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Islâmicos
e liberais se unem contra nacionalistas radicais |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
26 de novembro de 2006
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ANCARA As reações
à visita do papa Bento XVI sublinham uma notável mudança
no alinhamento de forças na Turquia. Nas eleições
de 2002, que deram a vitória ao Partido da Paz e do Desenvolvimento
(AKP), a principal divisão na Turquia parecia ser entre secularistas
e islâmicos. Depois de quatro anos de reformas que consolidaram
a democracia turca, a divisão é outra: das duas correntes,
desprenderam-se liberais e nacionalistas, formando dois novos pólos. Quando abraçaram
a causa da União Européia (UE), os islâmicos moderados,
liderados pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, acreditavam que
ela ajudaria a diminuir a influência política dos militares,
que têm o papel constitucional de preservar o secularismo. As reformas
políticas exigidas para que a Turquia pudesse entrar na UE
um sonho que chegou a unir 80% dos turcos fortaleceram as instituições
civis e reforçaram a liberdade religiosa e os direitos de minorias,
como os curdos. Mas isso não
atraiu só os islâmicos. Todas as forças interessadas
na democratização e na desmilitarização se
uniram em torno dessas reformas, diz Sahin Alpay, professor de ciência
política na Universidade Bahcesehir. O processo de integração
à União Européia uniu os liberais islâmicos
e secularistas, e a divisão passou a ser entre liberais e nacionalistas.
Para Alpay, com sua
maioria de dois terços no Parlamento, o AKP, que ele chama de ex-islâmico,
conduziu o maior programa liberal da história da Turquia.
É isso o que diferencia a Turquia, diz ele. O
estereótipo do Islã é totalmente irrelevante aqui. O Conselho de Segurança
Nacional, por meio do qual os militares tutelavam os governos civis, periodicamente
promovendo golpes, foi reformulado. Seus integrantes civis ganharam mais
força, e ele deixou de ser na prática executivo para se
tornar de fato consultivo. Os curdos ganharam o direito de fazer transmissões
de rádio e TV em sua língua e de ensiná-la em colégios
privados. A lei marcial, que dava poderes extras de investigação
e de detenção, caiu. Mas nem todos estão
seguros quanto ao rumo tomado. Estou preocupada com o futuro do
secularismo na Turquia, diz Nilufer Narli, especialista em islamismo
e política. Esse governo não desistiu de sua agenda
de islamização. Ela cita como exemplo a tentativa
do Ministério da Educação de igualar os seminários
religiosos às escolas de ensino médio laicas. Pela legislação
atual, fortemente secularista, as provas dos alunos dos seminários
têm 25% do peso dos exames de estudantes de escolas regulares, nos
vestibulares para cursos que não sejam de teologia. O governo e
outros defensores da mudança argumentam que a situação
é injusta. Na Turquia, não
é possível impor a Sharia, admite Nilufer, referindo-se
ao código de normas islâmico. Mas eles gostariam de
ver mais elementos islâmicos na legislação, de banir
o álcool em alguns lugares, de liberar o uso do véu nas
escolas e repartições públicas (hoje proibido), de
transformar a sexta-feira em dia de descanso, coisas simbólicas. Mulheres de véu
se tornaram mais comuns nas cidades grandes. Mas é provável
que isso seja resultado da imigração do campo, onde as famílias
são mais conservadoras, para a cidade. Pesquisa divulgada na terça-feira
pelo Tesev, um instituto independente, indica que, de 1999 para cá,
a fatia de mulheres que usam o véu caiu de 75% para 60%, enquanto
a proporção dos turcos que se declaram contra um Estado
islâmico aumentou de 58% para 76%. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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