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Reforma
concentra poder em Chávez |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
2 de dezembro de 2007
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CARACAS Do ponto de vista
político, o presidente da República, no caso Chávez,
passa a concentrar praticamente todo o poder. A alternância, um
forte limitador, no tempo, do poder de todo governante, deixa de ser necessária.
O mandato presidencial se estende de seis para sete anos e não
há mais restrições para reeleições.
O poder dos governadores e prefeitos eleitos democraticamente fica prejudicado
pela prerrogativa do presidente de, por meio de decreto, criar cidades
e províncias federais, administradas por pessoas nomeadas por ele.
As assembléias estaduais e câmaras municipais, também
eleitas democraticamente, passam a dividir o poder com conselhos comunais,
que receberão verbas diretamente do governo central - segundo Chávez,
"no mínimo" 5% do Orçamento, o que, em 2008, representa
7 trilhões de bolívares (US$ 3,2 bilhões). Existem
atualmente 22.528 desses conselhos espalhados pelo país, que receberam
nos últimos dois anos 5 trilhões de bolívares (US$
2,3 bilhões). "Está
se eliminando todo o processo de descentralização do poder
nos governos locais, porque há uma relação direta
entre os conselhos comunais e o Poder Executivo", analisa Francine
Jácome, do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos
(Invesp). "Acabam os espaços de intermediação."
Além disso, diz a pesquisadora, cria-se um problema de representação:
"Esses conselhos não se elegem pelo voto secreto, mas aberto,
e podemos prever controle e pressão política por parte do
governo." A centralização
do poder está associada a uma "atomização",
diz Francine, embora à primeira vista isso seja paradoxal. "Não
há um árbitro para fazer a coordenação ou
estabelecer a interrelação" entre as decisões
tomadas pelos conselhos, explica ela. "É muito difícil
o Poder Executivo central coordenar tudo isso. Então, cria-se uma
espécie de anarquia." Na realidade, prevê Francine,
por causa dessa desarticulação, "esses conselhos vão
decidir muito pouco". De tudo isso, resulta uma "centralização
e personalização do poder". O interessante é
que Chávez chega à mesma constatação, ainda
que com outras palavras. "Dizem que vou concentrar o poder nas minhas
mãos", afirmou ele ao longo da campanha. "É o
contrário. Eu vou distribuir o poder para você. Com a reforma,
você será o centro do poder." Noutras passagens, Chávez
descartou a possibilidade de reter para benefício próprio
todo esse poder que os cidadãos venezuelanos lhe vão confiar,
se aprovarem a reforma, porque ele é um homem "incorruptível". A destituição
de ministros do Tribunal Supremo de Justiça torna-se mais fácil,
com a redução de maioria de dois terços para metade
mais um voto na Assembléia Nacional. O Banco Central perde a autonomia,
e a condução da política monetária fica subordinada
aos "objetivos superiores do Estado socialista". A reforma abre caminho,
também, para um deslocamento da iniciativa privada para o que Karl
Marx chamaria de "propriedade coletiva dos bens de produção".
Os conselhos comunais poderão possuir e gerir empresas. Quando
anunciou a verba para eles, Chávez explicou que ela seria usada
para montar essas atividades econômicas. "Um posto de gasolina
rende de 180 a 200 milhões de bolívares (US$ 82 mil a US$
91 mil) por mês", calculou ele. "Em vez de dá-lo
a uma empresa, damos ao conselho comunal." Num âmbito ainda
mais individual, a Constituição deixa de garantir a livre
escolha de uma atividade econômica, incluindo, na interpretação
de muitos venezuelanos, a própria profissão, que fica submetida
à "preponderância dos interesses comuns". Para
completar, o confisco de bens pelo Estado tem efeito antes de uma decisão
final da Justiça. No campo do controle
social e da manutenção da ordem pública, Chávez
dá às Forças Armadas poder de polícia e afrouxa
as condições segundo as quais poderá manter o estado
de exceção, já que a Assembléia Nacional não
tem mais a prerrogativa de revogá-lo, mas só o presidente.
Além disso, deixam de vigorar as garantias de tratados internacionais
e do devido processo. Tenente-coronel da
reserva, Chávez faz uma reformulação radical das
Forças Armadas. Ele passa a exercer controle político mais
direto sobre elas, interferindo nas promoções de oficiais
de todas as patentes, e não apenas a partir de coronéis,
como na Constituição atual. Chávez institui uma nova
Arma, chamada de "Milícia Bolivariana". Essas alterações
se somam ao novo papel que Chávez deu aos reservistas, que passaram
a atuar nas mais diversas atividades, como mobilização popular
e fiscalização de preços. O efetivo desses reservistas
em condição operacional é atualmente de 120 mil,
segundo o Ministério da Defesa. Mais 600 mil começarão
a treinar no ano que vem. A meta é chegar a 2 milhões. Chávez também
já havia criado uma "Guarda Territorial", à qual
pode ser incorporado qualquer cidadão, para a "defesa da pátria".
Por natureza, diz o analista político e especialista em assuntos
militares Alberto Garrido, "essa guarda é clandestina e não
sabemos se ela já existe. Seu único comandante é
Chávez." Em qualquer caso,
essas mudanças são condizentes com as hipóteses de
engajamento vislumbradas por Chávez, observa Garrido. Uma delas
é uma guerra de resistência a uma ocupação
americana. Essa guerra pode ser assimétrica, como no caso do Iraque,
ou de guerrilha. Chávez já citou várias vezes a guerrilha
conduzida por Ernesto Che Guevara nos anos 60, e previu que haveria "vários
Vietnãs". "Não me
pergunte como vai acabar isso", conclui Garrido. Segundo ele, Chávez
já respondeu em 1998, antes de sua primeira eleição,
quando lhe perguntaram se achava que a saída para os problemas
da Venezuela seria violenta ou pacífica. "Violenta",
respondeu Chávez. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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