|
Papa
elogia Turquia e cultura islâmica |
|
|
LOURIVAL
SANTANNA |
Quarta-feira,
29 de novembro de 2006
|
|
ANCARA Os pensamentos
do papa são muito importantes para nós, porque afetarão
a União Européia, enfatizou o primeiro-ministro, que
transformou em prioridade de seu governo as negociações
sobre a entrada da Turquia na União Européia (UE), mergulhadas
em impasse por causa de disputas entre os lados turco e grego do Chipre.
Começamos bem, porque o papa me falou de seus bons pensamentos
sobre os países muçulmanos, contou Erdogan em entrevista
coletiva, depois da reunião de 22 minutos com o papa, na área
VIP do aeroporto de Ancara. Más atitudes
entre religiões não têm a ver com cristianismo ou
islamismo, mas sim com a personalidade das pessoas, reiterou o primeiro-ministro,
um líder islâmico moderado. Erdogan estava de partida para
a reunião de cúpula da Organização do Tratado
do Atlântico Norte (Otan) em Riga, Letônia, que começou
ontem. Usando a cúpula
como pretexto, o primeiro-ministro havia anunciado que não se reuniria
com o papa, depois de sua citação em setembro de uma frase
de 1391 do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, para quem Maomé
trouxe, de novo, apenas coisas más e desumanas, como sua
ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregou. Erdogan
mudou de idéia e resolveu de última hora encontrar-se com
o papa, depois de elogios feitos por ele aos turcos no sermão de
domingo no Vaticano. Durante séculos,
igrejas e mesquitas sempre conviveram na Turquia, um símbolo de
paz entre o cristianismo e o islamismo. Queremos mostrar à UE todos
os esforços que temos feito, acrescentou o primeiro-ministro,
sempre salientando o interesse nacional de o papa sair da
Turquia com uma boa impressão. Na conversa com o papa, Erdogan
usou como intérprete a atriz turca Serra Yilmaz, fluente em italiano
e conhecida na Itália por co-produções dos dois países.
Bento XVI foi recebido
pelo presidente Ahmet Necdet Sezer, no Palácio Çankaya.
Depois, reuniu-se com o múfti Ali Bardakoglu, diretor-geral de
Assuntos Religiosos e um respeitado estudioso do Islã, que fez
duras críticas ao papa por causa da citação do imperador
bizantino, em setembro. Depois da conversa de uma hora, ambos leram declarações
previamente redigidas, enfatizando a necessidade de conciliação
entre as duas religiões. Precisamos mais
de religião agora do que antes, porque a humanidade enfrenta muitos
problemas, na educação, na saúde, a crise de confiança,
o terrorismo, as guerras e o subdesenvolvimento, enumerou Bardakoglu,
falando em turco, enquanto os papas e cardeais liam a tradução
do texto. Todos somos filhos de Adão. As duas religiões
precisam trabalhar juntas. Em seguida, Bardakoglu
soou como se estivesse respondendo à menção do papa
a Maomé, que provocou muitos protestos no mundo islâmico,
o último deles no domingo, em Istambul, com mais de 20 mil pessoas:
Infelizmente, há uma Islafobia, disse ele, criando
um neologismo, que não acreditamos que tenha fundamentos
verdadeiros. Acredita-se, no mundo, que os muçulmanos sejam potencialmente
violentos e terroristas, mas sem que se tenha pesquisado a respeito. É
um preconceito. O papa começou
seu discurso elogiando mais uma vez a Turquia. Estou feliz de vir
à terra da antiga cultura islâmica, disse ele, falando
em inglês. É um lugar onde a história pode ser
vista através da arte. Gosto da qualidade dos turcos, quero enfatizar
isso. Depois, assumiu um tom semelhante ao de Bardakoglu: Muçulmanos
e cristãos têm de trabalhar juntos pela paz mundial, para
melhorar o diálogo no futuro. Ao mesmo tempo em que acreditamos
em nossa religião, temos de trabalhar pela união, pela paz
entre as duas religiões. Nosso Criador
é o mesmo, nosso objetivo deveria ser o mesmo, e temos uma base
cultural e histórica, continuou o papa, que, numa entrevista
em 2004 ao jornal francês Le Figaro, quando era prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé, opôs-se à entrada da Turquia
na União Européia porque o país sempre representou
um outro continente, em permanente contraste com a Europa. O papa viaja hoje
a Éfeso, a antiga cidade grega onde, segundo a tradição
cristã, viveu a Virgem Maria e pregaram os apóstolos Paulo
e João. De lá, segue para Istambul, onde se encontrará
com o patriarca grego ortodoxo Bartolomeu I o objetivo principal
de sua viagem , com os patriarcas armênio ortodoxo e sírio
católico ortodoxo, e com o grão-rabino da Turquia.
Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |