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Ocupações
irregulares desorganizam sistemas viários |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
17 de janeiro de 2010
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Assim como é
desejável que se criem "novas centralidades" na cidade,
como dizem os urbanistas, é evidente também que os moradores
de São Paulo têm de poder deslocar-se, e para isso dispor
de um transporte público digno do nome. "É possível
promover maior mistura de trabalho, educação, consumo, moradia
e outras atividades urbanas, mas isso não vai evitar que as pessoas
circulem de lá para cá e atravessem a metrópole de
São Paulo todos os dias", diz o urbanista Anderson Kazuo Nakano,
do Instituto Pólis. "As pessoas buscam oportunidades em diferentes
locais da metrópole e não somente nas proximidades das suas
casas." O Estado percorreu
a periferia e o centro da cidade nos horários de pico, e constatou
que os terminais funcionam relativamente bem. O gargalo está nos
pontos de ônibus fora deles, sobretudo nos percursos intermediários,
e nas ligações entre bairros de uma mesma região
- um velho problema da cidade. Nakano observa que, na Região Metropolitana
de São Paulo, a proliferação de loteamentos irregulares
e de favelas, sem nenhum planejamento, levou a sistemas viários
locais, de interligação entre bairros vizinhos, bastante
truncados. "Ao longo dos
anos investimos em grandes avenidas e eixos de transporte coletivo que
procuram atacar os problemas das macro-acessibilidades (unindo regiões,
distritos e municípios) a partir de eixos que, muitas vezes, estão
em conflito com os sistemas viários locais", diz o urbanista.
A ocupação tende a estender-se ao longo desses grandes eixos,
sobrecarregando o seu trânsito e impedindo o fortalecimento de redes
locais de transportes, serviços, comércio e, com eles, trabalho,
consumo e lazer. Na zona leste de São
Paulo, por exemplo, há poucos eixos norte-sul (Avenida Aricanduva,
Jacu-Pêssego) e predominância dos eixos leste-oeste (Avenida
Celso Garcia, Radial Leste, Sapopemba, São Miguel, linha do metrô
e trens da CPTM). "Isso faz com que seja difícil você
ir, por exemplo, da Cidade Tiradentes para Lajeado, ou de São Mateus
para a Penha", descreve Nakano. É preciso ir a subcentros
e ao próprio centro e voltar. "Muitos falam
que temos de avançar mais na integração entre planejamento
e gestão da mobilidade, da acessibilidade e dos padrões
de uso, ocupação e parcelamento do solo urbano, mas pouco
se fez no sentido dessa integração", constata o urbanista. A resposta do prefeito
Gilberto Kassab a esses problemas é o metrô. "O desenho
da rede de metrô vai fazer as ligações perimetrais
que não havia, formando anéis", disse ele ao Estado.
"Com o tempo, vai-se preencher as lacunas." Kassab ressalta
que, depois de 30 anos em que o metrô foi incumbência do Estado,
a Prefeitura de São Paulo investiu R$ 1 bilhão no seu primeiro
mandato e investirá outro bilhão até o final de sua
segunda gestão, em 2012. O urbanista Jaime
Lerner não vê o metrô como solução. "Há
um falso dilema entre carro e metrô. Nem um nem outro", descarta.
"As cidades hoje não vão construir redes completas
de metrô." Londres, Paris, Moscou e Nova York construíram
as suas há mais de 100 anos, quando não existia ônibus
e era mais barato trabalhar no subsolo. "Hoje, é impossível",
diz o urbanista. "Em São Paulo, 84% dos deslocamentos são
na superfície, e continuarão assim". Lerner, que há
quase quatro décadas introduziu os corredores de ônibus e
o sistema integrado de transportes em Curitiba, hoje imitados em várias
partes do mundo, defende "metronizar" a superfície, ou
seja, dar aos deslocamentos nela qualidade de metrô. Apesar de sua predileção
pelo metrô, Kassab tem lançado mão do monotrilho,
um trem sobre pneus que trafega sobre vias elevadas exclusivas para ele,
e sem cruzamentos. "Não é tão veloz quanto o
metrô, mas muitas vezes superior ao ônibus em conforto e velocidade",
elogia o prefeito. O primeiro deles será o Expresso Tiradentes,
na zona norte, investimento de R$ 1 bilhão da Prefeitura e mais
parceria com governo do Estado. O segundo será o Corredor Zona
Sul, de 34 km, com participação da iniciativa privada. Já
o Corredor da Avenida Celso Garcia deverá ser um metrô subterrâneo.
Segundo Kassab, juntos, os três devem beneficiar 2 milhões
de pessoas. Quanto aos bairros,
o prefeito argumenta que os corredores de ônibus também fazem
a sua integração. Além disso, o secretário
dos Transportes, Alexandre de Moraes, diz ter autorizado a substituição
de 87 a 89 micro-ônibus por veículos chamados de "micrões",
que têm 30% a mais de capacidade. A razão de não substituí-los
por ônibus é a dificuldade de fazer curvas em alguns locais
da periferia. Outro problema é
o próprio trânsito, que não afeta apenas os automóveis,
mas também os ônibus. Moraes diz que, para aumentar a vazão
dos ônibus, tem proibido o estacionamento em várias regiões
da cidade. Na Rua Augusta, por exemplo, o trajeto caiu de 54 para 30 minutos,
em média. Quando o Trecho Sul do Rodoanel estiver pronto, no fim
de março, a Prefeitura vai impedir a circulação de
caminhões em horários de pico em vias como as Marginais,
a Avenida dos Bandeirantes e a Salim Farah Maluf, para liberar as pistas
para os ônibus. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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