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Chávez
parte para 15ª eleição com democracia posta em dúvida |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
15 de fevereiro de 2009
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CARACAS Eleições
livres é condição necessária para a democracia.
Mas, será que é suficiente? O caso venezuelano é
exemplar, numa região de democracias jovens e frágeis, e
com vários vizinhos visivelmente tentados a seguir os passos de
Chávez. "Uma leitura formal pode levar a pensar que eleições
e disputa entre candidatos bastam para caracterizar uma democracia",
analisa o cientista político Carlos Romero. "Mas a democracia
inclui muitas outras coisas, que têm sido violadas pelo governo
venezuelano." Para começar,
observa Romero, os outros poderes não são independentes
do Executivo. O último cooptado foi o Conselho Nacional Eleitoral,
que antes tinha composição equilibrada, e agora apenas um
de seus cinco membros, Vicente Díaz, representa a oposição.
Os outros defendem os interesses do governo. Com isso, a máquina
do Estado engaja-se livremente na campanha eleitoral, utilizando prédios,
veículos, recursos e funcionários de todos os ministérios,
além da mídia estatal e das verbas de propaganda oficial. Em várias partes
da Venezuela, os chavistas não reconheceram a eleição
de governadores e prefeitos de oposição, impedindo-os de
tomar posse ou dificultando sua administração. Sedes de
governo, equipamentos, verbas de serviços descentralizados, como
a saúde, foram confiscados pelo governo central. Oposicionistas,
jornalistas, universidades e até a Igreja Católica são
alvos de ataques e ameaças de setores ligados ao governo, que nunca
são punidos, aponta Romero. "O problema não é
só o exercício da democracia em matéria eleitoral",
enfatiza o cientista político. "É a vida cotidiana." "A Venezuela
ainda não é uma ditadura, mas já não é
uma democracia", define o historiador Manuel Caballero, autor de
mais de 50 livros. Citando a filósofa política alemã
Hannah Arendt, ele observa que o "lúmpen", a classe abaixo
dos trabalhadores formais, "busca mais representatividade seguindo
um líder". Ele lembra que os ditadores Adolf Hitler e Benito
Mussolini, assim como o argentino Juan Domingo Perón e o peruano
Alberto Fujimori, populistas que atropelaram as instituições
de seus países, "chegaram ao poder pela via democrática". O referendo de hoje
acentua uma característica de Chávez, observam os analistas:
o seu personalismo. O presidente apresenta-se como insubstituível.
Sem ele, a "Revolução Bolivariana" desapareceria
e, com ela, as chances da Venezuela de ser um país justo e desenvolvido. Ao justificar a necessidade
de continuar governando além de 2013, quando termina seu segundo
mandato, Chávez reproduziu uma advertência que lhe teria
feito o líder cubano Fidel Castro, que governou a ilha entre 1959
e 2006: "Se o matam, Chávez, ou lhe acontece algo, essa revolução
retrocede, cai, porque ainda não tem a solidez para ir adiante
sem você." O jingle de campanha
em favor do "sim" traz o seguinte verso: "Não temos
mais opções entre a terra e o céu. Sim, o comandante
fica." Uma das camisetas usadas pelos chavistas afirma: "Com
ele, tudo. Sem ele, nada." Chávez tem revestido esse personalismo de uma aura religiosa. Ao criticar grupos chavistas que cometem atos violentos, ele se queixou de eles usarem "o sacrossanto nome da Revolução". Historicamente, o
nome de Simón Bolívar, constantemente evocado por Chávez,
tem estado envolto nessa aura religiosa, afirmam vários estudiosos
venezuelanos. Ao contrário do que aconteceu nos países vizinhos,
profundamente católicos, a Igreja sempre teve penetração
relativamente pequena na Venezuela - por vários fatores, incluindo
a dispersão de sua população, no período colonial,
por um vasto território. Fortemente influenciada
pela maçonaria e por idéias liberais, a elite política
venezuelana oficializou a separação entre Estado e Igreja
em 1870, e legalizou o divórcio em 1904 - muito antes que os países
vizinhos. "O vazio religioso foi preenchido pelo culto ao Libertador",
explica Caballero, referindo-se a Bolívar. Em seus dramáticos
discursos, Chávez soa messiânico e associa-se ao martírio
cristão, como quando disse, no comício de encerramento da
campanha, na quinta-feira: "Domingo vocês vão decidir
meu destino político, e se saberá se Hugo Chávez
fica ou vai. Minha vida é de vocês. Façam com ela
o que quiserem." Os analistas reconhecem
que o fenômeno Chávez demonstra que a democracia não
tem alicerces tão sólidos na Venezuela como se supunha.
Resta saber se o que eles consideram como o "autoritarismo"
de Chávez pode espraiar-se para os países vizinhos. Apesar
de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, trilharem
caminhos semelhantes, Romero acha que o modelo chavista não será
reproduzido. O cientista político
aponta seis diferenças: nenhum outro governante, nem mesmo Morales,
goza da liderança de Chávez; a oposição nos
outros países é bem mais forte que na Venezuela; a esquerda
nos países vizinhos limitou o papel das Forças Armadas,
enquanto na Venezuela elas se politizaram; a iniciativa privada é
respeitada nos outros países, e as opiniões divergentes
são toleradas; o Estado venezuelano concentra muito mais poder,
graças ao petróleo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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