A eleição que já tem vencedor

O presidente interino, Hamid Karzai, enfrenta 15 rivais, mas é como se concorresse sozinho

 

CABUL – O presidente interino Hamid Karzai disputa hoje a primeira eleição presidencial da história do Afeganistão com outros 15 candidatos. Na prática, no entanto, é como se concorresse sozinho. Todos sabem que Karzai tem o apoio dos Estados Unidos e da comunidade internacional, e que sem esse apoio, o Afeganistão, um país pobre, destruído por 25 anos de guerras, não poderá ser reconstruído. Dois outros candidatos abriram mão da disputa na quarta-feira para apoiar Karzai.

Pesquisa encomendada pelo Departamento de Estado americano à empresa Acsor, em julho, sobre quem os afegãos gostariam de ver eleito presidente, com resposta aberta, indicou 47% das preferências para Karzai; o rei Zahir Shah, deposto em 1973, e que não concorre, ficou em um segundo lugar distante, com 8%, seguido pela médica Massouda Jalal, a única candidata mulher. O ex-ministro do Interior Yunus Qanuni, de etnia tajique, um pouco mais crítico em relação à presença americana, aparece com 1% nessa pesquisa, embora seja considerado um candidato de destaque no país.

Os resultados oficiais devem ser anunciados dia 30. Se o primeiro colocado não obtiver mais da metade dos votos, haverá segundo turno no dia 20 de novembro. Cerca de 16 mil observadores afegãos e 225 monitores internacionais vao supervisionar a eleição.

Foi uma campanha atípica. Com os taleban, a al-Qaeda e os milicianos comandados por Gulbuddin Hekmatyar tentando sabotar as eleições, e apenas um mês de campanha, só mesmo o presidente, que tem à sua disposição aviões e helicópteros, pôde de fato promover sua candidatura nacionalmente. O presidente mandou até mensagens pelo celular pedindo votos – um recurso moderno e provavelmente eficaz, num país onde a telefonia fixa ainda não foi restaurada e uma operadora móvel afegã e outra russa disputam o mercado.

Karzai é protegido por guarda-costas da companhia texana Dyncorp, contratada pelo Departamento de Estado americano. Quando seu comboio se move por Cabul, o trânsito caótico é paralisado pelos novos policiais de trânsito treinados pelos alemães. Freqüentemente tem de voltar ao palácio, por causa de ataques com foguetes ou carros-bomba contra seu comboio. Na manhã de domingo, quando o presidente embarcou da Base Aérea de Bagram para Herat, no noroeste do país, aviões militares americanos e afegãos aproveitaram para fazer uma demonstração de força, sobrevoando Cabul.

“É claro que não dá para percorrer as 34 províncias do país em 30 dias”, diz Kassim Massumi, líder do partido Congresso Nacional do Afeganistão e candidato a vice-presidente. “Pedimos para a Unama (órgão da ONU que coordena a eleição) mais um mês de campanha, mas não fomos atendidos.”

Entre os 18 candidatos a presidente, apenas seis são conhecidos da população. E nem sempre com boas referências. O general Abdul Rashid Dostum, por exemplo, líder usbeque da Aliança do Norte, que ajudou os americanos a derrubar o regime taleban, em outubro de 2001, carrega uma extensa ficha de atrocidades cometidas durante a guerra civil (1992-96) entre grupos mujaheddin (combatentes da liberdade).

De acordo com a médica Nilab Mobarez, candidata a vice numa chapa ligada ao rei Zahir Shah, foram apresentadas à Comissão Eleitoral 115 queixas contra candidatos acusados de atrocidades, mas os ministérios da Defesa e da Justiça não responderam. “Eles são controlados por essas pessoas”, disse Nilab. “Neste país ainda vigora o poder das armas”, constata Ghulam Farooq Nejrabi, candidato a presidente pelo partido Isteqlal Afghanistan.

Alguns candidatos têm aparecido na TV, mas seu alcance é pequeno. A televisão foi banida durante o regime taleban, que destruiu muitos aparelhos. A TV Cabul transmite das 18h à meia-noite, horário em que a eletricidade costuma funcionar, com falhas, nas principais cidades. No resto do país, a energia não foi restaurada. O grande meio de comunicação é o rádio. Até o Exército americano tem distribuído aparelhos da marca alemã Grundig, para transmitir seus programas. Metade dos homens e quatro em cada cinco mulheres são analfabetos. As cédulas trazem os rostos dos candidatos. Mas a vasta maioria dos eleitores nunca os viu.

As eleições se realizam sob clima tenso. Houve ataques ontem com foguetes em Cabul, Jalalabad e outras cidades do país, atribuídos à Al-Qaeda. As ruas e estradas estavam semidesertas ontem. Quem pôde, ficou em casa, com receio de ataques terroristas. Carros com placas de fora e caminhões não entram na capital. Vários veículos carregados de explosivos foram apreendidos nos últimos dias em Cabul e arrededores.

Em Torkham, na fronteira com o Paquistão – em cuja área tribal autônoma se concentram a Al-Qaeda, os taleban e os milicianos de Hekmatyar -, um detonador de explosivos foi achado há um mês dentro de um bolo. Dois taleban foram presos. “Não posso dizer se o país está seguro”, esquiva-se o comandante da polícia de fronteira de Torkham, brigadeiro Kholam Sakhih.

As estradas do país são patrulhadas por soldados americanos em veículos Humvee e por blindados da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf), além de caminhões, jipes e camionetes dos recém-formados Exército e polícia nacionais. Os EUA mantêm 17 mil soldados no país; a Isaf, formada por membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte e mais 11 países, tem normalmente 7 mil soldados, e recebeu outros 2 mil de reforço para a eleição. O Exército afegão conta com 13.500 homens, treinados pelos americanos, e a polícia, com 29.275.

Apesar da tensão, parece grande o entusiasmo dos afegãos para votar. Entre dezembro e agosto, 10,5 milhões de pessoas – de uma população de 24,5 milhões – se inscreveram para obter a cédula eleitoral. Dessas, 41% eram mulheres. Muitos foram mortos pelos terroristas. Um homem que viajava para Cabul foi parado pelos taleban, que perguntaram se ele tinha cédula eleitoral. Pensando que eram funcionários do governo, ele exibiu a cédula. Teve o nariz e uma das orelhas cortados.

O Estado ouviu dezenas de pessoas em Cabul, no centro-sul e no leste do país, incluindo áreas rurais longínquas, e todos disseram que votariam hoje, com exceção de camponeses nas montanhas de Tora Bora, que não tinham como ir até a cidade mais próxima. Os que declararam voto disseram que votariam em Karzai. Outros afirmaram estar indecisos, ou reinvindicaram o direito ao segredo.


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