Os bastidores da mais longa expedição

Lourival Sant”Anna e Dida Sampaio percorreram mais de 130 horas de barco e de avião

MANAUS, AMAZONAS – Rosinaldo Ferreira de Oliveira, mais conhecido como Neguinho, tem uma voadeira (lancha) em Fonte Boa, com um motor de 40 cavalos, e vive de transportar pessoas pelo Rio Solimões e seus afluentes.  Entre seus clientes, está a Polícia Militar de Fonte Boa, que o contrata para realizar batidas.  Neguinho está acostumado a viagens de vários dias pelo Coração da Amazônia, como é chamada a vasta e preservada floresta no norte do Estado do Amazonas.

Em busca de um barco que nos levasse à próxima etapa de nossa reportagem, as reservas ao longo do Rio Jutaí, levei um bom tempo para explicar ao Neguinho aonde precisávamos ir.  Quando finalmente teve uma idéia, ainda que imprecisa, da região de que falávamos, o experimentado barqueiro exclamou: “Agora o senhor falou em lonjura, mesmo!”

A reação do Neguinho só não se repetiu entre muitos barqueiros porque a maioria não conseguia sequer situar a região da qual falávamos.  Se Fonte Boa é o coração da Amazônia, então Jutaí são as suas entranhas.  Até na sede do município de Jutaí foi difícil encontrar pilotos que conhecessem o Cujubim, que o secretário de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, Virgílio Viana, chamou de “o lugar mais ermo do Brasil”.

A incursão de quase um mês do Estado pelas partes mais longínquas e intactas da Floresta Amazônica começou em Congonhas, num vôo para Manaus, exatamente no mesmo horário do acidente com o avião da TAM, mas um dia antes, 16 de julho, segunda-feira.  Na madrugada do dia seguinte, decolamos com o secretário Virgílio, de carona, num hidroavião.  Duas horas depois, pousamos no aeroporto de Tefé, para abastecer.  Com mais 50 minutos, descemos no Paraná do Tupé, um braço do Solimões, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no município de Fonte Boa, 672 quilômetros a oeste de Manaus, em linha reta.  Depois de passar o dia na comunidade Nova Esperança, fomos de voadeira para a sede do município, onde nos hospedamos.  Baseados em Fonte Boa, passamos a semana fazendo viagens de voadeira para comunidades da reserva, das quais partíamos em canoas com motores rabeta (5,5 cavalos), para explorar os lagos onde se faz o manejo do pirarucu.

Na segunda metade de julho, estávamos no começo do verão amazônico, quando as chuvas diminuem e os rios baixam, fazendo emergir árvores e áreas de várzea e capim.  Para se chegar aos lagos onde se pesca, que por definição estão separados dos rios por áreas de várzea, é preciso “varar” por elas.  E isso não é nada fácil.  Envolve carregar as canoas nos ombros, nas áreas de terra e de pântano, e tentar remar pelos igarapés, abrindo caminho com terçado (facão) por entre as tapagens (áreas de capim) e galhos das árvores, e com machado por entre os troncos.

Por duas vezes, tivemos de dar meia volta antes de chegar ao nosso destino, quando a tarde já caía.  Navegar de lancha os rios da Amazônia na escuridão da noite, negociando entre barcos grandes e tocos quase invisíveis, é desaconselhável, porém inevitável nessas jornadas longas de bate-volta.  Almoçávamos peixe com farinha na casa de alguém nas comunidades, onde trocávamos a voadeira pela canoa.

De Fonte Boa, partimos ao meio-dia do dia 20, sexta-feira, num recreio (barco grande no qual os passageiros estendem suas redes), que ancorou às 20 horas em Jutaí, 750 quilômetros a oeste de Manaus, em linha reta.  Isso deixaria Jutaí a 80 quilômetros de Fonte Boa, mas a verdade é que esse dado não diz muito.  O que importa, quando se está de barco, são as curvas que o rio faz.  Exemplo: a comunidade São Francisco do Paraíso fica a cerca de 300 quilômetros da sede do município de Jutaí em linha reta, mas a cerca de 700 quilômetros pelo rio.  Muitas vezes, ele faz curvas tão fechadas que o barco sai navegando em paralelo e no sentido contrário do que vinha antes da curva.  Na época das chuvas fortes, às vezes acontece de o rio “arrombar” a várzea, e cortar caminho, mudando o seu curso.  A curva abandonada é chamada de “sacado”.  No verão, alguns sacados se convertem em lagos, separados do rio pela várzea que emerge na vazante.

No sábado, 21 de julho, fomos na voadeira particular do prefeito Umberto Afonso Lasmar (pagamos a gasolina) para a comunidade Marauá, na Reserva Extrativista do Rio Jutaí.  Lá encontramos Leopoldo Barbosa Neto, “presidente” (líder) da comunidade, e até há pouco tempo contratado pela Conservação Internacional (CI) para cuidar da logística no Cujubim.  Leopoldo, um ex-seringueiro de 51 anos, conhece a região como ninguém, e aceitou ser o nosso guia.

De volta à sede de Jutaí, alugamos um barco de 19 metros e dois andares, com dois camarotes, freezer, gerador a diesel, cozinha e banheiro com ducha (uma bomba puxa a água do rio), de Paulo Coelho da Fonseca, o Paulão, o maior comerciante da cidade.  Ele recrutou a tripulação do barco: o comandante José Ribamar da Silva, o Zé Mingau, o mais experiente piloto do Jutaí, de 36 anos, que cresceu vendo o pai no mesmo ofício; seu sobrinho, o prático Alcimar Ramos da Silva, ou Neguinho, de 23 anos, que também se criou no rio; e a cozinheira Raimunda, de 58 anos, que aos 12 fizera um passeio ao Cujubim, com seus pais, e nunca mais tinha voltado.

O próprio Paulão nos vendeu os seis tambores (200 litros cada) de óleo diesel para o motor de 45 cavalos de seu barco, os 350 litros de gasolina para a lancha de 15 cavalos de Leopoldo, que foi a reboque, e o “rancho” da viagem: carne, frango, arroz, feijão, água mineral, leite em pó, café, açúcar, sal, óleo, bolachas, margarina, etc.

Observando minha impaciência com os infindáveis preparativos, que tomaram a manhã inteira, o garimpeiro Edson Antonio Bueno, o Goiano, que ia de carona em nosso barco, recomendou: “Não adianta ter pressa para preparar a viagem.  Depois da primeira curva do rio, não existe mais nada.”  Ele tinha razão.  Nessa viagem, é preciso levar tudo o que se necessita no barco.

Finalmente deixamos o porto de Jutaí às 13 horas do dia 23, segunda-feira.  Levamos exatas 49 horas até o garimpo do Rio Bóia, aonde chegamos às 14 horas da quarta-feira.  No caminho, quando víamos algo que nos interessava, descíamos na voadeira, enquanto o barco, três vezes mais lento, seguia viagem.

Ao contrário da imagem que se tem da Amazônia, nessa região não se vê desmatamento.  No total, foram dez dias e meio de viagem contemplando a mata fechada.  No passado, cortou-se ali madeira de lei, mas de maneira seletiva, sem devastar a floresta.  O Rio Jutaí é famoso (em Jutaí, bem entendido) por suas praias de areia bege, que emergem no verão, povoadas de jacarés e pássaros, que tentam bicar a cabeça dos intrusos quando se aproximam de seus ninhos.  Com o tempo, já nem apontávamos mais para os jacarés.  É nas praias também que as tartarugas, os tracajás e os iaçás vêm botar seus cobiçados ovos, ou simplesmente “assoalhar” (passear).  Onças vadiam (atravessam) o rio.

Diferentemente do que acontece na calha do Rio Negro, cujas águas ácidas inibem a procriação de mosquitos, o Solimões e seus afluentes, como o Jutaí, são infestados de piuns e carapanãs, que tornam a região francamente inóspita e o turismo, inviável, apesar de sua beleza selvagem.  Até os ribeirinhos se queixam do assédio atordoante do pium (“o que come a pele”, em tupi).  “Quando cheguei, disse: ‘Meu Deus, o que eu vim fazer aqui?'”, confessa Edvar Bezerra de Moura, de 54 anos, presidente da comunidade Pirarucu, que nasceu em Envira (AC), e se instalou na área em 1996.

Voltamos do Bóia e retomamos o curso do Jutaí, que se foi tornando cada vez mais raso, a ponto de Zé Mingau não se sentir mais seguro de navegar de noite.  Às 18 horas do dia 26, quinta-feira, cruzamos a placa, na boca do Rio Mutum, que anuncia o início da RDS Cujubim, aonde muitos em Jutaí disseram que não conseguiríamos chegar com nosso barco, devido à vazante do rio.  Assim como mutum, cujubim é o nome de uma ave.  Pesando 1,5 quilo, ele foi levado à extinção pela caça.  Mas existe em certa quantidade na reserva, com sua exígua densidade populacional (200 pessoas em 2,4 milhões de hectares ).  “Ele tem um canto excelente”, contou Zé Galego a mim, que não consegui ver um cujubim.

Fomos no barco ainda até a comunidade São Raimundo, a terceira da reserva, aonde chegamos no domingo, dia 29, às 10 horas.  Dali, o barco foi voltando, descendo o rio, enquanto continuamos subindo na pequena e desconfortável voadeira.  Saímos de São Raimundo ao meio-dia e chegamos ao Pirarucu, a última comunidade, às 18 horas.

Dormimos sob o teto de palha, sem paredes, da escola.  Na verdade, não dormimos, passamos a noite: a friagem amazônica tinha chegado, e o frio de 15 graus parecia entrar por baixo da rede.  Na noite seguinte, depois de ir e voltar até a colocação de Pedro Mulato, estendemos nossas redes numa casa abandonada, também de teto de palha, mas com paredes de madeira – que não aumentam a temperatura, mas amenizam a sensação térmica.  Nossa volta, finalmente descendo o rio, começou às 7 horas do dia 31, terça-feira.  Além de Leopoldo, do fotógrafo Dida Sampaio e de mim, tivemos de encontrar espaço na voadeira para Rossilda e seu filho Tanael, de 5 meses, a quem demos uma carona até Jutaí.  Cinco meses antes, Rossilda perdera seu filho Gabriel, de 4 anos, possivelmente de malária.  Agora, Tanael estava com os mesmos sintomas, e simplesmente não dava para deixá-los lá.

Fomos recolhendo os galões de gasolina que o barco deixara para nós nas casas dos ribeirinhos, na sua descida do rio.  Com o peso extra, ela não foi suficiente, e tivemos que pegar dois galões emprestados.  Às 13h50, viramos à esquerda no Rio Curuena, em direção ao Goiabal, a segunda comunidade da RDS, onde queríamos conhecer em detalhe a história de Carlinha, a menina de 2 meses morta pelos índios, da qual tínhamos ouvido falar noutras comunidades.

Seguimos descendo o rio, e naquela noite dormimos na casa de Carlos Alberto da Cruz, que cuida do Posto de Hidrologia da Conceição, da Agência Nacional de Águas.  Por um salário mínimo mensal, ele mede diariamente o nível do rio, e envia os dados por satélite, com um aparelho acoplado a uma antena parabólica.

Carlos também cuida de filhotes de tracajás e de tartarugas que encontra nas praias.  Cria-os num tanque por cerca de dois anos, até ficarem fortes o suficiente para serem levados para um lago.  Ele é o único morador da reserva que consegue manter a sua casa livre de mosquitos, com telas de sacos de linhagem nas janelas e na porta da frente.

Em contraste com a maioria dos ribeirinhos, que não são muito de plantar (a outra exceção é Pedro Mulato), Carlos, que fez até a 3ª série, cultiva uma grande variedade de verduras e frutas.  Entre elas o cacau, que, depois de secar e moer, ele mistura ao leite em pó e chama de “nescau”.

Nesse período em que ficamos longe do barco, os banhos eram de cuia, depois das 21 horas (quando os mosquitos diminuem) na beira do rio.  Ninguém entra no Rio Jutaí, por causa das ariranhas, das piranhas e dos candirus (peixe que entra pelos orifícios, causando infecções fatais).

Depois de vários dias sem banheiro e sem cama, o barco nos pareceu um luxuoso iate quando o avistamos, às 13h40 do dia seguinte, atracado numa curva do rio.  Duas horas mais tarde, chegamos à comunidade São Francisco do Paraíso, a primeira da reserva, onde dormimos.  No dia 2, quinta-feira, saímos às 7 horas no barco.  Foram dois dias descendo o rio, até Jutaí, aonde chegamos à 1 hora da manhã do dia 4, sábado.

Faltava ainda acompanhar a pesca do pirarucu na reserva Mamirauá, que não conseguimos ver na primeira parte da viagem, porque a temporada ainda não tinha começado.  No domingo, dia 5, pegamos de novo carona na lancha do prefeito, que ia buscá-lo em Fonte Boa, a duas horas de viagem no seu potente motor de 90 cavalos (o mesmo percurso que o recreio fizera em oito horas).

De Fonte Boa, no dia seguinte, partimos mais uma vez numa lancha, dessa vez emprestada do IBAMA (pagamos a gasolina), para a comunidade Mapurilândia, onde, com quatro pescadores, em quatro canoas, entramos pelo Cano (com perdão do trocadilho) do Jenipapo e, cortando troncos, galhos e tapagens, chegamos ao Lago Valentim-1.

Amarramos nossas redes (cobertas de mosquiteiro), acendemos uma fogueira e jantamos peixe assado na beira do lago.  No dia seguinte, finalmente vimos a pesca de um pirarucu.  E pudemos voltar para Fonte Boa, de onde decolamos no dia 8, quarta-feira, no vôo regular de um avião de hélices, de 44 lugares, para Manaus, onde a apuração prosseguiu.

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