Tradições e cultura política se mantêm intactas na zona rural

A estrada que leva a Mvezo, onde Nelson Mandela nasceu, é parecida com tantas outras

MVEZO, África do Sul – Que cortam a zona rural na África do Sul: de terra e repleta de buracos. Da rodovia asfaltada que passa por Qunu até o vilarejo são 30 km, mas é difícil fazer o percurso em menos de 1 hora. Às vezes é preciso parar para os carneiros, vacas e jumentos que cruzam a estrada, seguidos por pastores ou por mulheres e adolescentes carregando fardos de lenha para cozinhar e aquecer.

A paisagem magnífica é pontuada de cabanas redondas com paredes de barro pintadas de diversas cores e com telhados de palha, sobre montanhas e vales que formam despenhadeiros com rios passando embaixo. Entre eles, o Mbashe, que divide os territórios dos clãs Thembu, de Mandela, e Gcaleka, do ex-presidente Thabo Mbeki, seu sucessor.

Em 16 anos de democracia multirracial, essa região deu à África do Sul dois dos seus três presidentes negros. De resto, tudo aqui segue como noutros lugares – com os chefes tribais e as tradições ditando o que é importante na vida cotidiana. No sábado, quando o repórter e o fotógrafo do Estado chegaram ao campo de futebol para acompanhar a partida entre dois times locais, Jonsisizwe Mandela, o mais graduado membro da família no vilarejo, foi logo chamado, pelo celular.

“O que os traz aqui?”, perguntou Jonsisizwe, com o olhar preocupado. “Quem deu permissão para fotografar a partida? Não posso conversar com vocês, porque o chefe não está aqui, eu precisaria de autorização do conselho (tribal) e parte deles também não está.” Os membros mais velhos do clã Madiba foram a Johannesburgo para a cerimônia de abertura da Copa na quinta-feira, e acabaram ficando para o funeral de Zenani, a bisneta de Nelson Mandela morta num acidente de carro naquela noite.

Jonsisizwe faz uma concessão, e permite aos forasteiros assistir a partida. Os United, de uniforme vermelho, enfrentam os Blue Beds, vestidos com cores do Brasil (camiseta amarela e verde, calção azul e meias amarelas). Eles disputam as oitavas de final do Torneio 16 de Junho (Dia da Juventude), do qual participam 32 times masculinos e femininos. O prêmio é um conjunto completo de uniforme do time campeão.

Os United e os Blue Beds ostentam as qualidades e os defeitos do futebol africano: correm sem parar, jogam com alegria, mas enfeitam tanto que erram gols de forma inacreditável. “Estamos tentando dar a eles a visão de que, mesmo não tendo instrução, podem fazer algo com seu talento”, explicou, antes da chegada de Jonsisizwe, o árbitro da partida, Anele Ketani, de 37 anos, marceneiro de uma fábrica de móveis. “Alguém que venha de fora pode selecionar alguns deles.”

O objetivo é quase contraditório com a atitude do membro do clã, que impede os estranhos de ir visitar a casa onde nasceu Mandela. O poder do chefe do clã – função que foi exercida pelo pai de Mandela, ele mesmo um “príncipe” – é uma das faces da tradição quase intacta entre cossas e outros grupos étnicos na zona rural.

Em Qunu, a 40 km dali, dezenas de homens e de mulheres se reuniram no sábado para celebrar o ukwaluga – ritual de circuncisão a que foram submetidos dois rapazes de 19 anos. Depois da circuncisão, eles foram para um barraco de 2 metros por 1,5 feito com telhas de zinco especialmente para eles num campo do outro lado da estrada, onde ficarão quatro semanas isolados, vestidos apenas com mantas e untados com areia e filtro solar, deixando sua pele embranquecida, para protegê-los de feitiços. As únicas mulheres com as quais podem ter contato são suas irmãs. Durante esse período, o homem que realizou a operação não pode ter relações sexuais.

Passado o mês, o barraco será derrubado e os rapazes voltarão para o curral onde os homens se reuniram no dia da circuncisão, e receberão instruções sobre como devem se portar. O usual é que se casem em seguida. Depois do ritual, os homens entoaram a Somagwaza, canção que pede aos ancestrais que os rapazes sejam férteis e tenham o primeiro filho homem, de modo a levar adiante o nome do clã. As mulheres, reunidas noutro curral, repartiram pedaços de carne de carneiro assada na brasa, umgqusho (prato de milho branco com feijão) e abóbora, comidas tradicionais dos cossas, misturadas com alimentos ocidentais, como molho de maionese e tomate, repolho e batata. E beberam cerveja artesanal, de milho fermentado durante três dias.

O ukwaluga faz parte do universo do muti, práticas de cura com ervas medicinais e de magia para proteger de mau olhado e prever o futuro. Já a evocação dos ancestrais está no centro da religiosidade dos cossas – assim como dos zulus e de outros grupos negros. Esses ancestrais, que podem ser avôs ou figuras lendárias mais distantes, servem de intermediários com o “Todo-Poderoso”, explica Zimisele Gamakhulu, de 44 anos, guia do Museu Nelson Mandela e morador de Qunu. Essas crenças se misturam com os ritos da Igreja Católica, trazida pelos portugueses e franceses, e de diversas correntes protestantes, transmitidas por holandeses e ingleses. 

 

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