|
'Injustiçados',
turcos já pensam em alternativas |
|
|
LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
26 de novembro de 2006
|
|
ANCARA A ilha de Chipre tem 9.250 quilômetros quadrados (menos da metade de Sergipe) e 784 mil habitantes. Desses, a porção norte, ocupada pelos turcos, representa 3.355 quilômetros quadrados e 141 mil pessoas. Pode algo dessas dimensões se interpor no caminho da Turquia rumo à Europa? Pode, e por dois motivos. Primeiro, porque a maneira como a União Européia (EU) conduziu o assunto feriu o orgulho dos turcos, que se sentem profundamente injustiçados. Segundo, porque eles suspeitam de isso é um pretexto: surgiriam outros e mais outros, ainda que fizessem tudo o que quer a UE. Em 2004, um plano
de reunificação do Chipre apresentado pela ONU foi submetido
a referendos dos dois lados da ilha. Na época, Bruxelas promoteu
que, se os cipriotas turcos o aprovassem, teriam o embargo comercial contra
eles levantado e ainda receberiam ajuda financeira. A minoria turca aceitou
o plano; a maioria grega, não. Mesmo assim, a porção
grega do Chipre, reconhecida internacionalmente como país, entrou
para a UE no ano passado, enquanto a parte turca continuou isolada. E
a questão é hoje o principal entrave para a entrada da Turquia
na UE. Nem mesmo os mais
interessados nessa entrada acham que o governo turco poderia fazer mais
do que já fez a respeito. Nenhum governo ousaria abrir os
portos da Turquia para os navios cipriotas gregos, porque não teria
apoio da sociedade turca, diz Mustafa Bayburtlu, da Divisão
de União Européia da União Turca de Câmaras
de Comércio e Bolsas de Mercadorias (Tobb). Concordamos com
a linha adotada pelo governo. Não são
só os turcos que pensam assim. Em artigo publicado na segunda-feira
pelo jornal libanês The Daily Star, Uffe Ellemann-Jensen,
ex-chanceler da Dinamarca, lembra que a entrada do Chipre na EU pressupunha
a unificação da ilha. Como não foi assim, os cipriotas
gregos podem agora bloquear a entrada da Turquia. Como pode a Turquia,
sob essas condições, manter a confiança na justiça
da EU?, pergunta o ex-chanceler. As pessoas estão
começando a suspeitar que a EU não quer a entrada da Turquia.
Se esse ressentimento se tornar mais forte, isso será um problema,
analisa Soli Ozel, professor de relações internacionais
na Universidade Istanbul Bilgi e editor da revista Foreign Policy
em turco. A UE não está sendo capaz de pensar claro. Ela
está sofrendo de fadiga de expansão e de medo do terrorismo
islâmico. A Turquia, que não tem nada a ver com isso, tornou-se
um símbolo desses problemas. O apoio dos turcos à entrada da UE, que chegou a 80%, diminui rapidamente. Pesquisa do Instituto Anar, divulgada no dia 14, indica que 54% dos eleitores votariam num eventual referendo a favor da integração, enquanto 37% votariam contra. Em qualquer caso, a pesquisa mostra que apenas 29% dos turcos acreditam que o país acabará entrando na UE. "Somos contra
a adesão à UE porque nos sentimos ameaçados por suas
exigências. A Turquia poderá perder unidade e independência
no futuro", diz Ali Kulebi, do Tusam, um centro de estudos nacionalista,
vinculado ao poderoso Sindicato dos Metalúrgicos. "Acordos
econômicos com a Rússia, o Irã, a Ásia Central
e o Cáucaso são mais realistas." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |