Por uma globalização com face humana

Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável foi aberta com ênfase na pobreza

JOHANNESBURG – A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +10, foi oficialmente aberta ontem com ênfase firme no combate à pobreza. O presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, anunciou que os temas-chaves são a pobreza e a “crise ecológica global”. Nessa ordem. Mbeki, nomeado presidente da conferência, disse que “não é segredo que a comunidade global não tem demonstrado disposição de cumprir os compromissos” firmados no Rio há dez anos e que, nesse período, “a degradação ambiental e a pobreza aumentaram”.

O presidente reiterou que o objetivo da Rio +10 é adotar “medidas para alcançar resultados” com base nos princípios consagrados na Agenda 21. “Não temos nova agenda para descobrir. Não há necessidade de rediscutir o que já foi resolvido”, salientou. “Temos agora é que mostrar que estamos comprometidos com a solidariedade, em lugar da lei do mais forte.”

Os negociadores estão tentando obter acordo a respeito dos 25% do Plano de Implementação da Agenda 21 sobre os quais não se alcançou consenso na reunião preparatória de Bali, entre maio e junho. O outro documento a ser firmado pelos chefes de Estado e de governo no dia 4 é uma declaração política, com o compromisso de executar o Plano de Implementação.

O secretário-geral da cúpula, o indiano Nitin Desai, que falou em seguida, também colocou a ênfase no tema da pobreza. Desai lembrou o discurso de Mbeki, feito na noite de domingo, no qual o presidente sul-africano disse que a divisão entre ricos e pobres representa um “apartheid global”, no qual, por exemplo, 2 bilhões de pessoas não têm acesso à energia.

“Simplesmente não temos o direito de desapontar bilhões de pessoas”, exortou o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep), o alemão Klaus Töpfer, enfatizando que “os pobres são as maiores vítimas do desenvolvimento insustentável”. Segundo Töpfer, essa será a cúpula da “implementação, prestação de contas e parceria”. Com o objetivo de “lutar contra a pobreza”, promover uma “prosperidade responsável” e uma “globalização com face humana”.

O vice-presidente para Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial (Bird), Ian Johnson, endossou a visão que deve predominar na cúpula, segundo a qual o combate à pobreza deve ser a via principal para a solução dos problemas do ambiente. Em entrevista, Johnson defendeu a tese de que a pobreza está no “coração” do problema do desenvolvimento sustentável.

“Em 2015, a economia mundial terá crescido quatro vezes”, previu ele, argumentando que o meio ambiente será severamente afetado se esse crescimento ocorrer de acordo com os “padrões atuais”. “Precisamos de uma nova forma de crescimento inteligente, com respeito pelos recursos naturais e socialmente responsável”.

Os programas do Banco Mundial, segundo o vice-presidente, ficarão prioritariamente focados no desenvolvimento sustentável, sobretudo na área da agricultura. Da parte dos países ricos, Johnson defendeu a eliminação dos subsídios agrícolas, que, segundo ele, somam US$ 350 bilhões ao ano. O vice-presidente explicou que em muitos casos é necessário melhorar a infra-estrutura dos países pobres e sua produtividade, em vez de conceder subsídios. “A produtividade de um agricultor africano é um terço da de um asiático”, comparou Johnson. “É preciso uma revolução agrícola na África.”

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