Sentimos falta dos brasileiros aqui

Assessor de chanceler afegão diz que a próxima embaixada que o país vai abrir será em Brasília

 

CABUL – Começa uma corrida para a exploração dos muitos recursos minerais do Afeganistão. A China saiu na frente, ganhando o primeiro grande contrato, de cobre. Agora concorre com quatro empresas indianas e um consórcio paquistanês e saudita, pela exploração de ferro. Seguirão petróleo, gás, urânio, ouro, etc.

O governo afegão sente falta da presença brasileira. Tanto que o Brasil é o próximo país no qual abrirá uma embaixada, no ano que vem. “É uma potência emergente”, diz Davood Moradian, assessor-chefe do ministro das Relações Exteriores afegão, Rangin Dadfar Spanta. Atualmente, as relações diplomáticas estão a cargo das embaixadas do Brasil em Islamabad e do Afeganistão em Washington.

O assessor diz que o governo afegão está contente com a mudança de política promovida pelo presidente Barack Obama, em que o Afeganistão voltou a ser prioridade para os EUA. E aponta como uma das causas da instabilidade no Afeganistão o fato de o Exército e o serviço secreto paquistaneses pensarem que “o terrorismo é uma boa moeda de troca contra a Índia, contra o Afeganistão e contra a comunidade internacional”.

Doutor em relações internacionais pela Universidade St. Andrews, na Escócia, Moradian, de 33 anos, recebeu o Estado no Ministério das Relações Exteriores em Cabul, vazio no feriado do primeiro dia do Ramadã, o mês de jejum muçulmano.

O apoio quase incondicional do governo Bush ao presidente Karzai deu lugar a uma posição crítica de Obama quanto aos resultados alcançados no Afeganistão. Vocês têm tido dificuldades em ganhar a confiança do novo governo americano?

Não. Na verdade, ficamos muito satisfeitos com essas críticas, porque não eram apenas contra o governo afegão, mas contra os erros cometidos pela administração (americana) anterior. O Afeganistão foi rebaixado pelo governo Bush. Não era prioridade. Estamos muito contentes de ver que agora o Afeganistão se tornou prioridade para Washington. Cada parte tem de assumir suas responsabilidades por erros passados, e reconhecer nossas realizações.

O prestígio da Otan está em jogo no Afeganistão. Eles ficarão aqui por muito tempo?

Não é só o prestígio, mas a segurança da Otan que está em jogo. Enfrentamos uma ameaça perigosa: a ideologia totalitária do Taleban e da Al-Qaeda. Eles não estão restritos ao Afeganistão, mas espalham-se pela Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa. A estabilidade e a segurança de muitas partes do mundo estão em jogo. Portanto, é importante que a comunidade internacional assuma um compromisso de longo prazo com o Afeganistão para ter êxito aqui.

Como vocês veem o desejo manifesto da Rússia e da China de ter um papel maior aqui?

Temos um problema nesta parte do globo: muitos ainda veem o mundo da perspectiva do século 20, da guerra fria – Oeste versus Leste, Otan versus Rússia. Os verdadeiros desafios que temos no Afeganistão são do século 21: terrorismo e fundamentalismo islâmico, que não diferencia entre o governo afegão, chinês, russo ou da Otan. Para eles, todos são inimigos. Assim como os terroristas têm uma aliança dos que pensam igual, também precisamos de uma, entre Afeganistão, China, Rússia e Otan. Todos enfrentamos as mesmas ameaças e inimigos. Felizmente, tem havido passos positivos nessa direção.

Qual a perspectiva dos projetos de gasodutos para transportar gás da Ásia Central para a Europa, passando pelo Afeganistão?

Igualmente, o problema é que a Rússia e o Irã fazem cálculos de soma zero, segundo os quais, um gasoduto do Turcomenistão para a Índia e o Paquistão via Afeganistão não é de seu interesse nacional, e tentam adiar esse projeto. Mas temos argumentado com os russos e iranianos que a situação mudou e que um Afeganistão próspero e desenvolvido também interessa a eles. Felizmente, tem havido passos concretos importantes na realização do projeto, que conta com total apoio dos Estados Unidos, da União Europeia, da Índia e do Paquistão, além do Afeganistão. Esperamos que no ano que vem sejam tomadas as primeiras medidas práticas para sua construção.

O conflito entre a Índia e o Paquistão é uma das principais causas da instabilidade do Afeganistão.

Há perspectivas de uma acomodação entre os dois países?

Tem havido esforços de aproximação. O problema é que o Exército e o serviço secreto paquistaneses, que são produto do século 20, pensam que o terrorismo é uma boa moeda de troca contra a Índia, contra o Afeganistão e contra a comunidade internacional.

A insurgência do Taleban no Paquistão não mudou isso?

O governo civil tem alguma legitimidade política, mas não poderes institucionais. As decisões de Estado importantes são tomadas pelo establishment militar e de inteligência, para o qual o terrorismo é um negócio muito vantajoso.

A China está abordando o Afeganistão como tem feito com outros países ricos em recursos minerais: sua empresa MCC ganhou um grande contrato de exploração de cobre e está disputando outro de ferro. Não há o risco de um monopólio chinês na exploração de minérios no Afeganistão?

Não. Ainda temos muitos minérios para explorar, e esperamos que as empresas brasileiras venham para cá. O Brasil é o próximo país no qual planejamos abrir uma embaixada, no ano que vem. É uma potência emergente. Sentimos falta dos brasileiros aqui.

 

 

 

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