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Chipre
pode impedir a sonhada adesão à UE |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
26 de novembro de 2006
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ISTAMBUL De frente para o Estreito
de Bósforo, na ponta européia da Turquia, a estátua
de Mustafa Kemal Ataturk contempla a Ásia. O fundador da Turquia
moderna dá de costas para o Palácio Topkapi, sede do colossal
Império Otomano. Ataturk deixou para trás o passado imperial,
que terminou no domínio britânico e francês sobre o
território turco. Ao reconquistar a independência, lançou-se
para a Ásia, deslocando a capital do novo país para Ancara. Hoje, só 3%
do território turco está na Europa. Mas nada disso impressiona
os turcos. Eu me sinto mediterrânea e européia. Sinto-me
parte da Anatólia, mas nunca dizemos que somos asiáticos,
diz Selcen Oner, que faz uma tese de doutorado sobre a identidade turca,
no Instituto de Estudos da União Européia, em Istambul.
Ataturk podia olhar
para a Ásia, mas tinha os pés bem fincados na Europa. Continuem
vocês mesmos, mas peguem do Ocidente o indispensável para
a vida de um povo desenvolvido, recomendou ele aos turcos, depois
de concluir que o esfacelamento do império não se deveu
apenas à superextensão territorial, mas também aos
valores retrógrados. Deixem a ciência e as novas idéias
entrarem livremente. Se não, elas devorarão vocês. Todo tipo de argumento
é usado pelos turcos para provar que são europeus. O
Galatasaray foi campeão da Uefa. No futebol, a Turquia já
é européia, lembra Umit Kesim, um pesquisador na área
de esportes. Há 4 milhões de turcos vivendo em todos
os países membros da União Européia, contabiliza
o cientista político Sahin Alpay. Nenhum outro país
tem isso. A Turquia é a mais européia das nações. O problema é
que muitos europeus não concordam com isso. Quando olham para a
Turquia, eles vêem uma massa territorial de 814 mil quilômetros
quadrados (mais de um quinto da atual União Européia), quase
toda na Ásia. E povoada por 72 milhões de pessoas (15% da
população da UE), das quais 99,8%, muçulmanas. Com
a Turquia, a UE passaria a fazer fronteira com a Síria, o Iraque
e o Irã. Nada disso parecia preocupar quando a idéia surgiu,
na virada da década. Mas, de lá para cá, o humor
ocidencial mudou. As pesquisas mostram que a maioria dos europeus é
contra o ingresso da Turquia. Uma reunião
de cúpula da UE nos dias 14 e 15 selará o destino da candidatura
turca. O principal entrave é o Chipre, que se tornou membro no
ano passado. A ilha foi dividida em 1974, quando a Turquia interveio na
porção norte, de etnia turca, acusando os gregos étnicos,
que ocupam o sul, de um golpe apoiado pela Grécia. A UE exige que
a Turquia libere o uso de seus portos e aeroportos pelo Chipre. O governo
turco só aceita fazê-lo depois que a UE romper o isolamento
da República Turca do Norte do Chipre, que só
a Turquia reconhece. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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