|
Projeto
reflete ímpeto de eliminar Estado |
|
|
LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
2 de dezembro de 2007
|
|
CARACAS Fundado pelo líder
guerrilheiro Douglas Bravo, o PRV era uma dissidência anarquista
e utópica do Partido Comunista, e buscava construir um modelo local
de sociedade, inspirado na cultura indígena e nas teses do "libertador"
Simón Bolívar, tratado com devoção mística.
Bravo e Chávez, ambos comunistas desde meninos, fundaram o Movimento
Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200) - referência ao
bicentenário do nascimento de Bolívar. A aliança durou
até 1991, pouco antes da tentativa de golpe de fevereiro do ano
seguinte, em que Chávez ganharia projeção nacional.
"Nós do PRV achávamos que o povo e o quartel tinham
que ir juntos ao palácio", recorda Bravo, hoje com 75 anos.
"Eu discutia com Chávez: 'Se o quartel vai só e deixa
o povo, sempre haverá a tendência de converter-se em ditadura'."
Chávez optou por uma conspiração puramente militar,
com o plano de chamar os civis depois, para ajudar a governar. Mas as idéias
centrais do PRV e do MBR-200 continuam nítidas em seu discurso,
em suas ações e na reforma constitucional que vai hoje às
urnas. Por exemplo, no ímpeto anarquista de eliminar o Estado.
Ao explicar a criação dos conselhos populares, que substituem
as formas de representação da democracia convencional (parlamentos,
sindicatos, entidades estudantis, etc.), Chávez diz: "Aqui,
estamos inventando nosso modelo. É o povo assumindo o Estado burocrático,
corrupto, ineficiente." O desprezo se estende
ao Estado-nação. Fundindo o bolivarianismo com a identidade
indígena, o discurso do presidente venezuelano tem sempre um alcance
supranacional. O "por que não te calas?" do rei Juan
Carlos da Espanha, por exemplo, serviu para ele repetir incansavelmente:
"Ele falou com a soberba de 500 anos do colonizador europeu. Mas
sabem por que não me calo? Porque a minha voz é a de milhões
de índios oprimidos ao longo de séculos." A aliança com
Evo Morales, da Bolívia, um aimará que cresceu numa região
quétchua, e que Chávez patrocina com petrodólares
e promete defender militarmente de um eventual golpe, é a síntese
dessa ideologia. Mas a Bolívia tem outros significados. Em primeiro
lugar, se a Venezuela quer se projetar como potência energética,
a Bolívia, com o seu gás, torna-se um complemento importante.
Os venezuelanos têm reservas de gás, que por sinal a Petrobrás
está prospectando no Golfo da Venezuela, mas não em volume
expressivo. Além disso,
assim como Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, Chávez também
acredita que uma revolução na América do Sul tem
de se propagar a partir da Bolívia, por sua posição
central no subcontinente. Na visão do analista político
Héctor Pérez Marcano, Chávez está seguindo
a "estratégia continental" de "exportação
da revolução" desenhada por Fidel nos anos 60. "Vemos
o poder dos petrodólares, na Bolívia, no Equador, na Nicarágua
e até no México", diz Pérez Marcano, que está
lançando o livro A Invasão da Venezuela por Cuba. Onipresente, o presidente
venezuelano evitou a moratória da Argentina, comprando títulos
no valor total de US$ 4,2 bilhões, financia a construção
de casas populares no Peru e faz incursões até no Brasil.
A PDVSA doou R$ 1 milhão para a escola de samba Unidos de Vila
Isabel, do Rio, celebrar as proezas bolivarianas no carnaval do ano passado.
Várias entidades de inspiração bolivariana têm
surgido no Brasil, enquanto outras já existentes há mais
tempo abraçam a causa. Junto com dezenas de entidades de toda a
América Latina, elas firmaram um manifesto em favor da reforma
constitucional, publicado na edição de sexta-feira no jornal
Últimas Notícias, de Caracas. Emprestaram seu apoio
à polêmica reforma o PCB, o Núcleo Ruy Mauro Marini
do PDT (RJ), a União da Juventude Comunista, a Federação
das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj), a
Confederação das Mulheres do Brasil, a Federação
Democrática de Mulheres e a União de Mulheres de Manaus.
Dentre as novas entidades,
a lista inclui a Casa Bolivariana do Rio de Janeiro, a Escola Bolivariana
de Poder Popular do Brasil, o Coletivo de Educação Popular
Escolas Bolivarianas do Brasil e os "Círculos Bolivarianos"
Subcomandante Marcos (SC), Luísa Mahin (BA), Leonel Brizola (RS)
e Paulo Freire. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |