Classe média faz elogios à deposição
Venezuelanos que estavam no Brasil voltam para um país diferente

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial

Domingo, 14 de abril de 2002

CARACAS

Havia uma eletricidade diferente no vôo 8942 da Varig, que partiu no fim da tarde de sexta-feira de São Paulo e aterrissou no fim da noite em Caracas. Os passageiros venezuelanos voltavam para um país muito diferente do que haviam deixado, com a queda, naquela madrugada, do presidente Hugo
Chávez. O sentimento predominante, no entanto, não era de surpresa, mas de alívio.

"Todos sabíamos que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde", disse placidamente o químico Ramón Rojas, de 42 anos. "Queríamos que fosse sem violência, mas infelizmente houve mortes", lamentou Rojas, que estava desde segunda-feira em São Paulo, numa reunião de sua empresa, a petroquímica americana Betz. "Chávez havia dividido o país entre os que eram contra e a favor dele e criado um ódio fundado na condição social."

"Passamos a ser dois povos", confirmou Federico Quintero, 33 anos, dono de um restaurante em Caracas. "Ficamos divididos entre pobres e classe média e alta." Ele e a mulher, Tamara Pereira, de 26 anos, voltavam de férias de dez dias no Rio. "Recebemos a notícia com grande alegria, pela
volta à tranqüilidade", festejou Tamara, dona de uma locadora de vídeo. "O país estava muito bagunçado."

"Já se havia agüentado muita coisa e essa situação era mais ou menos esperada", disse Lorenzo de Almeida, de 30 anos, que foi a um encontro em Blumenau, Santa Catarina, da companhia espanhola de informática em que trabalha. "Ele prometeu milagres, muitos o viam como um messias e se
decepcionaram. Milagres são impossíveis, mas ele não consertou nem o que podia ter consertado."

"A corrupção chegou a um nível descarado, era de conhecimento de todos", cita Almeida. "Também ajudou muito a posição dos executivos da estatal do petróleo (PDVSA), que não aceitaram a direção nomeada por Chávez. E a gota d'água foi a morte de pessoas numa manifestação pacífica. As Forças Armadas não gostaram, porque, como disse o comandante do Exército (general Efraín
Vásquez), elas são para cuidar do povo, não para atacá-lo", completou Almeida, lembrando o trauma dos militares com a violenta repressão à intentona liderada por Chávez em 1992. "Eles não queriam repetir isso."

O desemprego, a desvalorização do bolívar, a fuga de capitais estrangeiros e o aumento do risco país - que caiu com a notícia da saída de Chávez, assim como o preço do petróleo - foram outros fatores de descontentamento, enumerou o executivo. Os venezuelanos temiam um desfecho mais violento, com saques e quebra-quebra. Quando ficaram sabendo do que se passava, telefonaram para as famílias.

Caracas é um vale, rodeado por um cinturão de miséria, ocupado pelos "ranchos", o equivalente às favelas. "Tínhamos receio de que os moradores dos ranchos descessem para atacar a cidade", contou Rojas.

"Estou feliz", resumiu a executiva de uma empresa da área de comunicações, que pediu para não se identificar. "Finalmente saímos disso, ficamos livres desse senhor", disse ela, referindo-se a Hugo Chávez. "As mudanças que ele propunha não tinham nenhuma base séria, remetiam a sistemas econômicos atrasados, que não tinham mais vigência", continuou a executiva, que participou de um encontro da companhia no Rio, durante toda a semana. "Além disso, sendo amigo da guerrilha colombiana e de Cuba, estava traindo o país, acarretando-lhe tudo o que era negativo."

O presidente interino, Pedro Carmona, inspira a confiança desses venezuelanos. "Ele lançou o movimento contra o governo, é reconhecido como sério, honesto e responsável, e tem sabido justificar a liderança que lhe deram", elogia a executiva, que acha, no entanto, que é cedo para dizer se votaria nele para presidente.

"Carmona tem sido muito comedido, paciente e aberto ao diálogo", acrescenta Rojas. "Estou confiante pelo fato de que, pela primeira vez, a Venezuela é governada não por um político, mas por um gerente de empresa." O sentimento é reforçado pela maneira como Carmona chegou ao poder.
"Foi importante o papel desempenhado pela sociedade civil", salienta a executiva. "Todo mundo reagiu em conjunto contra o atropelo das instituições e da democracia." Almeida compartilha o otimismo: "O povo vai amadurecendo."

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