Chávez busca assinaturas para reforma
Presidente diz que mudança de Carta pode ser obtida por meio de proposta popular já em 2008 ou em três anos

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial

Quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

CARACAS

O presidente Hugo Chávez ordenou ontem aos seus comandantes militares e seguidores que "se preparem" para uma nova iniciativa destinada a implantar o seu "socialismo bolivariano" na Venezuela. "Preparem-se, porque virá uma segunda ofensiva rumo à reforma constitucional", disse Chávez, que chegou de surpresa a uma entrevista coletiva do ministro da Defesa, general Gustavo Rangel Briceño, no Palácio Miraflores.

Diante do alto comando das Forças Armadas, Chávez pegou o microfone e traçou a sua nova estratégia para obter as mudanças: recolher assinaturas para uma proposta "popular" de reforma constitucional. Numa entrevista na madrugada de ontem, o presidente havia dito que essa iniciativa popular poderia acontecer já em 2008 ou dentro de três anos.

"Se a maravilhosa Constituição de 1999 não for reformada e o povo disser que meu mandato termina em 2013, eu vou embora", resignou-se Chávez, referindo-se à reeleição presidencial ilimitada, incluída na reforma rejeitada no domingo. "Bom, não vou embora, continuo como 'ente político', como diz minha mãe", acrescentou o presidente, num telefonema ao programa La Hojilla (lâmina de barbear), da TV estatal. "Não se acabou Hugo Chávez. A revolução chegou aqui para ficar."

A Constituição em vigor, promulgada em 1999, primeiro ano de governo de Chávez, pode ser reformada por iniciativa da Assembléia Nacional, do presidente ou de "um número não menor de 15% dos eleitores inscritos". A Venezuela tem 16 milhões de eleitores, o que significa que seriam necessários 2,4 milhões de assinaturas para solicitar a reforma. No domingo, cerca de 4,4 milhões de eleitores votaram a favor da reforma e outros 4,5 milhões se opuseram a ela.

Entretanto, a Constituição não permite duas tentativas de reforma constitucional no mesmo mandato, "não importando de quem seja a iniciativa", disse ontem ao Estado o constitucionalista Alfredo Parés, diretor da Escola de Direito da Universidade Católica Andrés Bello. Só resta ao presidente, na visão de Parés, a alternativa de uma assembléia constituinte. "Finalmente, fica nas mãos do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ)", ponderou Parés. O TSJ rejeitou ações que alegavam que as mudanças propostas por Chávez modificavam "princípios fundamentais" da Constituição e por isso não podiam ser objeto de reforma, mas de assembléia constituinte. O Tribunal, dominado por chavistas, respondeu que elas só poderiam ser julgadas depois do referendo.

Além da possibilidade de reeleição ilimitada, Chávez tentou obter, com a reforma, a prerrogativa de criar por decreto províncias e cidades federais e nomear seus governantes; o compromisso das Forças Armadas com a ideologia do "socialismo bolivariano"; a criação de uma milícia; a oficialização dos seus "conselhos populares", forma paralela de representação política; e o reconhecimento da propriedade "comunal", "social" e "coletiva", entre outras mudanças.

A reforma foi dividida em dois blocos, ambos rejeitados por estreita maioria no referendo de domingo. No bloco A, proposto por Chávez, o "não" obteve 50,70% dos votos e o "sim", 49,29%. Já no bloco B, apresentado pela Assembléia Nacional, dominada pelo governo, o "não" venceu por 51,05% a 48,94%. A abstenção foi de 44%.

O ministro da Defesa chamou os jornalistas para negar informações publicadas na imprensa venezuelana, segundo as quais os comandantes das Forças Armadas teriam feito Chávez reconhecer a derrota, durante a dramática contagem de votos da noite de domingo. "É absolutamente falso que tenhamos pressionado nosso comandante-em-chefe", descartou Briceño. "O presidente é impressionável, no sentido de que a ele ninguém pressiona", definiu o general, confundindo-se com as palavras.

Chávez e Briceño atacaram o general da reserva Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa, que rompeu com o governo em meados do ano por opor-se à reforma constitucional, definindo-a como "golpe". O presidente acusou Baduel, que garantiu a sua volta ao poder durante a tentativa de golpe de 2002, de ter sido "comprado pelo império". Briceño o chamou de "general sem tropa" e de ter-se "apequenado diante da magnanimidade" de Chávez, traindo sua "lealdade e amizade".

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