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Moderação
de Bento XVI encontrou-se com hospitalidade turca |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
3 de dezembro de 2006
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ISTAMBUL Com todos esses ingredientes,
a visita do papa Bento XVI à Turquia tinha tudo para ser um desastre.
Foi um sucesso graças a uma seqüência de gestos
das autoridades turcas e do próprio papa, que aparentemente perceberam
a gravidade das repercussões de um choque entre o Islã e
o cristianismo na Turquia, o mais secular e moderado de todos os países
muçulmanos. Na sexta-feira, depois da partida do papa no início
da tarde, todos pareciam aliviados com exceção de
grupos radicais como a Al-Qaeda, que teve 18 militantes presos enquanto
Bento XVI visitava Istambul, sob um esquema de segurança sem precedentes. Foi uma visita
muito bem-sucedida, avalia o cientista político Sahin Alpay,
especialista em relações entre política e religião
da Universidade de Bahcesehir. Ele fez gestos tão positivos
que reverteram a oposição que havia contra ele. Os
de efeitos mais abrangentes, enumera o analista, foram: a sua declaração,
citada pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, de que gostaria
de ver a Turquia na União Européia, e seus elogios
ao Islã uma meia-volta em relação à
conferência de Regesburg, disse Alpay, referindo-se à
citação de setembro, que associava Maomé ao mal,
ao desumano e à violência. Ele deixou claro
que o Islã não tem nada a ver com a violência, que
ambas as religiões são abraâmicas, e devem se unir
contra a violência, observou o cientista político.
E até visitou o mausoléu de (Mustafa Kemal) Ataturk
(fundador da Turquia moderna, em 1923), prestando homenagem a um secularista
feroz. Ao partir, na sexta-feira, o papa ainda disse que deixava
um pedaço seu. Do ponto de vista
da Turquia, a visita também foi um sucesso de relações
públicas, considera Alpay. As pessoas fizeram o possível
para mostrar hospitalidade. O primeiro gesto de boa vontade partiu
de Erdogan, que, depois de relutar muito, por causa da citação
do papa em Regensburg, recebeu-o no aeroporto, na terça-feira,
antes de partir para uma reunião da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os protestos durante
a presença do papa foram discretos, reunindo algumas dezenas de
pessoas, logo dispersas pela polícia. Antes de sua chegada, no
domingo, uma manifestação em que os organizadores pretendiam
reunir 1 milhão de pessoas resultou em pouco mais de 20 mil. E
com slogans civilizados, diz Alpay, lembrando que Jesus também
é nosso profeta e que os cristãos são um povo do
Livro. A hospitalidade turca
e a moderação do papa foram, em alguma medida, uma agradável
surpresa. Na Turquia, há um ditado: a cabeça
que usa coroa se torna mais sábia, cita Dogu Ergil,
professor de ciência política na Universidade de Ancara e
colunista de jornais. O papa deixou de ser o cardeal (Joseph)
Ratzinger, diz ele, referindo-se ao período em que o então
prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé mostrava-se
menos aberto a outras religiões. A revista Time
relata que, depois de assumir, o papa substituiu um estudo em andamento
sobre violência cristã durante as Cruzadas por outro sobre
a violência islâmica de hoje em dia. Depois dos atentados
a bomba em Londres, em julho de 2005, o novo papa reagiu às declarações
do presidente George W. Bush e de outros qualificando o Islã como
uma religião de paz com uma observação
pouco alentadora: Certamente há também elementos que
podem favorecer a paz. Também com relação às
outras correntes do cristianismo, o cardeal Ratzinger se mostrava menos
entusiasta do ecumenismo do que o papa Bento XVI. O papa compreendeu
que antagonizar o Islã não contribui para a coabitação
entre as religiões e entre as correntes cristãs, acredita
Ergil. A ênfase que ele deu aqui ao fato de que somos todos
filhos de Deus, e apenas rezamos diferentemente, não é uma
mensagem só para a Turquia, mas para ele próprio.
O mais importante
é que o papa não falou apenas, mas provou com seus gestos,
diz o analista: Ele mostrou humildade ao reunir-se com o diretor-geral
de Assuntos Religiosos, Ali Bardakoglu, que não é um líder
religioso, mas um burocrata do governo. E fez uma prece na Mesquita
Azul, em Istambul, voltado para Meca, como fazem os muçulmanos.
Foi como uma prova de que todos são filhos do mesmo Deus,
observa Ergil. Esse gesto causou
impacto até na pequena minoria de 25 mil católicos que vivem
na Turquia e lhes deu algumas esperanças. Isso impressionou
muito, diz o padre francês Louis Pelâtre, da Catedral
do Espírito Santo, em Istambul. Depois de sua palestra em
Regenburg, a situação aqui tinha ficado muito tensa. Espero
que a imagem tenha mudado com o gesto na mesquita. Ele mostra que não
há um sentimento hostil. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |