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Chávez,
imbatível nas eleições de hoje |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
4 de dezembro de 2005
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CARACAS Na manhã de
sexta-feira, seis pessoas lotam a sala de espera da pequena Clínica
Popular de Altagracia, bairro pobre de Caracas. Alguns serão atendidos
por um clínico-geral cubano. Outros, por um dentista cubano. Todos
estão contentes. "A saúde melhorou super com o Bairro
Adentro", diz a estudante de educação Jacqueline Piña,
de 22 anos, referindo-se ao convênio entre os governos venezuelano
e cubano. "Antes, muitas pessoas morriam nos hospitais. Eles não
servem para nada." A Missão Bairro
Adentro - todos os programas do governo Hugo Chávez levam o nome
de missão - é talvez o exemplo mais substancial da famosa
"revolução bolivariana" propagada pelo presidente
venezuelano. De fato, ela tem todos os ingredientes: a atenção
aos pobres e aos problemas sociais, a cooperação com os
"hermanos" latino-americanos e, claro, a inspiração
no socialismo cubano. Mas a Missão
Hábitat é a que tem mais apelo popular. Segundo o ministro
da Habitação, Luís Carlos Figueroa, 5.500 famílias
já foram atendidas pelo programa, que já absorveu 28 bilhões
de bolívares (cerca de R$ 30 milhões), dando casas ou materiais
de construção aos que necessitam. Este é um sentimento
comum entre a grande massa de venezuelanos pobres: o de que, pela primeira
vez em sua geração, um presidente se preocupa com eles.
Numa população em que 38% pertence à classe D e 43%,
à classe E, essa sensação tornou o presidente venezuelano
imbatível eleitoralmente. Depois de vencer em 1998, Chávez
conseguiu eleger uma Assembléia Constituinte amplamente governista,
referendada nas urnas; passou por uma nova eleição em 2000,
e venceu um referendo em 2004, que o confirmou mais uma vez no cargo. Nas eleições
de hoje para a Assembléia Nacional, no entanto, a invencibilidade
de Chávez atinge uma nova dimensão. Das outras vezes, a
oposição pelo menos tentou derrotá-lo. Na semana
que passou, quatro dos cinco principais partidos de oposição
se retiraram da disputa, restando apenas o Movimento ao Socialismo, uma
dissidência do Partido Comunista. É a primeira vez na história
que partidos tradicionais como Ação Democrática e
Copei ficam de fora de um pleito. Sua alegação
é a de que as urnas eletrônicas trazidas dos Estados Unidos
estão sujeitas a fraude. Não é o que pensam observadores
da União Européia e da Organização dos Estados
Americanos, que vieram monitorar a lisura das eleições,
e atestaram a inviolabilidade do sistema. Em qualquer caso, de acordo
com as pesquisas, feitas antes do boicote, a oposição elegeria
no máximo 17 deputados, num Parlamento de 167. Pesquisa publicada
pelo jornal El Universal, em outubro, deu 58% de preferência
ao Movimento Quinta República, de Chávez. Somados, os três
principais partidos de oposição reuniram 16% das preferências.
Para a eleição presidencial de dezembro do ano que vem,
na qual Chávez já é candidato assumido, as intenções
de voto são maiores que a do seu partido: 61%. Nas classes média
e alta, a rejeição a Chávez é grande, mas,
para muitos venezuelanos, os partidos tradicionais de oposição
perderam o status de alternativa. Até entre os mais jovens, predomina
o desânimo. "Apoiei a oposição, mas agora estou
decepcionada", diz Mariangelica Betancur, de 21 anos, estudante de
direito na Universidade Central da Venezuela, onde estuda a elite do país.
"Não me parece uma eleição legítima.
Não vou votar." Chávez emergiu
do golpe de abril de 2002, promovido pela oposição, com
10 pontos porcentuais a mais de aprovação: de 34% para 44%.
Hoje, essa aprovação é de 68%. Pesquisas qualitativas
do instituto Datanálisis mostraram que o bloqueio da produção
de petróleo em dezembro de 2002, também promovido pela oposição,
que causou desaceleração econômica e desemprego, foi
reprovado pela classe média. Diante dos números,
e da desistência da oposição, o grande inimigo do
governo, neste domingo, passa a ser a abstenção. A última
pesquisa do Datanálisis, de 28 de outubro, portanto antes do boicote
da oposição, indicava que apenas 45% dos eleitores pretendiam
votar. "É possível que hoje a abstenção
seja muito mais alta", estima John Magdaleno, diretor do instituto.
Chávez lançou a si mesmo e a seus ministros e autoridades
do governo numa campanha em favor da votação, tachando o
boicote da oposição como "uma diretriz do imperialismo
americano". A alta abstenção
pode arranhar a legitimidade do pleito, como deseja a oposição,
mas a lei venezuelana não estipula um patamar mínimo de
comparecimento. Assim, da eleição de hoje, emergirá
uma Assembléia Nacional pronta para fazer o que Chávez quiser.
E quais são suas intenções? Especula-se que ele reduza
ou elimine de vez os limites à reeleição presidencial,
virtualmente perpetuando-se no cargo. |