Na TV, presidente defende apoio aos EUA

ISLAMABAD – O presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, revelou ontem o que os Estados Unidos lhe pediram – e ele oferecerá – em apoio às operações militares no vizinho Afeganistão:

inteligência e troca de informações, o uso do espaço aéreo paquistanês e suporte logístico. “Os americanos ainda não detalharam seus planos, mas o que sabemos é que, sejam quais forem as intenções dos EUA, eles têm o respaldo das resoluções da ONU em favor da luta contra os terroristas e os que os apóiam”, enfatizou Musharraf, em pronunciamento à nação, destinado a justificar, frente a uma população muçulmana simpática aos afegãos, a posição que assumiu.

O pronunciamento começou às 20h30 em Islamabad (12h30 em Brasília) com um ulema (sacerdote islâmico) cantando salmos do Alcorão, seguidos do hino nacional paquistanês.

Durante os seus 37 minutos, o discurso foi cuidadosamente dosado por uma mescla de legitimação religiosa e apelo nacionalista. Musharraf, que chegou ao poder com um golpe militar em outubro de 1999, citou vários princípios do Alcorão para respaldar sua posição, mas enfatizou que sua prioridade é o interesse nacional paquistanês.

“A América anunciou uma guerra contra o terrorismo e nunca disse nada contra o Islã nem contra o povo do Afeganistão”, argumentou o general, procurando aplacar a indignação dos paquistaneses que acham que seu governo se voltou contra a população de um país irmão.

Musharraf reconheceu que a situação não é fácil. “Este é o momento mais grave do Paquistão desde 1971”, disse ele, referindo-se a uma das três guerras que o país travou com a Índia, na disputa pelo território da Caxemira.

Mas sugeriu que a crise pode ser também uma oportunidade. “De um lado, se tomarmos uma decisão errada, as conseqüências podem ser muito ruins”, disse ele, numa referência implícita à punição dos Estados Unidos e da comunidade internacional, se o Paquistão fosse visto como um país que apóia o terrorismo. “De outro lado, se tomarmos uma decisão certa, as conseqüências podem ser muito boas.”

O Paquistão deseja o fim das sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos justamente por suas relações amistosas com o regime fundamentalista afegão do Taleban, que abriga Osama bin Laden e seu grupo Al-Qaida (A Base); e o perdão ou renegociação de sua dívida externa de US$ 6 bilhões (10% do PIB). E antevê boas chances de melhorar sua posição na cena internacional, sobretudo no que tange ao conflito com a Índia. “Politicamente, podemos emergir como um país respeitável e as conseqüências econômicas podem ser muito boas.”

Musharraf disse que discutiu o assunto com o Conselho de Segurança Nacional, o gabinete, estudiosos do Islã e intelectuais, reconheceu que “o país está um pouco dividido”, mas garantiu que “a vasta maioria está a favor da paciência e apenas de 10% a 15% estão inclinados a decisões mais emocionais”. Não há razão, disse ele, para que “uma minoria seqüestre a maioria”.

O general advertiu que o país não deve fazer o jogo dos inimigos: “Países vizinhos ofereceram aos EUA todas as instalações militares e apoio logístico, querem que a América esteja com eles e o Paquistão seja declarado país terrorista. A causa da Caxemira pode estar em risco.”

Recados – O general mandou um recado em inglês para a Índia, sem mencioná-la diretamente: “Caia fora!” Musharraf também enviou uma mensagem ao regime do Taleban: “Eu já fiz muito por eles. Quando todo mundo estava contra eles, visitei os líderes de mais de 20 países e expliquei a posição deles.

Infelizmente, meus apelos não foram ouvidos.”

O presidente paquistanês mandou uma delegação ao Afeganistão para tentar convencer o regime do Taleban, que controla 90% do país, a entregar Bin Laden.

O Taleban anunciou que primeiro será ouvida a Shura, o conselho de líderes dos clãs. O regime tomará sua decisão política com base na interpretação que os líderes fizerem de o que o Alcorão tem a dizer sobre como agir nesse caso.

Musharraf disse que sua decisão de apoiar os EUA foi tomada com base em quatro prioridades: a segurança do Paquistão, ameaçada por outros países; a economia, que seu governo tem tentado reativar; o armamento estratégico nuclear; e a Caxemira. “Nossos líderes religiosos estão inclinados a tomar decisões emocionais”, disse o general.

Musharraf lembrou que o profeta Maomé manteve durante seis anos um pacto de paz com os judeus, “os inimigos de seu tempo”, enquanto ganhava tempo para fortalecer o Islã.

O general reiterou, também, que não tomou a decisão por medo.

 

“Lutei duas guerras, enfrentei muitos perigos, sem nunca demonstrar medo”, disse ele. “Mas não devemos ser tolos.”

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