|
Petróleo
é arma para poder regional |
|
|
LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
2 de dezembro de 2007
|
|
CARACAS Habalián e
outros analistas trabalham com projeções da Agência
Internacional de Energia para medir o papel estratégico que a Venezuela
tende a ocupar nos próximos anos. Segundo esse cenário,
daqui até 2030, a demanda por energia vai aumentar 0,7% ao ano
nos países desenvolvidos da Organização para a Cooperação
e o Desenvolvimento Econômico, cujas economias vão crescer
1,1% ao ano. Já os países em desenvolvimento, puxados sobretudo
pela China e pela Índia, mas possivelmente também pelo Brasil,
vão ter um aumento de consumo anual de energia de 2,4%, para sustentar
um crescimento de 4,7% do PIB ao ano. Ao contrário
do que sugere o entusiasmo com os biocombustíveis, a fatia do petróleo
na matriz energética mundial tende a crescer (veja gráfico).
É aí que entra a Venezuela. As principais reservas provadas
de petróleo do mundo se concentram assim: 676 bilhões de
barris no Oriente Médio, 149 bilhões nas Américas
e 75 bilhões na África. Nas Américas, quase a metade
- 78 bilhões de barris - pertencem à Venezuela. Quando se
incluem as reservas prováveis, com óleo extra-pesado e betume,
a Venezuela se torna ainda mais importante no cenário mundial. A América Latina
reúne 9% da população do mundo e 23% de seu petróleo,
sendo que do total 20% está na Venezuela, calcula Habalián.
"Aí está o poder de Chávez em sua estratégia
para a América Latina", diz ele. Ao longo de oito anos
na presidência, Chávez tem preparado o terreno para elevar
ao máximo a conversão do petróleo em poder. No exercício
da presidência da Organização dos Países Exportadores
de Petróleo (Opep), de 2000 até o mês passado, ele
conseguiu convencer os demais integrantes a limitar suas exportações
às cotas definidas por eles mesmos e sistematicamente excedidas.
Essa política,
testemunha Habalián, que foi governador da Opep em 2003, foi uma
das causas da elevação do preço do barril de US$
9 para quase US$ 100 no período. Outras razões importantes
são a guerra do Iraque e o aumento da demanda da China e da Índia.
No plano interno,
Chávez conseguiu o que nenhum presidente venezuelano tinha conseguido
até então: o controle absoluto sobre a PDVSA e, com ela,
sobre as receitas do petróleo. Desde a nacionalização
do setor na Venezuela, em 1975, a estatal atua como um "para-Estado".
Chávez aproveitou a greve da PDVSA no fim de 2002 para o expurgo
sem precedentes de metade dos seus trabalhadores (20 mil), e sua substituição
por gente da confiança dele, recorda Habalián, que estendeu
a mão ao presidente nesse período, e depois rompeu com ele,
ao ter rejeitada a sua proposta de uma gestão transparente da estatal,
com a participação de representantes da sociedade. Em 2005, o presidente
mudou a legislação sobre as reservas do país, permitindo
que parte da receita da PDVSA em moeda forte fosse retida nos seus cofres,
em vez de ir para o Tesouro. A estatal passou então a financiar
diretamente programas sociais, construção de casas populares
e uma série de atividades político-sociais que angariam
apoio para o presidente, sem passar pelo Orçamento ou qualquer
controle externo. "O poder petroleiro passou de La Campiña
para Miraflores", diz Habalián, referindo-se ao bairro onde
fica a sede da estatal e ao palácio do governo. "O controle
sobre o Estado não é perfeito. Há juízes que
dão votos desfavoráveis ao governo, há problemas.
Com a PDVSA, o controle é absoluto." A rede de programas
sociais, que pagam bolsas aos beneficiários, e mais o inchaço
do funcionalismo público - o Estado é o maior empregador
do país, com 1,6 milhão de servidores - explicam grande
parte da mobilização política de que Chávez
é capaz em momentos críticos como o referendo deste domingo,
e suas vitórias em 11 votações desde 1998. Para manter essa máquina
em movimento, é vital para o presidente que o preço do barril
de petróleo não caia significativamente. Assim, além
do cumprimento das cotas da Opep, Chávez tem interesse na manutenção
das tensões no Oriente Médio, observam os analistas. Esse
seria um dos motivos pelos quais ele se alia ao Irã, do presidente
Mahmud Ahmadinejad, adversário dos Estados Unidos na região.
A Rússia, outra exportadora de petróleo e gás, cujo
presidente Vladimir Putin também tem tido conflitos com os Estados
Unidos, é outro governante cortejado por Chávez. "Mas
nem Putin nem Ahmadinejad querem realmente que o petróleo se mantenha
no atual nível, porque sabem que isso pode conduzir o mundo a uma
recessão, o que seria o fim deles", ressalva Habalián.
"Chávez não tem limites. É um aventureiro." No campo regional,
o Brasil, com sua economia relativamente grande e até algum petróleo
e gás, e o México, que detém 2% do petróleo
do mundo, são os únicos países que podem conter o
expansionismo de Chávez, diz Habalián. E parecem estar fazendo
precisamente isso. "Sabemos que a confrontação verdadeira
e muito silenciosa é entre o Brasil e Chávez", afirma
ele. "O Brasil ergueu um muro contra Chávez", diz o analista
político Alberto Garrido. Um dos palcos dessa
disputa é o Mercosul. Antes mesmo de ter o seu ingresso ratificado
pelos Congressos dos países membros e de ter cumprido os procedimentos
tarifários, Chávez entrou na união aduaneira dizendo
que ela precisava ser reformulada, para se tornar uma instância
"política", mal disfarçando - até porque
Chávez não é de disfarces - as suas intenções,
explicitadas no novo texto do artigo 153 da Constituição
venezuelana. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva acredita que para controlar Chávez
e evitar sua radicalização seja melhor incluí-lo
do que isolá-lo. "Não se deve satanizar Chávez,
mas mostrar que ele está nu", recomenda o conselheiro do general
Baduel. "É preciso confrontá-lo no longo prazo. É
aí que as condições não são favoráveis
a ele." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |