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Vencedor
e ao mesmo tempo o grande derrotado |
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LOURIVAL SANTANNA |
Terça-feira,
6 de dezembro de 2005
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CARACAS Eleições
costumam ter ganhadores e perdedores. Não na Venezuela, o país
das ambigüidades. De um ponto de vista quantitativo, a vitória
foi do governo de Hugo Chávez: a Assembléia Nacional eleita
no domingo o brindará com respaldo incondicional e absoluto. De
um outro ponto de vista também quantitativo, no entanto, Chávez
foi o grande derrotado. Ele mobilizou todo o seu governo, política
e logisticamente, para levar os eleitores às urnas, e só
conseguiu que um em cada quatro atendessem a seu apelo. A grande ambigüidade
desse processo eleitoral consiste em que, em termos técnicos, legais
e formais, ele é inatacável. Tudo foi feito de acordo com
a lei. Ninguém impediu que os partidos de oposição
participassem. Saíram porque quiseram. O Conselho Nacional Eleitoral
chegou a atender a sua exigência de eliminar um mecanismo de leitura
de digitais, que, segundo eles, permitia a identificação
do voto de cada eleitor. Os observadores internacionais atestaram a lisura
do pleito. As pesquisas de opinião
reservavam um desempenho pobre para os partidos de oposição.
Estimava-se que eles elegeriam menos de 20 deputados, num Parlamento unicameral
de 167 cadeiras. A razão disso estava na extraordinária
abstenção prevista entre os potenciais eleitores oposicionistas,
da ordem de 90%. Assim, a decisão da oposição também
se revestiu de ambigüidade, sua saída lhe conferindo uma imagem
de má perdedora. O chanceler Alí
Rodríguez Araque estimava ontem que a retirada da Ação
Democrática e do Copei, os dois mais tradicionais partidos de oposição,
contribuiu com 6 pontos porcentuais da abstenção, que foi
de 75%. É possível. A grande maioria dos não-chavistas
já havia decidido que não votaria, e o boicote oposicionista
parece ter sido mais conseqüência disso do que causa. De acordo com o instituto
Datanálisis, a aprovação do governo Chávez
está em 68%. Não é pouco, para quem governa há
sete anos. Essa aprovação, que pode estar relacionada aos
generosos gastos sociais do governo, impulsionados, em grande parte, pelo
alto preço do petróleo, não implica automaticamente
uma adesão ideológica. Ainda segundo o Datanálisis,
37% dos venezuelanos se identificam como chavistas; 46%, como não-alinhados,
e 13%, como oposicionistas. Assim, haveria, teoricamente, espaço
para pelo menos disputar quase metade do eleitorado. Entretanto, para entender
a "fadiga eleitoral" da oposição venezuelana,
como a define o cientista político Carlos Romero, é preciso
uma abordagem qualitativa. Ao longo desses sete anos, Chávez tem
utilizado todos os recursos à sua disposição - tanto
a popularidade quanto os meios oferecidos pelo Estado - para ampliar e
perpetuar o seu poder. A popularidade lhe serviu para, por meio de eleições
e referendos, moldar a Constituição e as leis de modo a
concentrar poder nas suas mãos e compor uma Corte Suprema que atua
a seu dispor. Chávez tem os três poderes nas mãos,
e mais do que nunca a partir de janeiro do próximo ano. Mas não é
só isso. Sem cerimônia, Chávez usa verbas do governo
para financiar os seus "grupos sociais", como se chamam agora
os antigos "círculos bolivarianos", rebatizados em razão
de sua má-fama, mas que continuam atuando como células de
mobilização popular de apoio ao presidente. Quando recebem
casas, cestas básicas, ajuda de custo para freqüentar a escola,
assistência médica, etc., os venezuelanos não consideram
que é o Estado ou o governo que lhes está dando isso, mas
Chávez, pessoalmente. O presidente também
usa sem pudor a televisão e a rádio estatais para o seu
culto pessoal e o ataque aos adversários. Na TV estatal venezuelana,
várias vezes por dia, passa um clip de Chávez declamando
um poema libertário, ao som de violões, além de intermináveis
bate-papos de partidários do presidente, falando do quanto é
boa a sua "revolução bolivariana", e de como a
oposição está entregue ao "imperialismo".
Ao lado disso, há
ainda a manifesta intenção do presidente de permanecer indefinidamente
no cargo. Eleito em 1998, Chávez promulgou uma nova Constituição
em 2000. Em 2001, elegeu-se novamente para o que passou a contar como
seu primeiro mandato de cinco anos sob a nova Constituição.
Em dezembro do ano que vem, já anunciou que será candidato
à reeleição. Agora, com absoluto
controle sobre a Assembléia Nacional, especula-se que ele deverá
mudar a lei novamente, permitindo uma segunda reeleição.
Com isso, se sua popularidade se mantiver, Chávez poderá
ser presidente pelo menos até o início de 2017, quando terá
completado 18 anos no poder. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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