Medvedev volta a criticar os EUA

Provável sucessor de Putin afirma que reconhecimento americano de Kosovo ameaça segurança na região

 

MOSCOU – As Forças Armadas russas anunciaram ontem que vão colocar este ano em operação 11 novos mísseis intercontinentais do tipo Topol-M, com alcance de cerca de 11 mil quilômetros. Os mísseis, segundo os militares russos, são imunes a qualquer barreira antimísseis “atual e futura” dos Estados Unidos. A fabricação dos mísseis está vinculada a um incremento de 20% no orçamento de defesa deste ano, que saltará para US$ 40 bilhões. 

O governo do presidente Vladimir Putin tem tido crescentes atritos com os Estados Unidos, e um dos pontos nevrálgicos é o plano americano de instalar sistemas antimísseis em países do Leste Europeu, oficialmente para conter ataques de inimigos declarados, como o Irã. Internamente, Putin tem trabalhado para recuperar o orgulho nacional russo, profundamente ferido depois do desmembramento da União Soviética, em 1990, quando o país sofreu um brusco encolhimento no território e no status de superpotência. 

As pesquisas de opinião e as conversas com os russos nas ruas sugerem que esse é um dos motivos-chave da alta popularidade de Putin (entre 70% e 80%), ao lado da estabilidade e da prosperidade econômica. No início do mês, a Marinha e a Força Aérea russa realizaram o seu primeiro exercício de grande escala no Oceano Atlântico e no Mar Mediterrâneo em 15 anos. Depois da operação, Putin festejou o fato de que as Forças Armadas russas se tornaram mais móveis e prontas para o combate: “Trata-se de um programa de desenvolvimento militar até 2020, levando em consideração os desafios modernos e as ameaças aos interesses nacionais russos.”

Putin, de 55 anos, faz planos de longo prazo. Seu segundo mandato se encerra agora, mas ele apontou um sucessor, o vice-primeiro-ministro Dmitri Medvedev, de 42 anos, que segundo as pesquisas se elegerá facilmente no domingo. Putin anunciou que será indicado primeiro-ministro por Medvedev, que já foi seu chefe de gabinete.

Seguindo a linha do ex-chefe, Medvedev voltou a criticar ontem a política externa americana. “A estabilidade e a segurança de toda a região estão sendo ameaçadas”, disse Medvedev, referindo-se ao apoio dos EUA à proclamação da independência de Kosovo, de maioria albanesa, em relação à Sérvia. “É só acender um fósforo e tudo vai pegar fogo.”

As faixas de propaganda de Medvedev espalhadas por Moscou sugerem abertamente: “Vote no presidente. Escolha uma Rússia forte e estável.” A maioria dos eleitores diz que vai votar “em Putin”, referindo-se a Medvedev. Para não deixar dúvidas, o candidato disse ontem que se sente “obrigado a continuar o curso que provou ser eficiente nos últimos oito anos: o do presidente Putin”. A promessa foi mostrada repetidas vezes pela televisão estatal. Pesquisa de intenção de voto realizada entre os dias 8 e 13 pelo instituto independente Levada Center indica que 80% dos eleitores votarão em Medvedev, seguido de longe pelo candidato comunista Gennady Zyuganov, com 11%, e pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, com 9%.

Candidatos da oposição acusam a Comissão Eleitoral e a mídia, amplamente controlada pelo governo, de não terem permitido uma disputa justa. O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, que desistiu de se candidatar a presidente, anuncia para segunda-feira, dia seguinte ao da votação, manifestações de protesto para “impugnar nas ruas” a eleição de Medvedev.

 

“Embora pareça que o Kremlin ganharia mesmo numa eleição livre, ele não a permitiu”, denunciou ontem à agência Reuters o suíço Andreas Gross, chefe da única equipe de observadores ocidentais nessa eleição, a da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa. “Por que um regime que tem garantida sua permanência no poder não permite a livre competição?”

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