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Bento
XVI reza em mesquita turca |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Sexta-feira,
1.º de dezembro de 2006
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ISTAMBUL Num sinal dos tempos,
o papa Bento XVI se absteve ontem de rezar numa antiga igreja, mas fez
uma prece numa mesquita. Foram mais dois de uma série de gestos
de Bento XVI, desde sua chegada à Turquia, na terça-feira,
para apaziguar os ânimos no primeiro país muçulmano
que ele visita como papa, depois de uma citação crítica
ao profeta Maomé, feita em setembro. Apesar deles, a presença
do papa gerou protestos de dezenas de pessoas, dispersos pelo formidável
aparato de segurança mobilizado tanto para proteger o papa quanto
para evitar manifestações. Num fim de tarde frio
e escuro de começo de inverno em Istambul, o papa visitou o Museu
de Santa Sofia. Durante os 40 minutos em que Bento XVI permaneceu na antiga
basílica, muitos turcos ficaram com os olhos grudados na televisão,
que transmitia ao vivo a visita, para ver se ele rezaria, violando a lei
do país. Originalmente uma igreja erguida na segunda metade do
século 4.º pelo imperador romano Constantino, e reconstruída
duas vezes depois de violentas insurreições contra o império
bizantino, Santa Sofia (dedicada não a uma santa, mas à
sabedoria) foi convertida em mesquita em 1453, pelo sultão Mehmet
II, o conquistador. Mas em 1923, depois de fundar a república turca
sobre a base do secularismo, Mustafa Kemal Ataturk dessacralizou o lugar,
e proibiu que se rezasse nele. O papa estampou um
olhar indecifrável enquanto o governador de Istambul, Muhamar Gülar,
guiou-o no interior da antiga basílica, em cujas paredes, imagens
da Virgem Maria, de Jesus, de santos e de anjos se mesclam com versos
do Alcorão; seu exterior também é um híbrido
arquitetônico, de uma gigantesca basílica a maior
de seu tempo com quatro minaretes fincados a seu redor. No dia 22, cerca de
cem nacionalistas islâmicos turcos entraram no museu e fizeram uma
oração, em protesto contra a visita do papa. Quarenta acabaram
presos. Quando visitou a Turquia, em 1967, o papa Paulo VI rezou em Santa
Sofia. O gesto não agradou, mas não teve maiores conseqüências:
os tempos eram outros. O comboio de Bento
XVI atravessou uma praça e parou na Mesquita Azul, a maior e mais
famosa de Istambul, construída no século 17 pelo sultão
otomano Ahmet I. Dessa vez guiado pelo múfti (líder muçulmano)
de Istambul, Mustafa Çagrici, o papa se mostrou maravilhado com
os azulejos que dão o apelido à mesquita, cujo nome oficial
é Sultão Ahmet. Agora, vou rezar,
avisou o múfti. Voltando-se para Meca, o papa o acompanhou e fechou
os olhos, com os braços cruzados sobre o peito, sem fazer o sinal
da cruz. Ao deixar a mesquita, o papa foi ouvido dizendo ao múfti:
Obrigado por esse momento de oração. O múfti
presenteou o papa com um quadro de azulejo representando uma pomba. Bento
XVI retribuiu com um mosaico, formando quatro pombas. Vamos rezar
pela fraternidade e por toda a humanidade, propôs Bento XVI,
o segundo papa a visitar uma mesquita, depois da viagem de João
Paulo II à Síria, em 2001. Sua vinda aqui dá
uma nova dimensão às relações entre cristãos
e muçulmanos, agradeceu o múfti. A visita à
mesquita foi incluída de última hora, no domingo, no programa
da viagem, cujo propósito é estreitar o diálogo com
os cristãos ortodoxos (ver Separação
entre cristãos é um 'escândalo', afirma papa). Do lado de fora, os
gestos de Bento XVI não pareciam sensibilizar os turcos. Ele
não pediu desculpas pelo que disse sobre o profeta Maomé,
queixou-se Ismail Tanri Verdi, que foi ao local protestar contra a presença
do papa. Nem que ele me oferecesse US$ 1 milhão eu lhe venderia
um tapete, por causa das coisas ruins que ele disse sobre nossa religião,
disse Nufel Ceitinkaya, dono de uma loja no bazar próximo a Santa
Sofia. O que ele e os cristãos fariam, se disséssemos
as mesmas coisas sobre Jesus?, perguntou Buket, uma mulher de 28
anos, vestida num chador (que cobre todo o corpo e o rosto) preto. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |