Com Trump, o congresso em risco

TRUMP: a dificuldade de arrecadação da campanha é um sinal de que a maioria republicana está ameaçada/ Carlo Allegri/ Reuters

Lourival Sant’Anna

O alto nível de rejeição que Donald Trump atrai contra si com sua retórica inflamável e seu prazer em atropelar o “politicamente correto” poderá custar caro não só para ele, mas para candidatos ao Senado e à Câmara dos Deputados, na avaliação tanto de republicanos quanto de democratas. Em distritos eleitorais que são tradicionais redutos republicanos, pessoas com nível de instrução superior e mulheres — dois dos grupos que que não se identificam com Trump — tendem a deixar de lado não só o candidato a presidente, mas, também, por contaminação, os postulantes ao Congresso do mesmo partido.

Eles não precisam sequer votar nos democratas: a simples abstenção já favorece o partido, cujos eleitores, sobretudo nesses redutos republicanos, tendem a ser mais leais e a comparecer em massa às urnas. Essa perspectiva tem animado os democratas a tentar recuperar o Senado, o que é mais fácil, e alguns sonham até mesmo em ganhar também a maioria na Câmara, o que requer arrancar 30 cadeiras das mãos dos republicanos. Seria a repetição das ondas democratas de 2006 e 2008, quando o partido conquistou a Câmara, seguidas das ondas republicanas de 2010 e 2012, quando ela passou para as mãos dos republicanos.

No Senado, análise do jornal The New York Times com base nas pesquisas de intenção de voto e no histórico das eleições indica 60% de chance de os democratas obterem a maioria. Para isso, os democratas têm de vencer em 5 dos 11 distritos mais disputados — 10 dos quais estão hoje nas mãos de republicanos e um, na do democrata Harry Neid, do Nevada, que vai se aposentar.

Cabe ao Senado aprovar os juízes da Corte Suprema nomeados pelo presidente. Atualmente, dos 11 juízes, 5 são conservadores e 5, liberais, e uma cadeira está vaga. Assim, a maioria no Senado determinará os rumos de decisões importantes, por exemplo em relação às restrições à compra de armas — que Hillary Clinton defende e Donald Trump rejeita.

A maioria republicana na Câmara é a maior em 87 anos, e seria uma tarefa difícil desbancá-la. O atual mapa dos distritos favorece os republicanos, concentrando seu voto em maior número de circunscrições eleitorais do que o dos democratas. “Não acho que estamos a ponto de perder a maioria, mas não podemos relaxar”, diz o deputado Tom Cole, de Oklahoma. “Não sabemos o que o cabeça de chapa vai fazer amanhã”, completa o republicano, referindo-se a Trump. Pesquisas encomendadas pelo Partido Republicano nos distritos mais disputados indicam que os eleitores ainda não estão associando os candidatos a deputados com Trump. Pelo menos foi o que disseram estrategistas do partido aos doadores. Eles apostam na impopularidade de Hillary para evitar a fuga de votos.

Os dirigentes republicanos não escondem, no entanto, sua preocupação com o ritmo de arrecadação dos dois partidos. No mês passado, os democratas arrecadaram US$ 12 milhões para as campanhas para deputados, enquanto que os republicanos receberam apenas US$ 4,6 milhões — embora ainda tenham estoque um pouco maior de recursos doados do que seus adversários. Normalmente, o partido com maioria nas Casas do Congresso arrecada mais que o da minoria. A tesoureira da campanha republicana para a Câmara, Megan Cummings, escreveu em um email no qual pedia doações para lobistas em Washington: “Esse padrão é insustentável. Não podemos passar mais um mês com os democratas arrecadando mais que nós em montantes tão significativos”.

O deputado republicano Charlie Dent, da Pensilvânia, reconhece: “É uma situação notável. Nós, republicanos, deveríamos estar numa posição muito mais forte em muitas áreas suburbanas”, referindo-se a bairros de classe média e alta, afastados dos centros das cidades, mas com boa infra-estrutura e padrão de moradia. “Por causa da natureza do candidato, vai ser muito mais concorrido do que deveria ser.”

Mesmo nos Estados em que venceu as primárias, como Virgínia e Geórgia, Trump perdeu nos subúrbios de renda mais alta. Seu discurso foi talhado para atrair os brancos de baixo nível de instrução, principalmente operários de fábricas, que sofrem uma queda na qualidade do emprego e no poder aquisitivo, com o deslocamento das indústrias americanas para outros países onde a mão de obra é mais barata e de onde, graças aos acordos comerciais, podem exportar para o mercado americano.

Ao atacar o livre comércio e imigração, Trump atende os ressentimentos desse eleitorado, que também acredita que os estrangeiros nos EUA aceitam trabalhar por salários mais baixos, solapando ainda mais suas chances. Como nenhum outro candidato, Trump tornou a xenofobia, alimentada por essas duas suspeitas, socialmente aceita. Já o público de maior escolaridade julga que ele não tem perfil para ser presidente.

Na média das pesquisas do site Real Clear Politics, Hillary vence Trump por 46,7% a 41,7%. No Senado, os democratas obtêm 47 cadeiras e os republicanos, 44, enquanto as outras 9 estão indefinidas. Na Câmara, os republicanos vencem com 226 deputados, contra 187 democratas, e 22 indefinidos.

Até agora, somente os candidatos em redutos republicanos menos conservadores rejeitaram abertamente o postulante de seu partido à presidência — o que não é nada comum nos EUA. É o caso de Dent. Outros apenas evitam dizer se apoiam Trump ou não. Enquanto isso, os democratas planejam investir milhões de dólares em campanhas focadas nos redutos republicanos em disputa, tanto para a Câmara quanto para o Senado. A temporada de caça está aberta, e Trump é o maior troféu. Se sentirem que sua cabeça também está a prêmio, é provável que mais republicanos “saiam do armário”.

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