Portugueses, como outros brancos, deixam o país

DURBAN – Eles vieram em massa para a África do Sul a partir de 1850.


Até o seu maior poeta depois de Camões, Fernando Pessoa, morou em Durban entre 1899 e 1905. Chegaram a somar 1 milhão. Hoje, estima-se que sejam metade disso. Com o fim do apartheid, em 1994, os portugueses, como muitos brancos, estão deixando o país. O principal motivo é o regime de preferências para os negros. Chamado de Black Empowerment (poder para os negros), o programa condiciona a concessão de contratos com empresas privadas à contratação de negros.

António Araújo, de 62 anos, veio há 44 da Ilha da Madeira, como boa parte dos cerca de 12 mil portugueses que vivem na província de Kwazulu-Natal, da qual Durban é a capital. Araújo tornou-se um empresário bem-sucedido na África do Sul, dono de uma distribuidora de costelas embaladas a vácuo, que ele fornece para supermercados. Já os seus três filhos foram buscar oportunidades fora.

O mais velho, de 33 anos, e a mais nova, de 27, trabalham em Londres, como contador e como consultora de sistemas, respectivamente. O do meio, de 30 anos, também contador, trabalhou quatro meses em Londres e um ano e meio nas Bermudas, antes de se casar em Durban e voltar para a cidade. “Quando terminou o apartheid, muitos jovens de origem européia fugiram porque não havia trabalho”, constata Araújo. “O governo tem preferência pelo negro, mesmo que não seja qualificado.”

O engenheiro civil António Cipriano, de 38 anos, e dois de seus primos estavam na idade de servir o Exército quando o apartheid chegava ao fim. Até então, o serviço militar era obrigatório para os brancos, enquanto que os negros, mulatos, indianos e asiáticos estavam excluídos das Forças Armadas.

Cipriano entrou na universidade, o que lhe permitia não servir o Exército. Já seus dois primos foram para Portugal e ficaram lá dois anos, até passar da idade do serviço militar. O que afligia os jovens brancos era a passagem do comando das Forças Armadas para a maioria negra. “Eles ficaram com medo de ir para a tropa”, lembra Cipriano. “A pergunta que faziam na época era: ‘Vamos defender quem?'” 


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