Se eleito pedir, EUA saem, diz embaixador

Para Khalilzad, EUA não são força de ocupação no Afeganistão


CABUL – Se um governo legitimamente eleito no Afeganistão pedir para os americanos deixarem o país, eles o farão. É o que garante o embaixador dos Estados Unidos em Cabul, Zalmay Khalilzad. “Os EUA não ocupam países”, afirmou Khalilzad, afegão naturalizado americano. “Estamos aqui para liberar o Afeganistão.”

Khalilzad fez a declaração respondendo a uma pergunta do Estado, sobre se os EUA desaprovam algum dos 18 candidatos na primeira eleição presidencial da história do Afeganistão, marcada para o dia 9. “Vou ter de pensar sobre isso”, disse o embaixador, depois de uma pausa. “Pode ter havido algum candidato que tenha falado de ‘forças estrangeiras de ocupação’ ou algo assim.” Se alguém lhe perguntasse, continuou, ele não recomendaria votar nesse candidato.

Khalilzad não quis citar nomes. “Eu levanto questões, não nomes, não acho que seja apropriado. É o momento deles”, explicou, falando a jornalistas estrangeiros na embaixada americana, fortemente guardada, hoje composta de fileiras de contêineres de metal refrigerados, pintados de branco, que em breve darão lugar a um complexo formado por três grandes edifícios em construção.

O embaixador não escondeu, no entando, a afinidade do governo americano com o presidente do governo de transição, Hamid Karzai, que ascendeu ao cargo com o beneplácito americano em dezembro de 2001, depois da derrubada do regime taleban. “Ele tem sido um bom parceiro, tem representado bem os afegãos”, ponderou Khalilzad, de 50 anos, nascido em Mazar-i-Sharif, no norte do país, e que foi morar nos EUA aos 20, num programa de intercâmbio estudantil.

“Claro que desejamos que os afegãos escolham alguém que tenha um bom plano e possa gerar recursos para implementá-lo”, continuou o embaixador, aparentemente referindo-se à importância de o presidente eleito contar com a aprovação da comunidade internacional, que deve prover esses recursos. Só a ajuda americana, este ano, soma US$ 2,1 bilhões. “Mas nosso foco é num processo o mais justo e livre possível.”

Khalilzad procurou afastar qualquer vinculação direta entre a eleição do Afeganistão – adiada duas vezes, diante da falta de segurança e estrutura no país – e a dos EUA. “Claro que o sucesso do Afeganistão é importante para nós”, reconheceu. Segundo ele, não porque o eleitorado dos EUA poderá decidir seu voto em função desse sucesso ou do fracasso, “mas pela segurança do povo americano”.

Khalilzad, doutor em ciência política pela Universidade de Chicago e ex-assessor do presidente George Bush para o Sudoeste da Ásia, disse acreditar que o Afeganistão não mergulhará de novo na guerra entre milícias, como aconteceu depois da expulsão dos soviéticos do país, em 1989. “Primeiro, porque os afegãos estão cansados de guerra e não querem mais saber de milícias locais governando-os”, explicou ele. Além disso, analisa o embaixador, os chefes de clãs sabem que o cenário internacional não é favorável a um novo conflito armado entre grupos no país. Os próprios EUA ajudaram a armar grupos combatentes afegãos nos anos 80.

Sobre as possíveis tentativas da Al-Qaeda e dos taleban de sabotar as eleições, Khalilzad cruza os dedos. “Poderá haver atos espetaculares, mas espero que os afegãos reajam participando, como fizeram no período de registro dos eleitores”, disse ele. As forças de segurança americanas no Afeganistão estão operando em nível de alerta crítico, o mais alto na escala. Só no último mês, um carro-bomba matou três americanos e sete afegãos e cinco foguetes de artilharia pesada foram disparados das montanhas em torno de Cabul, deixando dois mortos.

Lourival Sant’Anna é o único latino-americano num grupo de 11 jornalistas convidados pelo governo dos EUA para um “tour pré-eleitoral” no Afeganistão.


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