Na reta final, Ahmadinejad ataca Rafsanjani e ameaça moderados

Presidente diz que aliados do rival Moussavi, ‘corruptos’ e ‘prejudiciais’ ao governo, serão investigados e caçados

TEERÃ – O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, acirrou ontem seus ataques ao ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um dos políticos mais influentes do país, que apoia seu principal rival na eleição de amanhã, o candidato moderado Mir Hossein Moussavi. Se reeleito, Ahmadinejad prometeu caçar os “corruptos” e tirar o seu poder. Com uma agressividade sem precedentes numa eleição iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979, Ahmadinejad acusa Rafsanjani e sua família de desviar dinheiro público.

“Em 16 anos, eles não conseguiram fazer nada”, disse Ahmadinejad ontem, durante seu comício de encerramento de campanha, referindo-se a Rafsanjani, presidente entre 1989 e 1997, e ao reformista Mohammad Khatami (entre 1997 e 2005), que retirou sua candidatura para apoiar Moussavi. “Eles têm de responder ao povo o que fizeram com o dinheiro do país.” A multidão gritou: “Morte aos corruptos.”

“Depois da eleição, que se Deus quiser ganharei, eles terão de responder por sua corrupção”, continuou Ahmadinejad, falando a cerca de 10 mil pessoas em frente à mesquita da Universidade Técnica Sharif. Seus partidários gritaram: “É preciso matar os corruptos.”

Ahmadinejad lembrou que Ali, o sucessor do profeta Maomé, considerou um dever denunciar quem rouba. “Desde os primeiros dias do Islã, e também da Revolução, o povo apoiou. Mas esses 16 anos foram contrários às leis do Islã”, argumentou o presidente. “Nos próximos quatro anos, vou denunciar todos os corruptos e eles não terão mais o poder que têm hoje.” Um enorme cartaz pendurado numa passagem de pedestres sobre a avenida retratava Rafsanjani, sua filha Faezl, seu irmão Mohammad e outros aliados de Moussavi como personagens da comédia “Os Excluídos”, uma versão iraniana do Exército de Brancaleone, sobre um bando de tontos que foram à guerra Irã-Iraque (1980-88) e não sabiam lutar.

Desde a campanha presidencial de 2005, em que derrotou Rafsanjani, Ahmadinejad tem sugerido o envolvimento do ex-presidente e de sua família com corrupção – um tema recorrente também em conversas de bastidores. No debate com Moussavi na semana passada, no entanto, o presidente elevou o tom, acusando-os de desviar e lavar dinheiro.

O ex-presidente pediu direito de resposta à TV estatal, controlada por Ahmadinejad, mas não foi atendido. Na quarta-feira, Rafsanjani enviou uma longa carta ao líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, na qual pede que ele tome providências para conter os ataques de Ahmadinejad, caso contrário haveria reações que poderiam desestabilizar o país.

Rafsanjani preside a Assembléia dos Experts, composta por 86 teólogos, que elege e pode destituir o líder espiritual. Ele também chefia o Conselho de Conveniência do Estado, que julga se as leis aprovadas no Parlamento estão de acordo com os princípios da Revolução Islâmica.

Ontem foi a vez de os Guardas Revolucionários, controlados por Khamenei e aliados de Ahmadinejad, saírem na defesa do presidente. Seu comandante, Yadollah Javani, publicou declarações no site da força na internet, dizendo que esmagaria qualquer tentativa de lançar no Irã uma “revolução de veludo”, referência ao movimento pacífico que derrubou o regime comunista da antiga Checoslováquia, em 1989. Segundo a Associated Press, Javani acrescentou que os Guardas estão prontos para conter uma eventual onda de violência pós-eleitoral e esmagar os opositores.

Ahmadinejad foi integrante dos Guardas Revolucionários, formados depois da Revolução. Seu governo tem repassado negócios lucrativos, nos setores bancário e do petróleo, para integrantes da força.

Ahmadinejad, populista, conservador e ultranacionalista, não esconde sua intenção de radicalizar num eventual segundo mandato. “Um dos meus maiores erros foi ter mantido gente dos governos anteriores, que prejudicaram o meu governo”, disse ele ontem no comício. A constatação equivale a uma declaração de guerra na política iraniana, marcada desde a Revolução pela distribuição de poder entre conservadores e moderados.

Ahmadinejad acusou Moussavi e seus aliados de “lançar uma guerra psicológica, como a usada por Hitler, contra o povo do Irã”.

Moussavi e outros oposicionistas têm acusado Ahmadinejad de atrair a hostilidade do mundo com a propaganda desafiante que faz do programa nuclear iraniano e com suas afirmações de que o Holocausto não ocorreu e Israel deve desaparecer. Eles também o chamam de “mentiroso” por negar o aumento da inflação e por ter acusado a mulher de Moussavi, Zaghra Rahnavard, de forjar certificados na universidade.

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.

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