Líder angolano vê em Lula ‘o advogado dos pobres’

Em Luanda, presidente critica protecionismo e define a África como prioridade de governo

LUANDA, Angola – O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, elegeu ontem Luiz Inácio Lula da Silva o representante dos pobres no mundo, ao mesmo tempo em que elogiou seu pragmatismo na área econômica. Os elogios, feitos durante encontro no palácio presidencial de Luanda, foram seguidos de um discurso no qual o presidente brasileiro voltou a atacar o protecionismo comercial dos países ricos, prometeu ajuda a Angola e apontou a África como prioridade de seu partido e de seu programa de governo.

“A sua eleição à mais alta magistratura, depois de um combate político longo e persistente, foi considerada como uma vitória do povo humilde do Brasil e das pessoas desfavorecidas no resto do planeta, que já o escolheram como seu porta-voz”, afirmou Santos. Mais tarde, o presidente da Assembléia Nacional, Roberto de Almeida, foi na mesma linha, apresentando Lula como “intransigente advogado das causas dos países em desenvolvimento”.

Num sinal dos tempos, Santos, há 24 anos o líder máximo do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), que nos tempos da guerra fria se alinhava com o bloco comunista, elogiou o pragmatismo de Lula na condução da política econômica. “A sua gestão política e econômica está a corresponder às expectativas”, avaliou o presidente angolano. “Permita-me saudá-lo pelo desempenho pragmático e dinâmico que tem tido à frente dos destinos do Brasil.”

“A nossa visita é o cumprimento de um compromisso histórico, em primeiro lugar do meu partido, em segundo lugar de meu programa de governo”, definiu Lula. “O Brasil, como país de língua portuguesa economicamente mais forte, maior em população e mais rico, precisa fazer gestos concretos de generosidade e ao mesmo tempo dar sinais para o resto do mundo de que o Brasil tem dívidas históricas com o continente africano e com Angola, e quer, com gestos e políticas afirmativas concretas, resgatar nossa relação que, durante tanto tempo, ficou um pouco esquecida.”

No seu discurso no Congresso, Lula avançou um pouco mais. Falando de improviso, depois de ler o texto escrito, o presidente lembrou suas consecutivas derrotas eleitorais, desde a candidatura ao governo do Estado de São Paulo, em 1982. “Em nenhum momento da minha história política deixei de acreditar que fora da democracia eu pudesse encontrar os meios para chegar ao poder no meu país”, disse ele, defendendo o respeito às diferenças e a construção do consenso.

Angola nunca teve democracia. José Eduardo dos Santos assumiu o poder depois da morte do líder da independência, António Agostinho Neto, em setembro de 1979. Depois da luta pela independência de Portugal, em 1975, o país mergulhou numa guerra civil entre o MPLA e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pela África do Sul e os Estados Unidos.

Em 1991, depois de um acordo de paz, foram realizadas eleições, mas o líder da Unita, Jonas Savimbi, não aceitou a vitória de Santos, e a guerra recomeçou. Só foi acabar depois da morte de Savimbi, em fevereiro do ano passado. O novo líder da Unita, Isaías Samakuva, se diz comprometido com a democracia, e o presidente Santos promete eleições para 2005.

“Nenhum país do mundo tem mais autoridade moral para falar de guerra do que Angola”, classificou o presidente brasileiro. “Primeiro foi a guerra contra Portugal, depois uma guerra interna. Qualquer historiador do mundo que queira escrever alguma coisa sobre guerra terá que escrever sobre Angola”, acrescentou Lula, sob risos e aplausos de parlamentares angolanos. “Se durante décadas vocês ensinaram o mundo a fazer guerra, eu queria pedir a vocês: ensinem o mundo agora a fazer a paz.”

Como nos outros quatro países africanos que Lula percorre nesta semana, o presidente de Angola anunciou apoio à candidatura do Brasil a uma cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU. Angola ocupa um assento rotativo desde o início do ano e o Brasil ocupará outro a partir do ano que vem. O turno dura dois anos.

O Estado perguntou ao chanceler Celso Amorim qual o valor desse tipo de apoio, que o Brasil tem angariado pelo mundo afora, quando o mais provável é que as cadeiras permanentes tenham seu poder diluído, num Conselho reestruturado, se ocorrer de fato a ampliação.

“A permanência é em si mesmo fonte de poder”, analisou o chanceler. “Esses apoios que o Brasil tem recebido não têm sido condicionados a essas mudanças a que você se refere.” O benefício poderia ser dado apenas a Alemanha, Japão e Brasil, espera Amorim. O Conselho, originado do pós-Guerra, tem cinco membros permanentes – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – e dez cadeiras de turno.

Um alto funcionário do governo brasileiro aponta como reflexo do distanciamento anterior entre o Brasil e os países africanos o apoio de Angola à invasão do Iraque, no Conselho de Segurança, no início do ano. “Fomos para o realismo”, justificou ontem o chanceler angolano, João Bernardo de Miranda. “Somos um país simples. Não íamos barrar o vento com a mão.” A partir do ano que vem, Miranda diz que os dois países tentarão coordenar suas posições. “Mas pode haver momentos em que possamos nos distanciar.”

“Podem ficar certos de que, se em algum momento nosso país voltou as costas para Angola, ficaremos de frente e faremos de tudo para recuperar o tempo perdido”, prometeu ontem o presidente Lula, na Assembléia Nacional.

Lula e sua comitiva de nove ministros e dois secretários, além de um grupo de cerca de 60 empresários, seguem hoje à tarde para Moçambique.

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