Terceiro suposto filho de Lugo complica situação do ex-bispo

Escândalos coincidem com crise entre o presidente e seu vice, cujos aliados caíram em reforma ministerial

 

ASSUNÇÃO

A situação do presidente do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo, complicou-se ontem, com o aparecimento de mais um filho atribuído a ele – o terceiro em duas semanas – e a versão da existência de uma lista de seis outras mulheres que ainda iriam reivindicar a paternidade dele sobre suas crianças. À medida que os escândalos de paternidade em série se alastram, a oposição prepara uma ação criminal por “estupro” contra o presidente, e o seu vice, o liberal Federico Franco, ameaça romper com ele.

Damiana Morán, de 39 anos, militante de esquerda como Lugo, afirmou ontem ter um filho de um ano e quatro meses com o presidente. Ao contrário das outras duas mães, no entanto, ela disse que não entraria com ação de reconhecimento da paternidade nem exigiria pensão alimentícia. “Não preciso de ajuda”, disse Damiana, dona de uma creche. Ela é divorciada há cinco anos e tem dois filhos do primeiro casamento, um de 21 e outro de 19.

Segundo Damiana, Lugo não sabia, até segunda-feira, quando ela o procurou, que era pai de seu filho. Ela diz que decidiu divulgar o fato “em nome da verdade”, depois do surgimento de outros casos, e de ter tido conhecimento da lista de seis outras mulheres que reivindicariam o reconhecimento da paternidade de seus filhos por Lugo. A lista não incluiria Damiana nem as outras duas mulheres que já afirmaram ter tido filhos com o presidente. Segundo Damiana, o advogado de Lugo, Marcos Fariña, disse-lhe que o presidente reconheceria a paternidade de seu filho.

Lugo, de 58 anos, foi bispo de San Pedro até janeiro de 2005, quando o Vaticano aceitou sua renúncia. Mas continuou como sacerdote até dezembro de 2006, quando deixou a batina para se lançar à presidência. 

A camelô Benigna Leguizamón, de 25 anos, entrou ontem com ação de reconhecimento de paternidade contra Lugo na Vara da Infância e da Adolescência de Ciudad del Este. Benigna reuniu-se na terça-feira em Assunção com Fariña, que lhe propôs que os exames de DNA fossem feitos “em privado”. Ela recusou, temendo “manipulação” dos resultados. Seu advogado, Seong Je Park, pediu a realização de dois testes, um no Paraguai e outro no Brasil, para confrontar os resultados.

O filho de Benigna tem seis anos. Ela diz que o relacionamento com o então bispo de San Pedro começou em maio de 2001, quando ela tinha 18 anos, e foi pedir ajuda à igreja. Benigna já era mãe solteira e não tinha assistência do pai de seu primeiro filho. Acabou tendo outro com Lugo, que lhe dava, segundo ela, 50 mil guaranis (cerca de US$ 10) por semana, até terminar o relacionamento, em outubro de 2003. De lá para cá, não recebeu mais nada, afirma Benigna na ação. Ela diz que o filho telefonou uma vez ao pai para lhe pedir uma bicicleta. Lugo prometeu o presente, mas não cumpriu.

Benigna afirma que se sentiu encorajada a denunciar Lugo depois que ele reconheceu, no dia 13, a paternidade de outro menino, que completa dois anos no mês que vem. Sua mãe, Viviana Carrillo, de 26 anos, contou que o relacionamento com Lugo começou quando ela tinha 16 anos, e o bispo frequentava a casa de sua madrinha. O jornal Última Hora informou ontem que Viviana e o menino passaram a ocupar uma casa que Lugo herdou dos pais no bairro de Lambaré, em Assunção. 

A senadora Lilian Samaniego, líder do Partido Colorado, de oposição, entrou na terça-feira com ação contra Lugo, para investigar se o caso se enquadra na lei que considera “estupro” a sedução de meninas de até 16 anos por homens acima de 18. Os simpatizantes de Lugo, incluindo a própria Damiana, consideram as duas primeiras denúncias parte de uma “conspiração” contra o presidente. 

 

Na segunda-feira, durante a celebração do primeiro aniversário do governo, simpatizantes do vice Franco gritavam “presidente” para ele. O vice não foi convidado a subir no palanque. Na véspera, sem consultar Franco, Lugo substituiu três ministros liberais aliados a ele por seus adversários dentro do partido. Franco, cujo partido de centro-direita se aliou às correntes de esquerda lideradas por Lugo na eleição do ano passado, pondo fim a uma hegemonia de 61 anos do Partido Colorado, considerou que, com o gesto, o presidente o está “empurrando para a oposição”.

Deixe o seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*