Para Amorim, Alca ainda não recebeu golpe mortal

Chanceler entende que houve ‘decepção’ e por isso foi marcada outra reunião.

PEQUIM – A confirmação dos Estados Unidos de que pretendem excluir produtos agrícolas do acordo para a eliminação de tarifas de importação não representa ainda um golpe mortal na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A afirmação é do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. “Um golpe mortal, acho que seria precipitado”, disse o chanceler, em resposta a uma pergunta do Estado.

“Se os co-presidentes marcaram outra reunião, pode ter havido uma decepção, mas não um golpe mortal”, acrescentou Amorim, em entrevista depois da inauguração do escritório da Petrobrás em Pequim. O embaixador brasileiro Adhemar Bahadian e seu colega americano, Peter Allgeier, que conduzem as negociações para a formação da Alca, marcaram novo encontro para o dia 2.

O chanceler ressalvou que ainda não teve tempo para ler o relato sobre a reunião de sexta-feira em Washington. Amorim embarcou na manhã daquele dia com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e comitiva rumo a Pequim, passando, no sábado, por Kiev, na Ucrânia. “Pelo que eu sei, sobre acesso aos mercados, nós já não tínhamos mesmo muitas expectativas”, ponderou o chanceler. 

“No que diz respeito a subsídios, no fundo sabíamos que ficariam para a OMC (Organização Mundial do Comércio), onde nós vamos continuar discutindo”, disse Amorim. “Agora, o fato de que produtos sejam excluídos da desgravação tarifária é obviamente um problema.”

O chanceler contou que, quando esteve em Miami, o próprio governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do presidente americano, disse que os cítricos, que são um produto importante de seu Estado, não poderiam entrar na lista da desgravação tarifária. “Esperávamos que com o tempo isso fosse se dissolvendo”, acrescentou.

Amorim frisou que as dificuldades nas negociações para a formação da Alca “não têm nada a ver” com as relações entre Brasil e Estados Unidos. Ele avalia que a reação americana está vinculada ao “momento político pré-eleitoral” que os Estados Unidos atravessam, e disse que não se surpreenderia se houvesse nova reversão na posição de Washington. 

“Não estou sem esperança de que se possa conseguir um resultado positivo ainda com os Estados Unidos, obtendo acesso a mercados que cubra os produtos do nosso interesse, entre os quais, não apenas, mas predominantemente os agrícolas”, declarou o chanceler.

Amorim se mostrou otimista quanto às negociações entre Mercosul e União Européia. “Acho que estamos com uma oferta boa”, estimou o chanceler. “Também não tive tempo ainda de avaliar. Mas foi importante os dois lados terem colocado as cartas na mesa, não ficarem brincando de esconder o jogo.” De Xangai, para onde vão no dia 25, Lula e Amorim seguem no dia 27 para Guadalajara, no México, para a reunião de cúpula entre América Latina e Europa, na qual haverá também um encontro entre os países do Mercosul e da União Européia. 

O chanceler negou que a aproximação da China fosse uma resposta às dificuldades de negociação com os Estados Unidos. “A China é independente disso, é um grande parceiro estratégico do Brasil e tem todo o potencial para ser um parceiro ainda maior”, disse Amorim, mas ressalvou: “Acho que, quanto maior a diversidade de parceiros, de oportunidades, melhores são suas condições de enfrentar as dificuldades num ou noutro mercado.”

 

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