer longas distâncias atrás
de trabalho e o Poder Público a estender infraestrutura até
lá, deixando vazios nas regiões mais centrais e no meio
desses percursos. Áreas puramente
residenciais também são vendidas com sucesso às classes
média e alta, por meio de condomínios de casas e edifícios
cercados de "bosques" que representam o sonho de uma vida tranquila
e segura. "Esses condomínios fechados são um atraso
de vida", critica o urbanista Jorge Wilheim, duas vezes secretário
municipal de Planejamento e mentor do célebre Plano Diretor de
Curitiba dos anos 60. "Criam-se guetos. Não há nada
melhor que o espaço público, onde há convívio".
Para Wilheim, essa
é uma resposta errada não só do ponto de vista urbanístico,
mas também da segurança. "Ninguém tem coragem
de entrar numa rua deserta, mas numa cheia de gente não tem medo",
explica. "A salvaguarda de cada um de nós está nos
outros." Numa rua movimentada, em que as classes se misturam, o problema
de segurança se resume a trombadinhas; já os condomínios
fechados concentram a riqueza, sublinham a disparidade social e se transformam
em alvos de invasões a mão armada, apontam vários
urbanistas. Por outro lado, a
concentração do trabalho em determinadas áreas faz
com que elas fiquem vazias de noite - um desperdício de infraestrutura
e, em alguns casos, cenário de degradação. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |