Mosaico étnico e religioso busca nova acomodação depois do apartheid

Brancos, negros, católicos, hindus, muçulmanos e animistas experimentam formas de convívio na “nova” África do Sul

 

DURBAN – O cruzamento da Dunnottar Road com a Mallinson Avenue é uma síntese de Durban: numa esquina, uma mesquita; em frente, um templo hinduísta. Subindo a Dunnottar até o fim e virando à direita, já se vê o luminoso em forma de cruz de uma igreja protestante. “Eles têm imagens de Deus, o que para nós não pode haver”, diz o xeque Yunus Patel, da mesquita Musjid-e-Noor, referindo-se ao templo em frente, com várias esculturas de bronze no seu pátio interior, representando as diversas formas assumidas por Deus. “Mas nos damos bem.”

Na Índia, esse convívio é em muitos casos impossível, com hinduístas – em geral passivos – queimando mesquitas e muçulmanos destruindo templos hindus. Em Durban, está o que os moradores locais consideram a maior mesquita do Hemisfério Sul, a Jumah Masjid e, a poucos quilômetros dali, o maior templo hinduísta da África, o Alayam Temple, dedicado ao Deus Shiva (e a 12 outras formas por ele assumidas). Ambos pertencem à comunidade de origem indiana, paquistanesa e cingalesa, que representa 14,5% da população da cidade – 11,3% hinduístas e 3,2% muçulmanos (68% são cristãos).

O bazar da Madressa Arcade (Galeria da Escola), construída em 1927, poderia bem estar na parte muçulmana da Índia ou no Paquistão – não fosse cerca de metade dos lojistas negros, alguns convertidos ao islamismo. Abubakr Mohammed Dawood, de 38 anos, tem uma loja de utensílios domésticos no bazar. Vestindo shalwar kameez (longo robe islâmico), a barba espessa sem bigode, a cabeça coberta pelo tupi (pequeno chapéu de algodão), Dawood sorri afavelmente para os estrangeiros.

Seu pai e avós maternos nasceram no Estado indiano de Gujarat, como boa parte dos muçulmanos de Durban. Embora o gujarati mais famoso que viveu na cidade fosse hinduísta: Mahatma Gandhi, líder da independência indiana, trabalhou em 1893 num escritório de advocacia na então colônia inglesa de Natal, cujo nome veio de sua descoberta pelo português Vasco da Gama em 25 de dezembro de 1497.

Dawood fala com seus pais em urdu, a língua predominante dos muçulmanos indianos, e memon, dialeto de sua região. Já com seu filho de 15 anos, fala inglês. Quando estava com 9 a 10 anos, o garoto estudou em uma escola pública, frequentada por crianças negras. Não deu certo. “Ele ficou sujeito a exposição demais, a liberdade demais, a Facebook, sexo, drogas, forças do mal”, resume Dawood. “Estava ficando desobediente em casa.” Agora o rapaz está em uma escola islâmica, na qual aprende a ler o Alcorão, o livro sagrado muçulmano, escrito em árabe, e a “manter a sua cultura”.

Indianos e negros tradicionalmente nutrem desconfiança entre si na África do Sul, embora ambos fossem discriminados no apartheid, como “não-brancos”. “Eles sempre nos consideraram dominantes, porque temos negócios”, observa Dawood. “Mas agora os negros estão amolecendo bastante com a gente, por causa do futebol. Há muito mais união, gente de todas as cores nos estádios. Sentem que estamos com eles.”

Como quase todo indiano e paquistanês, Dawood é um amante do críquete, levado à Índia e ao Paquistão pelos ingleses. “Agora meus amigos estão gostando de futebol”, diz ele. Cassim Bassa, de 67 anos, que nasceu na sobreloja de sua banca de sapatos e roupas no bazar e é neto de gujaratis, ia desde jovem nas partidas de futebol entre indianos, mulatos e negros.

“Não podíamos jogar contra os brancos”, recorda Bassa, que fala em gujarati com seus três filhos adultos. Ele tinha futebol nas aulas de educação física da escola e também acompanhava pela televisão. Os dois times da época, o Aces United e o Avalon Athletic, não existem mais. Com sua imensa maioria zulu – dois terços da população da cidade -, Durban é considerada um dos berços do futebol, o esporte preferido dos negros sul-africanos.

“Os indianos e chineses contavam como negros”, diz Bassa, lembrando os tempos do apartheid. “No correio, havia duas filas. Nos ônibus, os não-brancos tinham de sentar no fundo. A praia era separada.” O comerciante reconhece que era mais difícil para os negros: “Eles (os brancos) sabiam que os negros eram maioria. Os indianos e asiáticos são minoria. Não ameaçam.”

Como grande parte dos brancos, os indianos associam o fim do apartheid ao aumento da criminalidade. “O crime aumentou muito e trouxe muito medo”, diz Dawood, para quem a razão é que as fronteiras se abriram para imigrantes de países vizinhos, como Moçambique a Zimbábue. Cassim não vai ao estádio por causa da violência: “Temos medo de ir porque os negros bebem muito e ficam violentos quando perdem.”

Zahir Mohammed Sacoor, de 39 anos, que tem uma loja de fraldas descartáveis e guardanapos, pretende assistir à final da Copa Uefa. Torcedor do Manchester United, ele diz que não tem time na África do Sul: “Não gosto da forma como eles jogam.” Quanto à Índia, eles gostam de ir para passear, mas não se adaptariam: “Tem gente demais e é muito sujo”, concordam Cassim e Sacoor.

Os ressentimentos entre negros e indianos continuam vívidos nas críticas de Thembelani Mncanywa, um pregador muçulmano zulu de 62 anos, que se converteu do cristianismo para o Islã aos 36. “Os indianos não reconhecem os negros como muçulmanos, e por isso a comunidade muçulmana de Durban continua sendo 3,2% da população”, queixa-se Mncanywa.

“Há muitos zulus e cossas muçulmanos. O Islã está crescendo muito rápido, estamos construindo mesquitas na área rural”, celebra o pregador. Na oração das 13h da mesquita Jumah, havia cerca de 500 pessoas, um terço dos quais, negros, e os restantes, de origem indiana. Mncanywa é sustentado pelo Abangoni Islamic Trust, um fundo muçulmano negro, e se autodenomina “ministro”, usando ainda a terminologia protestante. Criado em família metodista, ele diz que mudou de religião porque “não podia fazer perguntas” no cristianismo.

Mncanyma defende a tese de que os negros tinham um só deus antes da chegada dos europeus. Como os muçulmanos, não cultivavam imagens dele, tanto assim que o chamavam umveli ngkangi, que significa “aquele que aparece desconhecido” no idioma ngoni, tronco banto das línguas faladas pelos negros sul-africanos. 

 

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